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Friday, 16 January 2009

'DESEMBRULHANDO A CRISE' (II)

Desde o primeiro numero desta serie, pode-se seguramente dizer que “a crise vai bem, obrigada”: alguns dos maiores gigantes do fordismo nos EUA e na Europa (em particular na industria automovel, incluindo a iconica Ford) seguiram-se aos ‘tigres de papel’ de Wall Street e da City de Londres na longa ‘bicha’ de pedintes de dinheiros publicos; os poderes publicos, por seu lado, nao se teem poupado a alargar os cordoes a bolsa para, por um lado, atender aos pedintes dos sectores produtivo e especulativo e, por outro, conceder todos os estimulos possiveis e imaginaveis, tanto fiscais como crediticios, aos deprimidos consumidores e, por via disso, foram descendo as taxas de juro ate’ ao nivel zero ou, numa outra analise, a linha de passe entre a recessao e a depressao.

Enquanto isso, varios operadores em todos os sectores economicos continuaram a afundar-se – com alguns casos de policia e tragicos suicidios pelo meio – e a generalidade dos consumidores continuaram a nao impedir que grandes nomes da ‘high/main street’ (do que a Woolworths – uma cadeia retalhista com mais de um seculo de existencia no mercado Britanico – tem sido nas ultimas semanas o caso mais emblematico) continuem a falir. Estaremos, assim, numa situacao que nos permite visualizar em termos praticos e reais aquilo que, em termos teoricos, e’ definido em macroeconomia como a “armadilha da liquidez”, ou seja, uma situacao em que, por mais barato que seja o dinheiro, as politicas monetaria e fiscal se demonstram incapazes por si sos de estimular a producao e o consumo e, consequentemente, o crescimento economico.

Essa situacao, porem, poder-se-ia restringir ao ocidente, nao estivessemos nos numa economia globalizada (globalizadora?) e nao fossem as restricoes impostas pela OPEP aos paises produtores de petroleo (Angola) que os deixam em nao tao ‘bons espiritos’ quanto em condicoes normais seria de prever, particularmente quando estes estao sobremaneira depedentes de, por um lado, emprestimos estrangeiros e, por outro, aplicacoes financeiras que, na actual conjuntura, se apresentam tao vulneraveis quanto quaisquer outras nas pracas financeiras internacionais. A tal ponto que, quando o estudo de viabilidade do recem-projectado Fundo Soberano Angolano estiver concluido, talvez ja’ nao haja fundos assim tao disponiveis para o instituir e manter… Ha’, contudo, neste contexto, uma noticia geralmente animadora: a China, neste momento maior parceiro economico de Angola, acaba de ascender a posicao de terceira maior economia mundial, depois dos EUA e do Japao, tendo destronado a Alemanha daquela posicao. Ate’ que ponto sera’ esta uma noticia particularmente animadora para Angola? Questao a acompanhar nos proximos tempos. Por agora, voltemos brevemente ao primeiro numero desta serie, que assim terminei:

Essa, do meu ponto de vista, a essencia da crise que se vem desenrolando aos nossos olhos. Se ha’ uma licao basica a retirar dela, e’ que nenhuma economia se pode dar ao luxo de perder o equilibrio essencial entre o sector de bens (e servicos) e o sector das financas, ou seja, entre a economia real e a economia monetaria. Este ‘lembrete’ torna-se particularmente relevante para algumas das questoes que levantei, bastante antes desta crise, no meu artigo “Politica, Futebol e Algumas Consideracoes sobre a Actual Conjuntura Economica Angolana”. A elas voltarei.

E, aqui volto a elas, como prometido. Nao directamente, mas atraves do economista no pensamento de quem se estruturou sobremaneira a minha formacao basica em Economia, John Maynard Keynes {ele que, tendo dito que “os homens praticos que acreditam estar imunes a qualquer influencia intelectual, sao normalmente escravos de um qualquer economista defunto” (tenho ca’ para mim que ele deveria estar a pensar no economista entao ja' defunto Karl Marx…), tem suscitado recentemente afirmacoes que o creditam como o unico economista (defunto) a quem recorrer neste momento em busca de solucoes para a actual crise, pelo facto de a sua analise de recessoes e depressoes economicas continuar a ser a fundacao da moderna macroeconomia, ou que, tendo ele famosamente afirmado que "no longo prazo (do ciclo historico-economico) estamos todos mortos", verifica-se agora que neste momento ele esta tudo menos morto , ao ponto de ter sido referido como o homem do ano - passado, que, pelo menos no que diz respeito a crise economica, continua neste ano que agora se inicia}, usando duas citacoes, que me parecem fulcrais no ambito da analise que sugeri naquele meu artigo do inicio de 2006, de uma celebre carta aberta que ele enderecou, em 1933, ao entao Presidente Roosevelt dos EUA, oferecendo o seu technical advice para a recuperacao da Grande Depressao que se vivia naqueles dias:

