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Sunday, 20 February 2011

A Irresponsabilidade do Vazio* [Revisto e Actualizado]




"(...) Age was respected among his people, but achievement was revered. As the elders said, if a child washed his hands he could eat with kings. Okonkwo had clearly washed his hands and so he ate with kings and elders."
Biyi Bandele [in Introduction to Chinua Achebe's Things Fall Apart - Penguim, 2001 edition]

N.B.: Chinua Achebe started writing Things Fall Apart, his magnum opus published three years later, in 1958, which has earned him the title of 'The Grandfather of African Literature', at the age of 25.




Olhamos para os cantos
Buscando um espaço
Anunciado tempo de sonho
Em espiral
No percurso das veias
Já corroídas pelo vazio, raiz da loucura
Se não preenchido a tempo.

[Extracto de Canto dos Olhos – A.S. in S.O.S.]




Juro por Deus [e desde ja’ Lhe peco perdao por invocar assim o Seu nome em vao – e’ que, cada vez mais, vou dando por mim regressando ‘a minha fe’ em Deus (ou, mais precisamente, em Jesus, meu xara’), dos meus tempos de infancia e adolescencia: quanto menos vou acreditando nos homens (e mulheres) deste mundo, mais necessidade vou sentindo de ter Alguem em quem acreditar!... Embora continue a detestar homilias!...] que tinha decidido ha’ ja’ bastante tempo nao voltar a deixar-me arrastar em discussoes inocuas com “surdos-mudos”, especialmente os do tipo arrogante ignorante e/ou intelectualmente desonesto. De facto, comecei a implementar essa decisao de forma efectiva no inicio deste ano com este "Thought for the Year" e, em seguida, ao longo das ultimas semanas, com a retirada progressiva de todos os posts real ou potencialmente polemicos que neste blog publiquei, em particular os relacionados com uma certa tristemente celebre campanha…

Neles se incluiam os que escrevi, ainda nos primordios deste blog, sob o titulo generico “Makas na Sanzala”, sobre algumas das “homilias” de Mia Couto (MC). Nao e’, portanto, sem alguma relutancia que me sinto compelida a voltar a escrever a proposito de mais uma delas – o que, muito a contragosto, me levou a ter que ‘repostar’ alguns dos posts relacionados que ja’ havia retirado. Ja’ ha’ muito nao recebia, por email, tais “homilias” – mais precisamente desde a que ficou mais conhecida pelo “sejamos claros” –, pelo que me desgostou sobremaneira voltar agora a receber mais uma dessas missivas em forma de “arma de arremesso” (transcrita no final deste texto)…

E’ entitulada “O Peso do Vazio” (o que me recorda uma outra, de Pepetela, entitulada “O Horror do Vazio” – e’, o vazio parece estar na moda!… Ja' agora, um outro 'tipo de vazio', o do bolso, pode ser encontrado aqui) e, de tao aparentemente aimless, soou-me, recorrendo ao rico vocabulario do seu mui distinto e consagrado autor, oca, bacoca, vazia e… irresponsavel!


[Kant - by Yinka Shonibare]


[Continua aqui]


Posts relacionados:

Vultures

Falando do Homem Novo

Falando de Intelectualismo(s)

African Intellectuals in the Belly of the Beast



*Aparentemente, esta foi a "resposta" de Mia Couto a este post: "Os Falsaportes" - o qual, por sua vez, podera' ser lido em referencia a este.








"(...) Age was respected among his people, but achievement was revered. As the elders said, if a child washed his hands he could eat with kings. Okonkwo had clearly washed his hands and so he ate with kings and elders."
Biyi Bandele [in Introduction to Chinua Achebe's Things Fall Apart - Penguim, 2001 edition]

N.B.: Chinua Achebe started writing Things Fall Apart, his magnum opus published three years later, in 1958, which has earned him the title of 'The Grandfather of African Literature', at the age of 25.




Olhamos para os cantos
Buscando um espaço
Anunciado tempo de sonho
Em espiral
No percurso das veias
Já corroídas pelo vazio, raiz da loucura
Se não preenchido a tempo.

[Extracto de Canto dos Olhos – A.S. in S.O.S.]




Juro por Deus [e desde ja’ Lhe peco perdao por invocar assim o Seu nome em vao – e’ que, cada vez mais, vou dando por mim regressando ‘a minha fe’ em Deus (ou, mais precisamente, em Jesus, meu xara’), dos meus tempos de infancia e adolescencia: quanto menos vou acreditando nos homens (e mulheres) deste mundo, mais necessidade vou sentindo de ter Alguem em quem acreditar!... Embora continue a detestar homilias!...] que tinha decidido ha’ ja’ bastante tempo nao voltar a deixar-me arrastar em discussoes inocuas com “surdos-mudos”, especialmente os do tipo arrogante ignorante e/ou intelectualmente desonesto. De facto, comecei a implementar essa decisao de forma efectiva no inicio deste ano com este "Thought for the Year" e, em seguida, ao longo das ultimas semanas, com a retirada progressiva de todos os posts real ou potencialmente polemicos que neste blog publiquei, em particular os relacionados com uma certa tristemente celebre campanha…

