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Friday, 7 November 2008
Tuesday, 28 October 2008
APONTAMENTO
Ainda nos primordios deste blog registei aqui o seguinte comentario:
(...) tenho que lhe dizer que, da minha propria experiencia e de outras que tenho observado, a melhor forma de no nosso pais "enterrar" uma pessoa e as suas ideias e' propor que ela assuma posicoes de destaque, seja a que nivel de responsabilidade for... e' como inadvertidamente empurrarmos alguem para o cadafalso, quando tinhamos a melhor das intencoes de a elevarmos a um qualquer "pedestal do bem"...
Vou-lhe so' falar brevemente de um episodio ocorrido aqui ha uns anos: o Semanario Angolense (jornal tido como maldito e proscrito por alguns sectores "bem pensantes" da nossa sociedade)
teve a ousadia de fazer uma especie de sondagem entre algumas dezenas de pessoas no pais sobre qual deveria ser a constituicao de um hipotetico "governo ideal", ou, como eles tambem lhe chamaram, "the dream team"... acontece que do elenco resultante desse exercicio meramente especulativo constava o meu nome, entre outros que nao fazem parte do actual status quo. Pois nao imagina a "maka de sanzala" que aquilo deu! Comecou-se a falar de uma conjura golpista em curso, no contexto da qual ja se estaria a criar um "governo sombra", etc, etc, etc... E eu que estava muito bem descansadinha e totalmente inocente no meu cantinho acabei por ver renascer o tipo de problemas e agressoes pessoais e profissionais que ha muito julgava afastadas da minha vida!
Foi por acaso o sociologo Paulo de Carvalho, de quem tenho um artigo ai no 'Armario' sobre a "Exclusao Social em Angola", que tentou botar agua na fervura, com um artigo argumentando que com aquela sondagem o SA apenas tinha pretendido fazer "um exercicio de cidadania", mas... ja' era tarde demais! Algumas das pessoas incluidas no tal "dream team", em particular as que se encontram fora do pais como e' o meu caso, ja tinham sido "marcadas"...
Depois dessa experiencia, se eu tivesse juizo, devia talvez ter deixado de escrever este tipo de artigos, porque penso ter sido com base em alguns deles que algumas das pessoas que participaram na sondagem se lembraram do meu nome... Mas, feliz ou infelizmente, este e' um vicio de oficio contra o qual nada posso ou devo fazer. Apenas posso, embora ciente de que para certas pessoas em determinados circulos que se alimentam permanentemente de "teorias da conspiracao" isso de pouco ou nada adiantara', reiterar que
(...) tenho que lhe dizer que, da minha propria experiencia e de outras que tenho observado, a melhor forma de no nosso pais "enterrar" uma pessoa e as suas ideias e' propor que ela assuma posicoes de destaque, seja a que nivel de responsabilidade for... e' como inadvertidamente empurrarmos alguem para o cadafalso, quando tinhamos a melhor das intencoes de a elevarmos a um qualquer "pedestal do bem"...
Vou-lhe so' falar brevemente de um episodio ocorrido aqui ha uns anos: o Semanario Angolense (jornal tido como maldito e proscrito por alguns sectores "bem pensantes" da nossa sociedade)
teve a ousadia de fazer uma especie de sondagem entre algumas dezenas de pessoas no pais sobre qual deveria ser a constituicao de um hipotetico "governo ideal", ou, como eles tambem lhe chamaram, "the dream team"... acontece que do elenco resultante desse exercicio meramente especulativo constava o meu nome, entre outros que nao fazem parte do actual status quo. Pois nao imagina a "maka de sanzala" que aquilo deu! Comecou-se a falar de uma conjura golpista em curso, no contexto da qual ja se estaria a criar um "governo sombra", etc, etc, etc... E eu que estava muito bem descansadinha e totalmente inocente no meu cantinho acabei por ver renascer o tipo de problemas e agressoes pessoais e profissionais que ha muito julgava afastadas da minha vida!
Foi por acaso o sociologo Paulo de Carvalho, de quem tenho um artigo ai no 'Armario' sobre a "Exclusao Social em Angola", que tentou botar agua na fervura, com um artigo argumentando que com aquela sondagem o SA apenas tinha pretendido fazer "um exercicio de cidadania", mas... ja' era tarde demais! Algumas das pessoas incluidas no tal "dream team", em particular as que se encontram fora do pais como e' o meu caso, ja tinham sido "marcadas"...