“(…) O objectivo da recuperacao e’ aumentar o produto nacional e colocar mais homens a trabalhar. No sistema economico do mundo moderno, o produto e’ primariamente para venda; e o volume do produto depende da quantidade do poder de compra, comparada com o custo primario da producao que se espera colocar no mercado. Genericamente falando, portanto, um aumento do produto nao se pode verificar a menos que opere um ou outro de tres factores. Os individuos devem ser induzidos a gastar mais dos seus rendimentos existentes; ou o mundo empresarial deve ser induzido, seja atraves de um aumento da confianca nas expectativas ou de uma mais baixa taxa de juro, a criar adicionais rendimentos correntes nas maos dos seus empregados, o que acontece quando ou o capital fixo, ou o capital operacional do pais esta’ a ser incrementado; ou a autoridade publica tem que ser chamada para ajudar a criar rendimentos correntes adicionais atraves de despesa ou de dinheiro emprestado ou imprimido. Em maus tempos nao se pode esperar que o primeiro factor funcione a uma escala suficiente. O segundo factor entrara’ em accao como a segunda onda de ataque a recessao depois da vaga ter sido contrariada pela despesa publica. E’, portanto, apenas do terceiro factor que se pode esperar o maior impulso inicial.”

Ora, como vimos nos paragrafos iniciais deste post, este diagnostico de Keynes e’ claramente evidenciado pela presente crise economica, nao apenas ocidental, mas global, incluindo o mercado domestico da China, apesar da sua recente ascensao a categoria de terceira potencia mundial -, sendo que, a par do consenso que se reune a volta da necessidade de conceder estimulos a economia, decorre neste momento um debate bastante interessante sobre os limites desses estimulos e as melhores vias para os tornarem mais eficazes. Vejamos entao qual a prescricao de Keynes:

“(…) Assim, como primordial incentivador no primeiro estagio da tecnica de recuperacao, eu ponho uma enfase avassaladora no aumento do poder de compra nacional, resultante da despesa governamental, que seja financiado por emprestimos e nao por tributacao dos rendimentos presentes. Nada mais conta em comparacao com isto. Numa situacao de expansao economica, a inflacao pode ser causada pela permissao de que o credito ilimitado apoie o entusiasmo excitado dos especuladores empresariais. Mas numa recessao, a despesa crediticia governamental e’ a unica forma segura de se garantir rapidamente um aumento do produto a precos crescentes. E’ por isso que uma guerra causa sempre uma intensa actividade industrial. No passado, o financiamento ortodoxo via uma guerra como a unica legitima desculpa para a criacao de emprego atraves da despesa governamental. Voce, Sr. Presidente, tendo deixado de lado tal pensamento, e’ livre de utilizar nos interesses da paz e da prosperidade a tecnica a qual ate’ agora apenas foi permitido servir os propositos da guerra e da destruicao.”