Neles se incluiam os que escrevi, ainda nos primordios deste blog, sob o titulo generico “Makas na Sanzala”, sobre algumas das “homilias” de Mia Couto (MC). Nao e’, portanto, sem alguma relutancia que me sinto compelida a voltar a escrever a proposito de mais uma delas – o que, muito a contragosto, me levou a ter que ‘repostar’ alguns dos posts relacionados que ja’ havia retirado. Ja’ ha’ muito nao recebia, por email, tais “homilias” – mais precisamente desde a que ficou mais conhecida pelo “sejamos claros” –, pelo que me desgostou sobremaneira voltar agora a receber mais uma dessas missivas em forma de “arma de arremesso” (transcrita no final deste texto)…

E’ entitulada “O Peso do Vazio” (o que me recorda uma outra, de Pepetela, entitulada “O Horror do Vazio” – e’, o vazio parece estar na moda!… Ja' agora, um outro 'tipo de vazio', o do bolso, pode ser encontrado aqui) e, de tao aparentemente aimless, soou-me, recorrendo ao rico vocabulario do seu mui distinto e consagrado autor, oca, bacoca, vazia e… irresponsavel!


[Kant - by Yinka Shonibare]


[Continua aqui]


Posts relacionados:

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Falando do Homem Novo

Falando de Intelectualismo(s)

African Intellectuals in the Belly of the Beast



*Aparentemente, esta foi a "resposta" de Mia Couto a este post: "Os Falsaportes" - o qual, por sua vez, podera' ser lido em referencia a este.





Tuesday, 25 March 2008

OUTBLOGGING @ AFRICANPATH (IX)

THE RACE DEBATE IN AMERICA: WHAT LESSONS FOR AFRICA?

The current U.S. Presidential contest was marked, during the first few months, by its African-American protagonist’s repeated (re)assurances to the American electorate that his run was all but about race. And, it has to be recognised, for the most part the said protagonist, Barack Obama, has been hugely successful at it. However, developments in the last few weeks, culminating with his memorable speech “A More Perfect Union”, put the race and identity debate firmly back on the agenda and (re)assured us all, in and outside America, that this presidential campaign is as much about race as it is about gender, or about war and peace, or about economic prosperity or decline. In his own words: “(…) race is an issue that I believe this nation cannot afford to ignore right now. We would be making the same mistake that Reverend Wright made in his offending sermons about America - to simplify and stereotype and amplify the negative to the point that it distorts reality. (…) But the anger is real; it is powerful; and to simply wish it away, to condemn it without understanding its roots, only serves to widen the chasm of misunderstanding that exists between the races.”

[Keep Reading Here or Here]
THE RACE DEBATE IN AMERICA: WHAT LESSONS FOR AFRICA?

The current U.S. Presidential contest was marked, during the first few months, by its African-American protagonist’s repeated (re)assurances to the American electorate that his run was all but about race. And, it has to be recognised, for the most part the said protagonist, Barack Obama, has been hugely successful at it. However, developments in the last few weeks, culminating with his memorable speech “A More Perfect Union”, put the race and identity debate firmly back on the agenda and (re)assured us all, in and outside America, that this presidential campaign is as much about race as it is about gender, or about war and peace, or about economic prosperity or decline. In his own words: “(…) race is an issue that I believe this nation cannot afford to ignore right now. We would be making the same mistake that Reverend Wright made in his offending sermons about America - to simplify and stereotype and amplify the negative to the point that it distorts reality. (…) But the anger is real; it is powerful; and to simply wish it away, to condemn it without understanding its roots, only serves to widen the chasm of misunderstanding that exists between the races.”

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Sunday, 14 January 2007

AINDA O MIA COUTO...

"Mia Couto e O Exercício Da Humildade"

“É sempre assim que acontece na minha vida, quando percebo alguma coisa já é demasiado tarde.”

De todo modo, sua prosa de ficção hoje não é literatura de militância.


Couto: Certo. Esse foi um processo de tomada de consciência, por exemplo, que nasceu sempre em rupturas, em pequenos conflitos. Porque hoje eu tenho uma relação com essa militância já afastada, crítica, o que não quer dizer que não tenha essa militância. A dos outros mudou e a minha também, se calhar, mudou. E o primeiro livro de poesia que eu publiquei já foi numa briga, já foi numa zanga. Me irritava muito o fato de que toda poesia que falasse do eu, que falasse da intimidade fosse tida como uma poesia burguesa. E eu escrevi este primeiro livro em 1983, já como que em oposição a isto. Era uma poesia lírica e intimista, que falava do amor.

E a influência de Guimarães Rosa?