Depois dessa experiencia, se eu tivesse juizo, devia talvez ter deixado de escrever este tipo de artigos, porque penso ter sido com base em alguns deles que algumas das pessoas que participaram na sondagem se lembraram do meu nome... Mas, feliz ou infelizmente, este e' um vicio de oficio contra o qual nada posso ou devo fazer. Apenas posso, embora ciente de que para certas pessoas em determinados circulos que se alimentam permanentemente de "teorias da conspiracao" isso de pouco ou nada adiantara', reiterar que
Nao sei em que ‘barra’ bateram… nem se deva lamentar caso tenham ‘visto estrelas’ em tal batida, uma vez que ate’ se assumem como ‘lunaticos’…De qualquer modo, os meus parabens a Mila’ pela progressao na sua carreira profissional.
Ainda nos primordios deste blog registei aqui o seguinte comentario:
(...) tenho que lhe dizer que, da minha propria experiencia e de outras que tenho observado, a melhor forma de no nosso pais "enterrar" uma pessoa e as suas ideias e' propor que ela assuma posicoes de destaque, seja a que nivel de responsabilidade for... e' como inadvertidamente empurrarmos alguem para o cadafalso, quando tinhamos a melhor das intencoes de a elevarmos a um qualquer "pedestal do bem"...
Vou-lhe so' falar brevemente de um episodio ocorrido aqui ha uns anos: o Semanario Angolense (jornal tido como maldito e proscrito por alguns sectores "bem pensantes" da nossa sociedade)
teve a ousadia de fazer uma especie de sondagem entre algumas dezenas de pessoas no pais sobre qual deveria ser a constituicao de um hipotetico "governo ideal", ou, como eles tambem lhe chamaram, "the dream team"... acontece que do elenco resultante desse exercicio meramente especulativo constava o meu nome, entre outros que nao fazem parte do actual status quo. Pois nao imagina a "maka de sanzala" que aquilo deu! Comecou-se a falar de uma conjura golpista em curso, no contexto da qual ja se estaria a criar um "governo sombra", etc, etc, etc... E eu que estava muito bem descansadinha e totalmente inocente no meu cantinho acabei por ver renascer o tipo de problemas e agressoes pessoais e profissionais que ha muito julgava afastadas da minha vida!
Foi por acaso o sociologo Paulo de Carvalho, de quem tenho um artigo ai no 'Armario' sobre a "Exclusao Social em Angola", que tentou botar agua na fervura, com um artigo argumentando que com aquela sondagem o SA apenas tinha pretendido fazer "um exercicio de cidadania", mas... ja' era tarde demais! Algumas das pessoas incluidas no tal "dream team", em particular as que se encontram fora do pais como e' o meu caso, ja tinham sido "marcadas"...
Depois dessa experiencia, se eu tivesse juizo, devia talvez ter deixado de escrever este tipo de artigos, porque penso ter sido com base em alguns deles que algumas das pessoas que participaram na sondagem se lembraram do meu nome... Mas, feliz ou infelizmente, este e' um vicio de oficio contra o qual nada posso ou devo fazer. Apenas posso, embora ciente de que para certas pessoas em determinados circulos que se alimentam permanentemente de "teorias da conspiracao" isso de pouco ou nada adiantara', reiterar que
(...) tenho que lhe dizer que, da minha propria experiencia e de outras que tenho observado, a melhor forma de no nosso pais "enterrar" uma pessoa e as suas ideias e' propor que ela assuma posicoes de destaque, seja a que nivel de responsabilidade for... e' como inadvertidamente empurrarmos alguem para o cadafalso, quando tinhamos a melhor das intencoes de a elevarmos a um qualquer "pedestal do bem"...
Vou-lhe so' falar brevemente de um episodio ocorrido aqui ha uns anos: o Semanario Angolense (jornal tido como maldito e proscrito por alguns sectores "bem pensantes" da nossa sociedade)
teve a ousadia de fazer uma especie de sondagem entre algumas dezenas de pessoas no pais sobre qual deveria ser a constituicao de um hipotetico "governo ideal", ou, como eles tambem lhe chamaram, "the dream team"... acontece que do elenco resultante desse exercicio meramente especulativo constava o meu nome, entre outros que nao fazem parte do actual status quo. Pois nao imagina a "maka de sanzala" que aquilo deu! Comecou-se a falar de uma conjura golpista em curso, no contexto da qual ja se estaria a criar um "governo sombra", etc, etc, etc... E eu que estava muito bem descansadinha e totalmente inocente no meu cantinho acabei por ver renascer o tipo de problemas e agressoes pessoais e profissionais que ha muito julgava afastadas da minha vida!