Nao se aplica isto bem a Angola, meus caros leitores? Eu diria que sim, especialmente tendo em conta o que ele diz num outro paragrafo da mesma carta quanto as areas em que a despesa publica se deveria aplicar, “(…) devera’ ser dada preferencia aquelas que poderao mais rapidamente madurar em grande escala, como por exemplo a reabilitacao das condicoes fisicas das linhas ferreas” (ao que poderiamos acrescentar outras obras publicas e investimentos em infra-estruturas, como a construcao de habitacoes e a reabilitacao de estradas, etc.). Mas diria tambem algo mais: que o diagnostico e prescricao de Keynes – onde ele diz, nomeadamente, que “o objectivo da recuperacao e’ aumentar o produto nacional e colocar mais homens a trabalhar” e que “eu ponho uma enfase avassaladora no aumento do poder de compra nacional” e, ja' agora, ao que ele tambem disse num outro contexto: "a politica monetaria e cambial de um pais devera’ ser inteiramente subordinada ao objectivo do aumento da producao e do emprego ao nivel certo" -, referem-se estritamente ao produto, ao emprego e ao poder de compra dos nacionais. Aplicar-se-ha’ isto inteiramente a Angola? Esse e’, do meu (humilde, il faut le dire…), ponto de vista, o prublema que ainda estamos kum ele
Desde o primeiro numero desta serie, pode-se seguramente dizer que “a crise vai bem, obrigada”: alguns dos maiores gigantes do fordismo nos EUA e na Europa (em particular na industria automovel, incluindo a iconica Ford) seguiram-se aos ‘tigres de papel’ de Wall Street e da City de Londres na longa ‘bicha’ de pedintes de dinheiros publicos; os poderes publicos, por seu lado, nao se teem poupado a alargar os cordoes a bolsa para, por um lado, atender aos pedintes dos sectores produtivo e especulativo e, por outro, conceder todos os estimulos possiveis e imaginaveis, tanto fiscais como crediticios, aos deprimidos consumidores e, por via disso, foram descendo as taxas de juro ate’ ao nivel zero ou, numa outra analise, a linha de passe entre a recessao e a depressao.

Enquanto isso, varios operadores em todos os sectores economicos continuaram a afundar-se – com alguns casos de policia e tragicos suicidios pelo meio – e a generalidade dos consumidores continuaram a nao impedir que grandes nomes da ‘high/main street’ (do que a Woolworths – uma cadeia retalhista com mais de um seculo de existencia no mercado Britanico – tem sido nas ultimas semanas o caso mais emblematico) continuem a falir. Estaremos, assim, numa situacao que nos permite visualizar em termos praticos e reais aquilo que, em termos teoricos, e’ definido em macroeconomia como a “armadilha da liquidez”, ou seja, uma situacao em que, por mais barato que seja o dinheiro, as politicas monetaria e fiscal se demonstram incapazes por si sos de estimular a producao e o consumo e, consequentemente, o crescimento economico.

Essa situacao, porem, poder-se-ia restringir ao ocidente, nao estivessemos nos numa economia globalizada (globalizadora?) e nao fossem as restricoes impostas pela OPEP aos paises produtores de petroleo (Angola) que os deixam em nao tao ‘bons espiritos’ quanto em condicoes normais seria de prever, particularmente quando estes estao sobremaneira depedentes de, por um lado, emprestimos estrangeiros e, por outro, aplicacoes financeiras que, na actual conjuntura, se apresentam tao vulneraveis quanto quaisquer outras nas pracas financeiras internacionais. A tal ponto que, quando o estudo de viabilidade do recem-projectado Fundo Soberano Angolano estiver concluido, talvez ja’ nao haja fundos assim tao disponiveis para o instituir e manter… Ha’, contudo, neste contexto, uma noticia geralmente animadora: a China, neste momento maior parceiro economico de Angola, acaba de ascender a posicao de terceira maior economia mundial, depois dos EUA e do Japao, tendo destronado a Alemanha daquela posicao. Ate’ que ponto sera’ esta uma noticia particularmente animadora para Angola? Questao a acompanhar nos proximos tempos. Por agora, voltemos brevemente ao primeiro numero desta serie, que assim terminei:

Essa, do meu ponto de vista, a essencia da crise que se vem desenrolando aos nossos olhos. Se ha’ uma licao basica a retirar dela, e’ que nenhuma economia se pode dar ao luxo de perder o equilibrio essencial entre o sector de bens (e servicos) e o sector das financas, ou seja, entre a economia real e a economia monetaria. Este ‘lembrete’ torna-se particularmente relevante para algumas das questoes que levantei, bastante antes desta crise, no meu artigo “Politica, Futebol e Algumas Consideracoes sobre a Actual Conjuntura Economica Angolana”. A elas voltarei.