Couto: Primeiro tenho que falar de Luandino Vieira, o escritor angolano, que é o primeiro contato que eu tenho com alguém que escreve um português que é arrevesado, que está misturado com a terra. E Luandino marcou-me muito. Foi o primeiro sinal da autorização de como eu queria fazer. Eu sabia que eu queria fazer isso, mas eu precisava de uma credencial do mais velho que disse “esse caminho é abençoado”. E ele confessa que foi autorizado, também ele, por um outro, um tal João Guimarães Rosa que eu não conhecia, porque não chegavam aqui estes livros. Depois da Independência deixaram chegar livros do Brasil e é uma coisa irônica, do ponto de vista histórico.

O hino nacional de vocês está mudando exatamente agora, não é?


Couto: É. Está mudando agora. Tem uma história até muito engraçada. Em 1981, 1982, o presidente Samora, que era vivo na altura, pensou que o hino nacional não funcionava. Era um hino muito partidário. Começava por “viva, viva a Frelimo”. E ele tinha já a apreciação de que nem todos os moçambicanos seriam da Frelimo. Então, era preciso um hino que cobrisse os moçambicanos todos. Ele (Samora) colocou seis poetas e seis músicos numa casa, fechou-nos lá e disse “vocês têm que sair daqui com várias propostas de hinos feitas”. E fomos fechados numa casa aqui na Matola e aquilo era ótimo. (...) Eles (a Frelimo) vinham nos visitar para ver como era que estava sendo feito. E produzimos meia dúzia de hinos que ficaram ali e nunca mais foram aprovados. Agora, por causa do novo clima político que a partir de 1995 passou a existir, um clima de democracia aberta e multipartidarismo, passou a ser mesmo obrigatório que este país tivesse um outro hino. Pelo menos uma outra letra.

Qual a sua principal crítica ao partido?

Couto: Acho que a Frelimo passou a ter um discurso falseado, mascarado, com objetivos ainda socialistas quando eles todos já se tinham convertido em empresários de sucesso. Eu já não estou lá. Mas quando a Frelimo cantava era uma coisa que me fascinava. Lembro da primeira vez que eu vi Samora Machel, que era um deus para nós, nós endeusávamos aquele homem. Era nosso Guevara. E quando nós fomos como jornalistas ter com este homem na Tanzânia, no percurso, todos nós íamos pensando em como íamos impressionar aquele homem. Queríamos que ele gostasse de nós. E cada um pensava no que dizer: “olha, eu sei parte dos discursos dele de cor, eu sei citar coisas da Frelimo”. E quando chegamos ao pé dele, a grande impressão que eu tive é que ele era um homem de um grande magnetismo, uma pessoa que exalava esta aura, e era muito pequenino, baixinho, com uma grande energia. E a primeira pergunta que ele nos fez foi “algum de vocês sabe cantar?”. E nós não sabíamos. Como intelectuais sabíamos fazer coisas políticas etc. Esta coisa depois me fez pensar. Ele nos disse: ‘como é possível um homem que não sabe cantar, que não sabe dançar nada? Como é que vocês podem ser pessoas se não sabem cantar nem dançar? O que é que sabem fazer?” Então, nós sabíamos fazer coisas que, de fato, eram um pouco chatas, não é? Um pouco aborrecidas. E este era o grande fascínio, a Frelimo cantava.

Havia muitos brancos nesse grupo da sua geração?

Couto: Eu sempre fui um dos poucos brancos. Os brancos neste país sempre foram uma minoria que não conta.

Na época da crise mais intensa, você era discriminado? Seus pais são portugueses?

Couto: Meus pais são portugueses. O racismo colonial era contra os mulatos, e os pretos. Eu era tido como branco de segunda, porque nasci aqui. Eu não tinha acesso a certas funções no governo colonial. Meus pais eram brancos de primeira, e eu era branco de segunda. Meus filhos seriam brancos de terceira, e aquilo estava hierarquizado. Era um sistema que discriminava mais os pretos. (...) Depois da Independência, eu nunca fui objeto de racismo, nunca fui discriminado assim. No cotidiano, não sinto. Esqueço-me da minha raça. (...) Também tem uma grande força aquilo que falamos ontem, o modelo americano da ação afirmativa.

Isso tem força?

Couto: Tem força em alguns momentos. Não é uma política oficial, como é, por exemplo na África do Sul, mas tem. É usado como argumento quando é preciso.

Você concorda com essa política?