Foi por acaso o sociologo Paulo de Carvalho, de quem tenho um artigo ai no 'Armario' sobre a "Exclusao Social em Angola", que tentou botar agua na fervura, com um artigo argumentando que com aquela sondagem o SA apenas tinha pretendido fazer "um exercicio de cidadania", mas... ja' era tarde demais! Algumas das pessoas incluidas no tal "dream team", em particular as que se encontram fora do pais como e' o meu caso, ja tinham sido "marcadas"...
Depois dessa experiencia, se eu tivesse juizo, devia talvez ter deixado de escrever este tipo de artigos, porque penso ter sido com base em alguns deles que algumas das pessoas que participaram na sondagem se lembraram do meu nome... Mas, feliz ou infelizmente, este e' um vicio de oficio contra o qual nada posso ou devo fazer. Apenas posso, embora ciente de que para certas pessoas em determinados circulos que se alimentam permanentemente de "teorias da conspiracao" isso de pouco ou nada adiantara', reiterar que
Nao sei em que ‘barra’ bateram… nem se deva lamentar caso tenham ‘visto estrelas’ em tal batida, uma vez que ate’ se assumem como ‘lunaticos’…De qualquer modo, os meus parabens a Mila’ pela progressao na sua carreira profissional.
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Tuesday, 17 April 2007
MAGAÍÇA... OU "QUANTO CUSTA UMA NOIVA?"
Foto: 'O sol nascendo a Oriente' by Ana SantanaMAGAÍÇA
A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios
Tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.
E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse, voltou.
e com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado
embrulhado em ridículo.
Ás costas - ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?
trazes as malas cheias do falso brilho
do resto da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
á cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone...
A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer City.
(Noemia de Sousa)
A publicacao deste poema, que aqui fiz ha alguns dias, e agora tambem publicado no blog “A Materia do Tempo”, sugeriu-me uma das formas em que a blogosfera pode ser resgatada de uma certa tendencia de se a transformar em lugar de rivalidades, conflitos e “apartheids”.
O facto de o Denudado ter apresentado um breve glossario dos termos usados por Noemia de Sousa neste poema e o ter ilustrado com uma fotografia de “mamparras/magaicas” nas minas da Africa do Sul, sugeriu-me que talvez fosse oportuno ir desengavetar o texto em anexo (aqui), constituido por breves extractos de uma serie, que publiquei no Semanario Angolense (Luanda) em 2002, sobre a Historia Economica da Africa Austral. Nele faco uma breve analise historico-economica dos fluxos de trabalho migrante oscilatorio nas minas da Africa do Sul, de que o “mamparra/magaica” foi e, em grande medida, continua a ser, a figura central.
Com este post pretendo, portanto, contribuir para essa funcao de complementaridade, interaccao e partilha em que a blogosfera pode ser, positiva e produtivamente, usada e, tambem, salientar a funcao de analise e mensagem social que a poesia, quando escrita por poetas atenta(o)s e lucida(o)s, pode ter para o registo, ainda que apenas parcial, pontual e pictorico, da realidade social, economica, cultural e historica em qualquer pais ou regiao do mundo.
A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios
Tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.
E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse, voltou.
e com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado
embrulhado em ridículo.
Ás costas - ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?
trazes as malas cheias do falso brilho
do resto da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
á cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone...
A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer City.
(Noemia de Sousa)
A publicacao deste poema, que aqui fiz ha alguns dias, e agora tambem publicado no blog “A Materia do Tempo”, sugeriu-me uma das formas em que a blogosfera pode ser resgatada de uma certa tendencia de se a transformar em lugar de rivalidades, conflitos e “apartheids”.