E, aqui volto a elas, como prometido. Nao directamente, mas atraves do economista no pensamento de quem se estruturou sobremaneira a minha formacao basica em Economia, John Maynard Keynes {ele que, tendo dito que “os homens praticos que acreditam estar imunes a qualquer influencia intelectual, sao normalmente escravos de um qualquer economista defunto” (tenho ca’ para mim que ele deveria estar a pensar no economista entao ja' defunto Karl Marx…), tem suscitado recentemente afirmacoes que o creditam como o unico economista (defunto) a quem recorrer neste momento em busca de solucoes para a actual crise, pelo facto de a sua analise de recessoes e depressoes economicas continuar a ser a fundacao da moderna macroeconomia, ou que, tendo ele famosamente afirmado que "no longo prazo (do ciclo historico-economico) estamos todos mortos", verifica-se agora que neste momento ele esta tudo menos morto , ao ponto de ter sido referido como o homem do ano - passado, que, pelo menos no que diz respeito a crise economica, continua neste ano que agora se inicia}, usando duas citacoes, que me parecem fulcrais no ambito da analise que sugeri naquele meu artigo do inicio de 2006, de uma celebre carta aberta que ele enderecou, em 1933, ao entao Presidente Roosevelt dos EUA, oferecendo o seu technical advice para a recuperacao da Grande Depressao que se vivia naqueles dias:

“(…) O objectivo da recuperacao e’ aumentar o produto nacional e colocar mais homens a trabalhar. No sistema economico do mundo moderno, o produto e’ primariamente para venda; e o volume do produto depende da quantidade do poder de compra, comparada com o custo primario da producao que se espera colocar no mercado. Genericamente falando, portanto, um aumento do produto nao se pode verificar a menos que opere um ou outro de tres factores. Os individuos devem ser induzidos a gastar mais dos seus rendimentos existentes; ou o mundo empresarial deve ser induzido, seja atraves de um aumento da confianca nas expectativas ou de uma mais baixa taxa de juro, a criar adicionais rendimentos correntes nas maos dos seus empregados, o que acontece quando ou o capital fixo, ou o capital operacional do pais esta’ a ser incrementado; ou a autoridade publica tem que ser chamada para ajudar a criar rendimentos correntes adicionais atraves de despesa ou de dinheiro emprestado ou imprimido. Em maus tempos nao se pode esperar que o primeiro factor funcione a uma escala suficiente. O segundo factor entrara’ em accao como a segunda onda de ataque a recessao depois da vaga ter sido contrariada pela despesa publica. E’, portanto, apenas do terceiro factor que se pode esperar o maior impulso inicial.”

Ora, como vimos nos paragrafos iniciais deste post, este diagnostico de Keynes e’ claramente evidenciado pela presente crise economica, nao apenas ocidental, mas global, incluindo o mercado domestico da China, apesar da sua recente ascensao a categoria de terceira potencia mundial -, sendo que, a par do consenso que se reune a volta da necessidade de conceder estimulos a economia, decorre neste momento um debate bastante interessante sobre os limites desses estimulos e as melhores vias para os tornarem mais eficazes. Vejamos entao qual a prescricao de Keynes:

“(…) Assim, como primordial incentivador no primeiro estagio da tecnica de recuperacao, eu ponho uma enfase avassaladora no aumento do poder de compra nacional, resultante da despesa governamental, que seja financiado por emprestimos e nao por tributacao dos rendimentos presentes. Nada mais conta em comparacao com isto. Numa situacao de expansao economica, a inflacao pode ser causada pela permissao de que o credito ilimitado apoie o entusiasmo excitado dos especuladores empresariais. Mas numa recessao, a despesa crediticia governamental e’ a unica forma segura de se garantir rapidamente um aumento do produto a precos crescentes. E’ por isso que uma guerra causa sempre uma intensa actividade industrial. No passado, o financiamento ortodoxo via uma guerra como a unica legitima desculpa para a criacao de emprego atraves da despesa governamental. Voce, Sr. Presidente, tendo deixado de lado tal pensamento, e’ livre de utilizar nos interesses da paz e da prosperidade a tecnica a qual ate’ agora apenas foi permitido servir os propositos da guerra e da destruicao.”