Couto: Eu, não. Eu não sei pensar essa política lá no lugar onde ela nasceu. Aparentemente ela nasce com propósitos completamente diferentes dos que estão sendo usados ou aplicados aqui. A ação afirmativa nasce para impor direitos de minorias. Aqui é usado pelo direito da maioria. O que é uma coisa estranha. Por exemplo, o rap, que é um movimento de revolta contra quem está no poder aqui tem tanta força porque mesmo os que estão no poder, sendo pretos, são brancos. Neste sentido de que as pessoas que se sentem excluídas culturalmente e para terem acesso a certa posição social têm que copiar, têm que falar português, por exemplo. Tem que abdicar de sua cultura original e isso cria um sentimento de intranqüilidade. E no fim as pessoas acham legítimo um movimento de ação afirmativa porque estão lutando contra uma coisa que é quase fantasmagórica. Um movimento de ação afirmativa aqui devia defender a mim enquanto minoria, não é?

E por que o apelido "Mia"?

Couto: Por causa dos gatos. Eu era miúdo, tinha dois ou três anos e pensava que era um gato, comia com os gatos. Meus pais tinham que me puxar para o lado e me dizer que eu não era um gato. E isto ficou. Eu, lá fora, sou sempre esperado como preto ou como mulher. Certa vez, numa delegação do Samora Machel, que foi daqui visitar Fidel Castro, eu fui o único homem na vida a quem Fidel Castro deu saias e colares e brincos, pensando que eu era mulher. Ele deu prendas a todos, e a minha caixa. Isso me diverte. Essas questões de identidade me divertem muito, quer seja do sexo, quer seja da raça. Eu não tenho raça. Minha raça sou eu mesmo.

Ler o resto aqui.

"Mia Couto e O Exercício Da Humildade"

“É sempre assim que acontece na minha vida, quando percebo alguma coisa já é demasiado tarde.”

De todo modo, sua prosa de ficção hoje não é literatura de militância.


Couto: Certo. Esse foi um processo de tomada de consciência, por exemplo, que nasceu sempre em rupturas, em pequenos conflitos. Porque hoje eu tenho uma relação com essa militância já afastada, crítica, o que não quer dizer que não tenha essa militância. A dos outros mudou e a minha também, se calhar, mudou. E o primeiro livro de poesia que eu publiquei já foi numa briga, já foi numa zanga. Me irritava muito o fato de que toda poesia que falasse do eu, que falasse da intimidade fosse tida como uma poesia burguesa. E eu escrevi este primeiro livro em 1983, já como que em oposição a isto. Era uma poesia lírica e intimista, que falava do amor.

E a influência de Guimarães Rosa?


Couto: Primeiro tenho que falar de Luandino Vieira, o escritor angolano, que é o primeiro contato que eu tenho com alguém que escreve um português que é arrevesado, que está misturado com a terra. E Luandino marcou-me muito. Foi o primeiro sinal da autorização de como eu queria fazer. Eu sabia que eu queria fazer isso, mas eu precisava de uma credencial do mais velho que disse “esse caminho é abençoado”. E ele confessa que foi autorizado, também ele, por um outro, um tal João Guimarães Rosa que eu não conhecia, porque não chegavam aqui estes livros. Depois da Independência deixaram chegar livros do Brasil e é uma coisa irônica, do ponto de vista histórico.

O hino nacional de vocês está mudando exatamente agora, não é?


Couto: É. Está mudando agora. Tem uma história até muito engraçada. Em 1981, 1982, o presidente Samora, que era vivo na altura, pensou que o hino nacional não funcionava. Era um hino muito partidário. Começava por “viva, viva a Frelimo”. E ele tinha já a apreciação de que nem todos os moçambicanos seriam da Frelimo. Então, era preciso um hino que cobrisse os moçambicanos todos. Ele (Samora) colocou seis poetas e seis músicos numa casa, fechou-nos lá e disse “vocês têm que sair daqui com várias propostas de hinos feitas”. E fomos fechados numa casa aqui na Matola e aquilo era ótimo. (...) Eles (a Frelimo) vinham nos visitar para ver como era que estava sendo feito. E produzimos meia dúzia de hinos que ficaram ali e nunca mais foram aprovados. Agora, por causa do novo clima político que a partir de 1995 passou a existir, um clima de democracia aberta e multipartidarismo, passou a ser mesmo obrigatório que este país tivesse um outro hino. Pelo menos uma outra letra.

Qual a sua principal crítica ao partido?

Couto: Acho que a Frelimo passou a ter um discurso falseado, mascarado, com objetivos ainda socialistas quando eles todos já se tinham convertido em empresários de sucesso. Eu já não estou lá. Mas quando a Frelimo cantava era uma coisa que me fascinava. Lembro da primeira vez que eu vi Samora Machel, que era um deus para nós, nós endeusávamos aquele homem. Era nosso Guevara. E quando nós fomos como jornalistas ter com este homem na Tanzânia, no percurso, todos nós íamos pensando em como íamos impressionar aquele homem. Queríamos que ele gostasse de nós. E cada um pensava no que dizer: “olha, eu sei parte dos discursos dele de cor, eu sei citar coisas da Frelimo”. E quando chegamos ao pé dele, a grande impressão que eu tive é que ele era um homem de um grande magnetismo, uma pessoa que exalava esta aura, e era muito pequenino, baixinho, com uma grande energia. E a primeira pergunta que ele nos fez foi “algum de vocês sabe cantar?”. E nós não sabíamos. Como intelectuais sabíamos fazer coisas políticas etc. Esta coisa depois me fez pensar. Ele nos disse: ‘como é possível um homem que não sabe cantar, que não sabe dançar nada? Como é que vocês podem ser pessoas se não sabem cantar nem dançar? O que é que sabem fazer?” Então, nós sabíamos fazer coisas que, de fato, eram um pouco chatas, não é? Um pouco aborrecidas. E este era o grande fascínio, a Frelimo cantava.