O facto de o Denudado ter apresentado um breve glossario dos termos usados por Noemia de Sousa neste poema e o ter ilustrado com uma fotografia de “mamparras/magaicas” nas minas da Africa do Sul, sugeriu-me que talvez fosse oportuno ir desengavetar o texto em anexo (aqui), constituido por breves extractos de uma serie, que publiquei no Semanario Angolense (Luanda) em 2002, sobre a Historia Economica da Africa Austral. Nele faco uma breve analise historico-economica dos fluxos de trabalho migrante oscilatorio nas minas da Africa do Sul, de que o “mamparra/magaica” foi e, em grande medida, continua a ser, a figura central.
Com este post pretendo, portanto, contribuir para essa funcao de complementaridade, interaccao e partilha em que a blogosfera pode ser, positiva e produtivamente, usada e, tambem, salientar a funcao de analise e mensagem social que a poesia, quando escrita por poetas atenta(o)s e lucida(o)s, pode ter para o registo, ainda que apenas parcial, pontual e pictorico, da realidade social, economica, cultural e historica em qualquer pais ou regiao do mundo.
Stimela (Hugh Masekela)
“A análise económica, ou mesmo social, do trabalho migrante falhará em revelar o quadro completo dos seus custos em termos de miséria humana. Para apreender essa realidade, temos que ouvir a esposa solitária, a criança insegura... É ao nível familiar que o maior sofrimento é sentido e não nos podemos esquecer que a herança cultural Africana engloba um conceito de família mais abrangente e nobre do que a do Ocidente. A família alargada demonstrou-se uma excelente fonte de segurança para aqueles que, de outro modo, não teriam segurança alguma. O trabalho migrante destrói [esse tecido humano e social], ao retirar por longos períodos, o pai, o irmão, o marido e o amigo... e que ninguém tenha a ilusão de que esses homens podem viver vidas decentes num vacuum sexual.” (Barker: 1970)
“Há muito poucas dúvidas de que se grandes números de mineiros migrantes não especializados e com baixos salários não tivessem sido recrutados em todo o sub-continente, jamais teria havido uma indústria de extracção do ouro na África do Sul. Se depósitos similares aos da África do Sul tivessem sido encontrados na Austrália, no Canada, ou nos EUA, eles teriam certamente ficado por explorar devido à impossibilidade de mobilização da força de trabalho adequada. Ainda hoje, depois dos grandes avanços tecnológicos e da dramática mudança da estrutura de custos da indústria mineira, isso continua a ser verdade.” (Crush et al: 1991)
“De certo modo é até humilhante observar os mineiros a trabalhar... Levanta-se em nós uma momentânea dúvida sobre o nosso próprio status como ‘intelectuais’, ou pessoas superiores em geral. Faz-nos lembrar, pelo menos enquanto olhamos, que é apenas porque esses mineiros transpiram as suas entranhas até à exaustão que as pessoas superiores podem permanecer superiores. Você e eu, o editor do Times Literary Supplement e os poetas, o Arcebispo de Canterbury e o Camarada X, autor de ‘Marxismo para Infantes’ – todos nós devemos realmente a decência comparativa das nossas vidas aos pobres condenados nos subterrâneos... com as suas gargantas cheias de... poeira, erguendo e baixando as suas pás com braços e músculos de ferro” (George Orwell, Down the Mine, 1937)
Foto: 'O sol nascendo a Oriente' by Ana SantanaMAGAÍÇA
A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios
Tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.
E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse, voltou.
e com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado
embrulhado em ridículo.
Ás costas - ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?
trazes as malas cheias do falso brilho
do resto da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
á cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone...
A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer City.
(Noemia de Sousa)
A publicacao deste poema, que aqui fiz ha alguns dias, e agora tambem publicado no blog “A Materia do Tempo”, sugeriu-me uma das formas em que a blogosfera pode ser resgatada de uma certa tendencia de se a transformar em lugar de rivalidades, conflitos e “apartheids”.
O facto de o Denudado ter apresentado um breve glossario dos termos usados por Noemia de Sousa neste poema e o ter ilustrado com uma fotografia de “mamparras/magaicas” nas minas da Africa do Sul, sugeriu-me que talvez fosse oportuno ir desengavetar o texto em anexo (aqui), constituido por breves extractos de uma serie, que publiquei no Semanario Angolense (Luanda) em 2002, sobre a Historia Economica da Africa Austral. Nele faco uma breve analise historico-economica dos fluxos de trabalho migrante oscilatorio nas minas da Africa do Sul, de que o “mamparra/magaica” foi e, em grande medida, continua a ser, a figura central.