Nao se aplica isto bem a Angola, meus caros leitores? Eu diria que sim, especialmente tendo em conta o que ele diz num outro paragrafo da mesma carta quanto as areas em que a despesa publica se deveria aplicar, “(…) devera’ ser dada preferencia aquelas que poderao mais rapidamente madurar em grande escala, como por exemplo a reabilitacao das condicoes fisicas das linhas ferreas” (ao que poderiamos acrescentar outras obras publicas e investimentos em infra-estruturas, como a construcao de habitacoes e a reabilitacao de estradas, etc.). Mas diria tambem algo mais: que o diagnostico e prescricao de Keynes – onde ele diz, nomeadamente, que “o objectivo da recuperacao e’ aumentar o produto nacional e colocar mais homens a trabalhar” e que “eu ponho uma enfase avassaladora no aumento do poder de compra nacional” e, ja' agora, ao que ele tambem disse num outro contexto: "a politica monetaria e cambial de um pais devera’ ser inteiramente subordinada ao objectivo do aumento da producao e do emprego ao nivel certo" -, referem-se estritamente ao produto, ao emprego e ao poder de compra dos nacionais. Aplicar-se-ha’ isto inteiramente a Angola? Esse e’, do meu (humilde, il faut le dire…), ponto de vista, o prublema que ainda estamos kum ele

Friday, 10 October 2008

'DESEMBRULHANDO A CRISE' (I)

Sub-entitulei este blog “deitando contas a vida” porque, sendo economista de formacao e exercendo a minha actividade profissional geralmente em ambientes, ou com responsabilidades, que nao me conferem facilmente o tempo necessario ou um espaco que me permita dedicar-me a outros interesses que sempre tive ao longo da vida e que durante varios anos tive que deixar completamente negligenciados, sentia necessidade de arranjar esse tempo e espaco.

Por isso a criacao deste blog, como um lugar onde pudesse fazer, dizer e discutir o que me desse ‘na real gana’, sem grandes formalidades ou preocupacoes de rigor profissional, academico ou diplomatico, mantendo embora a seriedade e honestidade que julgo serem devidas a qualquer espaco de publicacao. Portanto, como economista, se viesse a “deitar contas” a alguma coisa neste espaco seria apenas, e muito informalmente, “a vida” tomada na sua forma mais geral, despreocupada e descomprometida possivel.

Por essa razao, tenho evitado, tanto quanto possivel, trazer para aqui questoes que sejam, directa ou indirectamente, do meu ambito profissional. Assim, alguns dos artigos ou outros materiais de minha autoria sobre questoes relativas a economia ou a historia economica que aqui postei, ou ja’ tinham sido publicados noutros espacos, ou, se escritos durante a existencia deste blog, preferi publica-los noutros espacos online, como o Africanpath ou o Atlantic Community.

Vem isto em geito de introducao a esta nova serie, que entitulo ‘desembrulhando a crise’, porque pretendo com ela fazer isso mesmo: tentar desembrulhar os varios aspectos da actual crise economica global, quanto mais nao seja porque, como nenhuma outra na memoria recente, ela tem tido e vai continuar a ter por tempo ainda dificil de predizer os mais diversos impactos na vida de todos nos de forma geral, tornando-a menos despreocupada e descomprometida do que muito provavelmente todos gostariamos. Tentarei faze-lo malembe malembe, como convem a natureza das questoes envolvidas e ao tempo de que disponho, evitando, no entanto, o mais possivel, torna-la demasiado academica ou profissional, ate’ porque isso apenas “embrulharia” ainda mais as questoes em causa.

I. De ‘gigantes com pes de barro’, ‘tigres de papel’ e ‘baloes de ar rarefeito’

Como todos ja’ sabemos, os sinais mais preocupantes desta crise comecaram a anunciar-se ha’ pouco mais de um ano nos EUA, com o que ficou conhecido como a crise do “sub-prime”. O credito "sub-prime" (ou sub-prime lending) no mercado imobiliario e’ geralmente entendido como emprestimos habitacionais concedidos a individuos com um baixo credit rating (ou seja, que por varias razoes, desde relativamente baixos salarios e/ou inseguras fontes de rendimento a falta de pagamento de creditos anteriores, normalmente nao teriam acesso ao credito bancario para tais, ou mesmo outros, efeitos). O termo tambem se aplica a transaccoes financeiras sobre propriedades com um valor real, ou potencial, inferior aquele pelo qual tenham sido incialmente quotadas. A circunstancia de tao grande numero de propriedades ter caido nessa categoria nos EUA deveu-se fundamentalmente a duas ordens de factores:

1. Os bancos, de forma alarmantemente generalizada, vinham concedendo credito para a compra de habitacoes a segmentos populacionais que nao tinham condicoes reais de as pagar, isto e’, que caiam na categoria do sub-prime lending. Essa pratica tornou-se ainda mais danosa quando, como se verificou em muitos casos, se estendeu a habitacoes de baixo valor patrimonial, quer intrinseco, quer em termos da sua localizacao, as quais, caso os bancos credores tivessem – como foram tendo num relativamente curto espaco de tempo, a medida que os niveis de desemprego se iam tornando cada vez mais elevados –, necessidade de as retomar (atraves das chamadas foreclosures, ou execucao contenciosa de hipotecas) para as revenderem no mercado, nao lhes renderiam o suficiente, isto se lhes rendessem alguma coisa, para cobrirem as perdas devidas ao mau credito inicial que sobre elas tinham feito.
A piorar a situacao, a recessao que se vinha instalando noutros sectores da economia, fez com que grande numero de propriedades, mesmo com relativamente maior valor patrimonial, tambem se tornassem ‘pesos mortos’ nos seus inventarios e balancos, porque se colocadas ou recolocadas no mercado, quer primario (as casas propriamente ditas a novos compradores), quer secundario (as hipotecas, ou mortgages, das casas a outros agentes do sistema financeiro) dificilmente viriam a encontrar oportunidades de transaccao viaveis ou suficientemente lucrativas.

2. Paralelamente a divida contraida para a compra de habitacoes, os consumidores, no mercado sub-prime e nao so, foram tambem adquirindo do sistema financeiro outros creditos para consumo, ou para investimento pessoal (e.g. seguros de vida, ou para cuidados de saude e tratamento hospitalar – de notar que os EUA nao teem um servico publico de saude), em certos casos com base nas hipotecas de tais habitacoes, mesmo quando ainda nao as tivessem pago completamente, o que veio “embrulhar” ainda mais a crise. A este ponto voltarei mais tarde.

Esta crise remete-nos para a pedra basilar do funcionamento do sistema bancario ou, dito de outro modo, para a regra de ouro da concessao de credito: o emprestimo de qualquer valor monetario por qualquer credor, banco ou outro agente financeiro, tem que ter por base um valor real, que sirva de garantia para o reembolso de tal emprestimo, por parte do devedor. Isto e’, nao deve haver credito sem ‘colateral’ (ou seja, um bem tangivel que, no caso da actual crise, sao ou seriam as habitacoes sobre as quais os emprestimos privados, quer em termos de quantias monetarias, quer sob a forma de cartoes de credito, foram concedidos).

Ora, essa regra de ouro foi violada seria e serialmente pelo sistema bancario Americano que, ao faze-lo e perante uma recessao generalizada da economia, ficou exposto como um ‘gigante com pes de barro’, ‘tigre de papel’ ou ‘balao de ar rarefeito’: isto e’, perante a contraccao da economia real (devido ao que se poderia classificar como a ‘rarefaccao do oxigenio’ criado pelo emprego, a produtividade, o investimento e, em consequencia destes, pelo crescimento economico), o sistema financeiro – incluindo todos os seus sectores: o primario, constituido essencialmente pelos bancos comerciais e de credito (os que sustentam a chamada main street, ou seja, qualquer 'rua principal' onde se fazem os negocios particulares do dia a dia); o secundario, constituido essencialmente pelas companhias de seguros e resseguros (como a American International Group, AIG, operando sobretudo no seguro de bancos) e instituicoes operando na concessao de garantias a emprestimos (como a Federal Home Loan Mortgage Corporation, mais conhecida como Freddie Mac, e a Federal National Mortgage Association, mais conhecida como Fannie Mae); o terciario, constituido pelas bolsas de valores (proeminentemente a de Wall Street, ‘reinado’ de investidores como Lehman Brothers e Merril Lynch) e, ultimamente, com a aprovacao da ‘boia de salvacao’ de 700 bilioes de dolares pelo governo, ate’ o ‘emprestador de ultimo recurso’ do sistema, isto e’, o Banco Central (Federal Reserve, Fed) –, deixou de ter terra firme (os bens tangiveis, as casas) em que assentar os pes, transaccionando apenas com base em ‘papeis’ (notas de credito) sem qualquer valor real. Dai as falencias em catadupa de todos os operadores financeiros acima citados, uns completamente, outros temporariamente salvos pelo FED.