Havia muitos brancos nesse grupo da sua geração?

Couto: Eu sempre fui um dos poucos brancos. Os brancos neste país sempre foram uma minoria que não conta.

Na época da crise mais intensa, você era discriminado? Seus pais são portugueses?

Couto: Meus pais são portugueses. O racismo colonial era contra os mulatos, e os pretos. Eu era tido como branco de segunda, porque nasci aqui. Eu não tinha acesso a certas funções no governo colonial. Meus pais eram brancos de primeira, e eu era branco de segunda. Meus filhos seriam brancos de terceira, e aquilo estava hierarquizado. Era um sistema que discriminava mais os pretos. (...) Depois da Independência, eu nunca fui objeto de racismo, nunca fui discriminado assim. No cotidiano, não sinto. Esqueço-me da minha raça. (...) Também tem uma grande força aquilo que falamos ontem, o modelo americano da ação afirmativa.

Isso tem força?

Couto: Tem força em alguns momentos. Não é uma política oficial, como é, por exemplo na África do Sul, mas tem. É usado como argumento quando é preciso.

Você concorda com essa política?

Couto: Eu, não. Eu não sei pensar essa política lá no lugar onde ela nasceu. Aparentemente ela nasce com propósitos completamente diferentes dos que estão sendo usados ou aplicados aqui. A ação afirmativa nasce para impor direitos de minorias. Aqui é usado pelo direito da maioria. O que é uma coisa estranha. Por exemplo, o rap, que é um movimento de revolta contra quem está no poder aqui tem tanta força porque mesmo os que estão no poder, sendo pretos, são brancos. Neste sentido de que as pessoas que se sentem excluídas culturalmente e para terem acesso a certa posição social têm que copiar, têm que falar português, por exemplo. Tem que abdicar de sua cultura original e isso cria um sentimento de intranqüilidade. E no fim as pessoas acham legítimo um movimento de ação afirmativa porque estão lutando contra uma coisa que é quase fantasmagórica. Um movimento de ação afirmativa aqui devia defender a mim enquanto minoria, não é?

E por que o apelido "Mia"?

Couto: Por causa dos gatos. Eu era miúdo, tinha dois ou três anos e pensava que era um gato, comia com os gatos. Meus pais tinham que me puxar para o lado e me dizer que eu não era um gato. E isto ficou. Eu, lá fora, sou sempre esperado como preto ou como mulher. Certa vez, numa delegação do Samora Machel, que foi daqui visitar Fidel Castro, eu fui o único homem na vida a quem Fidel Castro deu saias e colares e brincos, pensando que eu era mulher. Ele deu prendas a todos, e a minha caixa. Isso me diverte. Essas questões de identidade me divertem muito, quer seja do sexo, quer seja da raça. Eu não tenho raça. Minha raça sou eu mesmo.

Ler o resto aqui.

Tuesday, 9 January 2007

MAIS UM TEXTO (RE)PESCADO DO MIA COUTO...

Ia casualmente navegando corrente abaixo nos caminhos do rio, quando se dei encontro com um blog, nome dele e’ A Materia do Tempo, dono dele e’ Denudado, onde que este Koluki esta’ listado entre seus 'companheiros de jornada' (... obrigada e igualmente!) e onde que pesquei mbora mais um texto do Mia de ha uns anos atras...
Este nao me suscita apetite para 'makas de sanzala' (e, por falar nisso, ainda nao acabei de recozinhar as receitas todas na maka suscitada pelo outro texto sobre o 'jet-set nacional' – repescar aqui – mas a elas voltarei um dia destes), embora tenha ca’ as minhas dissonancias em relacao a leitura que ele faz de alguns factos historicos. Mas isso, ele (autor de 'Cada Homem e’ uma Raca' – e lembro-me agora que o conheci pessoalmente na apresentacao da primeira edicao desse seu livro em Lisboa, ja la vai mais de uma decada, que tinha uma capa diferente, para mim melhor, do que essa ai da foto que e' da nona edicao...), melhor do que ninguem entendera’ que, como dizia o Joao Passarinheiro, “... A pessoa e’ uma humanidade individual” e, portanto, cada uma dessas “humanidades” tera’ a sua maneira individual de (re)pescar o que as correntes da Historia nos trazem...