Com este post pretendo, portanto, contribuir para essa funcao de complementaridade, interaccao e partilha em que a blogosfera pode ser, positiva e produtivamente, usada e, tambem, salientar a funcao de analise e mensagem social que a poesia, quando escrita por poetas atenta(o)s e lucida(o)s, pode ter para o registo, ainda que apenas parcial, pontual e pictorico, da realidade social, economica, cultural e historica em qualquer pais ou regiao do mundo.
A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios
Tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.
E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse, voltou.
e com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado
embrulhado em ridículo.
Ás costas - ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?
trazes as malas cheias do falso brilho
do resto da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
á cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone...
A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer City.
(Noemia de Sousa)
A publicacao deste poema, que aqui fiz ha alguns dias, e agora tambem publicado no blog “A Materia do Tempo”, sugeriu-me uma das formas em que a blogosfera pode ser resgatada de uma certa tendencia de se a transformar em lugar de rivalidades, conflitos e “apartheids”.
O facto de o Denudado ter apresentado um breve glossario dos termos usados por Noemia de Sousa neste poema e o ter ilustrado com uma fotografia de “mamparras/magaicas” nas minas da Africa do Sul, sugeriu-me que talvez fosse oportuno ir desengavetar o texto em anexo (aqui), constituido por breves extractos de uma serie, que publiquei no Semanario Angolense (Luanda) em 2002, sobre a Historia Economica da Africa Austral. Nele faco uma breve analise historico-economica dos fluxos de trabalho migrante oscilatorio nas minas da Africa do Sul, de que o “mamparra/magaica” foi e, em grande medida, continua a ser, a figura central.
Com este post pretendo, portanto, contribuir para essa funcao de complementaridade, interaccao e partilha em que a blogosfera pode ser, positiva e produtivamente, usada e, tambem, salientar a funcao de analise e mensagem social que a poesia, quando escrita por poetas atenta(o)s e lucida(o)s, pode ter para o registo, ainda que apenas parcial, pontual e pictorico, da realidade social, economica, cultural e historica em qualquer pais ou regiao do mundo.
Stimela (Hugh Masekela)
“A análise económica, ou mesmo social, do trabalho migrante falhará em revelar o quadro completo dos seus custos em termos de miséria humana. Para apreender essa realidade, temos que ouvir a esposa solitária, a criança insegura... É ao nível familiar que o maior sofrimento é sentido e não nos podemos esquecer que a herança cultural Africana engloba um conceito de família mais abrangente e nobre do que a do Ocidente. A família alargada demonstrou-se uma excelente fonte de segurança para aqueles que, de outro modo, não teriam segurança alguma. O trabalho migrante destrói [esse tecido humano e social], ao retirar por longos períodos, o pai, o irmão, o marido e o amigo... e que ninguém tenha a ilusão de que esses homens podem viver vidas decentes num vacuum sexual.” (Barker: 1970)
“Há muito poucas dúvidas de que se grandes números de mineiros migrantes não especializados e com baixos salários não tivessem sido recrutados em todo o sub-continente, jamais teria havido uma indústria de extracção do ouro na África do Sul. Se depósitos similares aos da África do Sul tivessem sido encontrados na Austrália, no Canada, ou nos EUA, eles teriam certamente ficado por explorar devido à impossibilidade de mobilização da força de trabalho adequada. Ainda hoje, depois dos grandes avanços tecnológicos e da dramática mudança da estrutura de custos da indústria mineira, isso continua a ser verdade.” (Crush et al: 1991)
“De certo modo é até humilhante observar os mineiros a trabalhar... Levanta-se em nós uma momentânea dúvida sobre o nosso próprio status como ‘intelectuais’, ou pessoas superiores em geral. Faz-nos lembrar, pelo menos enquanto olhamos, que é apenas porque esses mineiros transpiram as suas entranhas até à exaustão que as pessoas superiores podem permanecer superiores. Você e eu, o editor do Times Literary Supplement e os poetas, o Arcebispo de Canterbury e o Camarada X, autor de ‘Marxismo para Infantes’ – todos nós devemos realmente a decência comparativa das nossas vidas aos pobres condenados nos subterrâneos... com as suas gargantas cheias de... poeira, erguendo e baixando as suas pás com braços e músculos de ferro” (George Orwell, Down the Mine, 1937)
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