Essa, do meu ponto de vista, a essencia da crise que se vem desenrolando aos nossos olhos.
Se ha’ uma licao basica a retirar dela, e’ que nenhuma economia se pode dar ao luxo de perder o equilibrio essencial entre o sector de bens (e servicos) e o sector das financas, ou seja, entre a economia real e a economia monetaria. Este ‘lembrete’ torna-se particularmente relevante para algumas das questoes que levantei, bastante antes desta crise, no meu artigo “Politica Futebol e Algumas Consideracoes sobre a Actual Conjuntura Economica Angolana”.
A elas voltarei.
Sub-entitulei este blog “deitando contas a vida” porque, sendo economista de formacao e exercendo a minha actividade profissional geralmente em ambientes, ou com responsabilidades, que nao me conferem facilmente o tempo necessario ou um espaco que me permita dedicar-me a outros interesses que sempre tive ao longo da vida e que durante varios anos tive que deixar completamente negligenciados, sentia necessidade de arranjar esse tempo e espaco.

Por isso a criacao deste blog, como um lugar onde pudesse fazer, dizer e discutir o que me desse ‘na real gana’, sem grandes formalidades ou preocupacoes de rigor profissional, academico ou diplomatico, mantendo embora a seriedade e honestidade que julgo serem devidas a qualquer espaco de publicacao. Portanto, como economista, se viesse a “deitar contas” a alguma coisa neste espaco seria apenas, e muito informalmente, “a vida” tomada na sua forma mais geral, despreocupada e descomprometida possivel.

Por essa razao, tenho evitado, tanto quanto possivel, trazer para aqui questoes que sejam, directa ou indirectamente, do meu ambito profissional. Assim, alguns dos artigos ou outros materiais de minha autoria sobre questoes relativas a economia ou a historia economica que aqui postei, ou ja’ tinham sido publicados noutros espacos, ou, se escritos durante a existencia deste blog, preferi publica-los noutros espacos online, como o Africanpath ou o Atlantic Community.

Vem isto em geito de introducao a esta nova serie, que entitulo ‘desembrulhando a crise’, porque pretendo com ela fazer isso mesmo: tentar desembrulhar os varios aspectos da actual crise economica global, quanto mais nao seja porque, como nenhuma outra na memoria recente, ela tem tido e vai continuar a ter por tempo ainda dificil de predizer os mais diversos impactos na vida de todos nos de forma geral, tornando-a menos despreocupada e descomprometida do que muito provavelmente todos gostariamos. Tentarei faze-lo malembe malembe, como convem a natureza das questoes envolvidas e ao tempo de que disponho, evitando, no entanto, o mais possivel, torna-la demasiado academica ou profissional, ate’ porque isso apenas “embrulharia” ainda mais as questoes em causa.

I. De ‘gigantes com pes de barro’, ‘tigres de papel’ e ‘baloes de ar rarefeito’

Como todos ja’ sabemos, os sinais mais preocupantes desta crise comecaram a anunciar-se ha’ pouco mais de um ano nos EUA, com o que ficou conhecido como a crise do “sub-prime”. O credito "sub-prime" (ou sub-prime lending) no mercado imobiliario e’ geralmente entendido como emprestimos habitacionais concedidos a individuos com um baixo credit rating (ou seja, que por varias razoes, desde relativamente baixos salarios e/ou inseguras fontes de rendimento a falta de pagamento de creditos anteriores, normalmente nao teriam acesso ao credito bancario para tais, ou mesmo outros, efeitos). O termo tambem se aplica a transaccoes financeiras sobre propriedades com um valor real, ou potencial, inferior aquele pelo qual tenham sido incialmente quotadas. A circunstancia de tao grande numero de propriedades ter caido nessa categoria nos EUA deveu-se fundamentalmente a duas ordens de factores:

1. Os bancos, de forma alarmantemente generalizada, vinham concedendo credito para a compra de habitacoes a segmentos populacionais que nao tinham condicoes reais de as pagar, isto e’, que caiam na categoria do sub-prime lending. Essa pratica tornou-se ainda mais danosa quando, como se verificou em muitos casos, se estendeu a habitacoes de baixo valor patrimonial, quer intrinseco, quer em termos da sua localizacao, as quais, caso os bancos credores tivessem – como foram tendo num relativamente curto espaco de tempo, a medida que os niveis de desemprego se iam tornando cada vez mais elevados –, necessidade de as retomar (atraves das chamadas foreclosures, ou execucao contenciosa de hipotecas) para as revenderem no mercado, nao lhes renderiam o suficiente, isto se lhes rendessem alguma coisa, para cobrirem as perdas devidas ao mau credito inicial que sobre elas tinham feito.
A piorar a situacao, a recessao que se vinha instalando noutros sectores da economia, fez com que grande numero de propriedades, mesmo com relativamente maior valor patrimonial, tambem se tornassem ‘pesos mortos’ nos seus inventarios e balancos, porque se colocadas ou recolocadas no mercado, quer primario (as casas propriamente ditas a novos compradores), quer secundario (as hipotecas, ou mortgages, das casas a outros agentes do sistema financeiro) dificilmente viriam a encontrar oportunidades de transaccao viaveis ou suficientemente lucrativas.

2. Paralelamente a divida contraida para a compra de habitacoes, os consumidores, no mercado sub-prime e nao so, foram tambem adquirindo do sistema financeiro outros creditos para consumo, ou para investimento pessoal (e.g. seguros de vida, ou para cuidados de saude e tratamento hospitalar – de notar que os EUA nao teem um servico publico de saude), em certos casos com base nas hipotecas de tais habitacoes, mesmo quando ainda nao as tivessem pago completamente, o que veio “embrulhar” ainda mais a crise. A este ponto voltarei mais tarde.

Esta crise remete-nos para a pedra basilar do funcionamento do sistema bancario ou, dito de outro modo, para a regra de ouro da concessao de credito: o emprestimo de qualquer valor monetario por qualquer credor, banco ou outro agente financeiro, tem que ter por base um valor real, que sirva de garantia para o reembolso de tal emprestimo, por parte do devedor. Isto e’, nao deve haver credito sem ‘colateral’ (ou seja, um bem tangivel que, no caso da actual crise, sao ou seriam as habitacoes sobre as quais os emprestimos privados, quer em termos de quantias monetarias, quer sob a forma de cartoes de credito, foram concedidos).

Ora, essa regra de ouro foi violada seria e serialmente pelo sistema bancario Americano que, ao faze-lo e perante uma recessao generalizada da economia, ficou exposto como um ‘gigante com pes de barro’, ‘tigre de papel’ ou ‘balao de ar rarefeito’: isto e’, perante a contraccao da economia real (devido ao que se poderia classificar como a ‘rarefaccao do oxigenio’ criado pelo emprego, a produtividade, o investimento e, em consequencia destes, pelo crescimento economico), o sistema financeiro – incluindo todos os seus sectores: o primario, constituido essencialmente pelos bancos comerciais e de credito (os que sustentam a chamada main street, ou seja, qualquer 'rua principal' onde se fazem os negocios particulares do dia a dia); o secundario, constituido essencialmente pelas companhias de seguros e resseguros (como a American International Group, AIG, operando sobretudo no seguro de bancos) e instituicoes operando na concessao de garantias a emprestimos (como a Federal Home Loan Mortgage Corporation, mais conhecida como Freddie Mac, e a Federal National Mortgage Association, mais conhecida como Fannie Mae); o terciario, constituido pelas bolsas de valores (proeminentemente a de Wall Street, ‘reinado’ de investidores como Lehman Brothers e Merril Lynch) e, ultimamente, com a aprovacao da ‘boia de salvacao’ de 700 bilioes de dolares pelo governo, ate’ o ‘emprestador de ultimo recurso’ do sistema, isto e’, o Banco Central (Federal Reserve, Fed) –, deixou de ter terra firme (os bens tangiveis, as casas) em que assentar os pes, transaccionando apenas com base em ‘papeis’ (notas de credito) sem qualquer valor real. Dai as falencias em catadupa de todos os operadores financeiros acima citados, uns completamente, outros temporariamente salvos pelo FED.

Essa, do meu ponto de vista, a essencia da crise que se vem desenrolando aos nossos olhos.
Se ha’ uma licao basica a retirar dela, e’ que nenhuma economia se pode dar ao luxo de perder o equilibrio essencial entre o sector de bens (e servicos) e o sector das financas, ou seja, entre a economia real e a economia monetaria. Este ‘lembrete’ torna-se particularmente relevante para algumas das questoes que levantei, bastante antes desta crise, no meu artigo “Politica Futebol e Algumas Consideracoes sobre a Actual Conjuntura Economica Angolana”.
A elas voltarei.