Aqui vao partes de um dos seus capitulos (o texto completo pode ser pescado aqui):

A CULTURA E A ECONOMIA - O QUE PODEMOS FAZER ?
(in Texto apresentado por Mia Couto na
AMECON – Associação Moçambicana de Economistas:
Economia- A FRONTEIRA DA CULTURA
30.09.2003)

O que podemos fazer é interrogar sem medo e dialogar com espirito critico. Infelizmente, o nosso ambiente de debate se revela pobre. Mais grave ainda, ele tornou-se perverso: em lugar de confrontar ideias, agridem-se pessoas. O que podemos fazer com os conceitos sócio-económicos é reproduzir aquilo que fizemos com a capulana e com a mandioca. E já agora com a língua portuguesa. Tornámo-los nossos, porque os experimentamos e vivemos à nossa maneira.

Como um parêntesis queria fazer aqui referência a algo que assume o estatuto de pouca-vergonha. Eu já vi pessoas credenciadas a defender a tese da acumulação primitiva do capital justificando o comportamento criminoso de alguns dos nossos novos-ricos. Isto já não é apenas ignorância: é má-fé, ausência completa de escrúpulos morais e intelectuais.

Estamos hoje construir a nossa própria modernidade. E quero congratular esta ocasião em que um homem das letras (que se confessa ignorante em matérias de economia) tenha a possibilidade de partilhar algumas reflexões. A economia necessita de falar, de namorar com as outras esferas da vida nacional. O discurso económico não pode ser a religião dessa nossa modernidade nem a economia pode ser um altar ante o qual nos ajoelhamos. Não podemos entregar a especialistas o direito de conduzir as nossas vidas pessoais e os nossos destinos nacionais.

O economista não é apenas aquele que sabe de economia. É aquele que pode sair do pensamento económico, aquele que se liberta da sua própria formação para a ela melhor regressar. Esta possibilidade de emigração da sua própria condição é fundamental para que tenhamos economistas nossos que se distanciem da economia o suficiente para a poder interrogar.

A situação do nosso país e do nosso continente é tão séria que já (não) podemos continuar fazendo de conta que fazemos. Temos que fazer. Temos que criar, construir alternativas e desenhar caminhos verdadeiros e credíveis. O nosso continente corre o risco de ser um território esquecido, secundarizado pelas estratégias de integração global. Quando digo “esquecido” pensarão que me refiro à atitude das grandes potências. Mas eu refiro-me às nossas próprias elites que viraram costas às responsabilidades para os seus povos, à forma como o seu comportamento predador ajuda a denegrir a nossa imagem e fere a dignidade de todos os africanos.

O discurso de grande parte dos políticos é feito de lugares-comuns, incapazes de entender a complexidade da condição dos nossos países e dos nossos povos. A demagogia fácil continua a substituir a procura de soluções. A facilidade com que ditadores se apropriam dos destinos de nações inteiras é algo que nos deve assustar. A facilidade com que se continua a explicar erros do presente através da culpabilização do passado deve ser uma preocupação nossa. É verdade que a corrupção e o abuso do poder não são, como pretendem alguns, exclusivas do nosso continente. Mas a margem de manobra que concedemos a tiranos é espantosa. É urgente reduzir os territórios de vaidade, arrogância e impunidade dos que enriquecem à custa do roubo. É urgente redefinir as premissas da construção de modelos de gestão que excluem aqueles que vivem na oralidade e na periferia da lógica e da racionalidade europeias.

Nós todos, escritores e economistas, estamos vivendo com perplexidade um momento muito particular da nossa História. Até aqui Moçambique acreditou dispensar uma reflexão radical sobre os seus próprios fundamentos. A nação moçambicana conquistou um sentido épico na luta contra monstros exteriores. O inferno era sempre fora, o inimigo estava para além das fronteiras. Era Ian Smith, o apartheid, o imperialismo. O nosso país fazia, afinal, o que fazemos na nossa vida quotidiana: inventamos monstros para nos desassossegar. Mas os monstros também servem para nos tranquilizar. Dá-nos sossego saber que eles moram fora de nós. De repente, o mundo mudou e somos forçados a procurar os nossos demónios dentro de casa.

O inimigo, o pior dos inimigos, sempre esteve dentro de nós. Descobrimos essa verdade tão simples e ficamos a sós com os nossos próprios fantasmas. E isso nunca nos aconteceu antes. Este é um momento de abismo e desesperanças. Mas pode ser, ao mesmo tempo, um momento de crescimento. Confrontados com as nossas mais fundas fragilidades, cabe-nos criar um novo olhar, inventar outras falas, ensaiar outras escritas. Vamos ficando, cada vez mais, a sós com a nossa própria responsabilidade histórica de criar uma outra História. Nós não podemos mendigar ao mundo uma outra imagem. Não podemos insistir numa atitude apelativa. A nossa única saída é continuar o difícil e longo caminho de conquistar um lugar digno para nós e para a nossa pátria. E esse lugar só pode resultar da nossa própria criação.


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P.S. - A quem me mandou o outro texto sobre o 'jet-set nacional': a este nao e' preciso acrescentar qualquer "mais-valia", e' so' por Angola onde esta Mocambique...
Ia casualmente navegando corrente abaixo nos caminhos do rio, quando se dei encontro com um blog, nome dele e’ A Materia do Tempo, dono dele e’ Denudado, onde que este Koluki esta’ listado entre seus 'companheiros de jornada' (... obrigada e igualmente!) e onde que pesquei mbora mais um texto do Mia de ha uns anos atras...
Este nao me suscita apetite para 'makas de sanzala' (e, por falar nisso, ainda nao acabei de recozinhar as receitas todas na maka suscitada pelo outro texto sobre o 'jet-set nacional' – repescar aqui – mas a elas voltarei um dia destes), embora tenha ca’ as minhas dissonancias em relacao a leitura que ele faz de alguns factos historicos. Mas isso, ele (autor de 'Cada Homem e’ uma Raca' – e lembro-me agora que o conheci pessoalmente na apresentacao da primeira edicao desse seu livro em Lisboa, ja la vai mais de uma decada, que tinha uma capa diferente, para mim melhor, do que essa ai da foto que e' da nona edicao...), melhor do que ninguem entendera’ que, como dizia o Joao Passarinheiro, “... A pessoa e’ uma humanidade individual” e, portanto, cada uma dessas “humanidades” tera’ a sua maneira individual de (re)pescar o que as correntes da Historia nos trazem...


Aqui vao partes de um dos seus capitulos (o texto completo pode ser pescado aqui):

A CULTURA E A ECONOMIA - O QUE PODEMOS FAZER ?
(in Texto apresentado por Mia Couto na
AMECON – Associação Moçambicana de Economistas:
Economia- A FRONTEIRA DA CULTURA
30.09.2003)

O que podemos fazer é interrogar sem medo e dialogar com espirito critico. Infelizmente, o nosso ambiente de debate se revela pobre. Mais grave ainda, ele tornou-se perverso: em lugar de confrontar ideias, agridem-se pessoas. O que podemos fazer com os conceitos sócio-económicos é reproduzir aquilo que fizemos com a capulana e com a mandioca. E já agora com a língua portuguesa. Tornámo-los nossos, porque os experimentamos e vivemos à nossa maneira.

Como um parêntesis queria fazer aqui referência a algo que assume o estatuto de pouca-vergonha. Eu já vi pessoas credenciadas a defender a tese da acumulação primitiva do capital justificando o comportamento criminoso de alguns dos nossos novos-ricos. Isto já não é apenas ignorância: é má-fé, ausência completa de escrúpulos morais e intelectuais.

Estamos hoje construir a nossa própria modernidade. E quero congratular esta ocasião em que um homem das letras (que se confessa ignorante em matérias de economia) tenha a possibilidade de partilhar algumas reflexões. A economia necessita de falar, de namorar com as outras esferas da vida nacional. O discurso económico não pode ser a religião dessa nossa modernidade nem a economia pode ser um altar ante o qual nos ajoelhamos. Não podemos entregar a especialistas o direito de conduzir as nossas vidas pessoais e os nossos destinos nacionais.

O economista não é apenas aquele que sabe de economia. É aquele que pode sair do pensamento económico, aquele que se liberta da sua própria formação para a ela melhor regressar. Esta possibilidade de emigração da sua própria condição é fundamental para que tenhamos economistas nossos que se distanciem da economia o suficiente para a poder interrogar.

A situação do nosso país e do nosso continente é tão séria que já (não) podemos continuar fazendo de conta que fazemos. Temos que fazer. Temos que criar, construir alternativas e desenhar caminhos verdadeiros e credíveis. O nosso continente corre o risco de ser um território esquecido, secundarizado pelas estratégias de integração global. Quando digo “esquecido” pensarão que me refiro à atitude das grandes potências. Mas eu refiro-me às nossas próprias elites que viraram costas às responsabilidades para os seus povos, à forma como o seu comportamento predador ajuda a denegrir a nossa imagem e fere a dignidade de todos os africanos.

O discurso de grande parte dos políticos é feito de lugares-comuns, incapazes de entender a complexidade da condição dos nossos países e dos nossos povos. A demagogia fácil continua a substituir a procura de soluções. A facilidade com que ditadores se apropriam dos destinos de nações inteiras é algo que nos deve assustar. A facilidade com que se continua a explicar erros do presente através da culpabilização do passado deve ser uma preocupação nossa. É verdade que a corrupção e o abuso do poder não são, como pretendem alguns, exclusivas do nosso continente. Mas a margem de manobra que concedemos a tiranos é espantosa. É urgente reduzir os territórios de vaidade, arrogância e impunidade dos que enriquecem à custa do roubo. É urgente redefinir as premissas da construção de modelos de gestão que excluem aqueles que vivem na oralidade e na periferia da lógica e da racionalidade europeias.

Nós todos, escritores e economistas, estamos vivendo com perplexidade um momento muito particular da nossa História. Até aqui Moçambique acreditou dispensar uma reflexão radical sobre os seus próprios fundamentos. A nação moçambicana conquistou um sentido épico na luta contra monstros exteriores. O inferno era sempre fora, o inimigo estava para além das fronteiras. Era Ian Smith, o apartheid, o imperialismo. O nosso país fazia, afinal, o que fazemos na nossa vida quotidiana: inventamos monstros para nos desassossegar. Mas os monstros também servem para nos tranquilizar. Dá-nos sossego saber que eles moram fora de nós. De repente, o mundo mudou e somos forçados a procurar os nossos demónios dentro de casa.

O inimigo, o pior dos inimigos, sempre esteve dentro de nós. Descobrimos essa verdade tão simples e ficamos a sós com os nossos próprios fantasmas. E isso nunca nos aconteceu antes. Este é um momento de abismo e desesperanças. Mas pode ser, ao mesmo tempo, um momento de crescimento. Confrontados com as nossas mais fundas fragilidades, cabe-nos criar um novo olhar, inventar outras falas, ensaiar outras escritas. Vamos ficando, cada vez mais, a sós com a nossa própria responsabilidade histórica de criar uma outra História. Nós não podemos mendigar ao mundo uma outra imagem. Não podemos insistir numa atitude apelativa. A nossa única saída é continuar o difícil e longo caminho de conquistar um lugar digno para nós e para a nossa pátria. E esse lugar só pode resultar da nossa própria criação.


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P.S. - A quem me mandou o outro texto sobre o 'jet-set nacional': a este nao e' preciso acrescentar qualquer "mais-valia", e' so' por Angola onde esta Mocambique...

Friday, 22 December 2006

MAKAS NA SANZALA (I)

Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…


5. Rappers give a voice to Angola's cry for democracy
(Thursday, June 17, 2004 )

Angola, a melting-pot of African, Portuguese and foreign musical influences, abounds in locally produced pop music. Much of it is recorded non-commercially and sold by street vendors. Most of it is cheerfully apolitical. But rap music is emerging as a medium of protest. In many nations rap is viewed with suspicion by the authorities as subversive and anti-establishment. This is no different in Angola - but in this southern African country, the "subversive" message of rappers is criticism of the country's lack of democracy.
There is already a small but vocal political opposition to the government, which last week joined forces at a pro-democracy forum to press President Jose Eduardo dos Santos to call new elections. Angola also has an outspoken independent press, but newspapers are little read outside elite urban circles. The spoken word - and in particular the growing number of songs from political rappers - therefore have great power in a country where fewer than half of all adults can read. Compact discs and tapes by political rappers such as MCK and Brigadeiro 10 Pacotes (Brigadier Ten Packets) are copied privately and eagerly passed from hand to hand. MCK, an underground rapper formerly unknown outside hip-hop circles, sprang to unexpected notoriety last November.
Several of President Dos Santos's guards allegedly killed a man for singing anti-government lyrics from MCK's song, "The Technique, the Causes and the Consequences". Eyewitnesses say the enraged men beat, dragged and drowned the victim, a car-washer at Mussulo quay, at a departure point for ferries to Luanda's beaches. A criminal investigation was launched, but no charges have yet been brought against the men. "The song cost this guy his life because it reflects Angolan reality and strikes at the people in power," says the rapper. "We still have a government that doesn't allow freedom of expression."
Two years after the end of their nearly three-decade civil war, some young Angolans such as MCK (pronouncedEmcee Kappa in Portuguese) are beginning to demand greater accountability from their leaders. President Dos Santos's MPLA party rules in a government of national unity with Unita, its former guerrilla foes. The government's political opponents and Angola's foreign partners, led by the US, have been pushing the president to call elections. Pressure is also growing for greater transparency in the management of Angola's abundant oil and other resources, which could help stimulate growth in this poor country. "Each discovery of an oil well widens the gap between those who have and those who do not," MCK says. "Unfortunately, oil shines for just a few." The 23-year-old rapper - a university student of philosophy by day - declines to give his real name for fear of reprisals. He says he has received threats, and commercial stations will not play his music. He lives in Luanda's working-class Chaba neighbourhood, where open sewers run down mud alleys between a labyrinth of cramped houses.
Malaria, spread by uncollected rubbish and stagnant water, is common in Chaba, as in Luanda's other poor quarters. The son of a driver and a retired charwoman, he began singing in 1995. "I come from a family that's typically religious and self-examining," he says. "I was lucky to live with siblings who were in the habit of asking questions." By the subversive, even violent standards of much US rap and hip-hop, MCK's lyrics are mild. "We have more firearms than dolls, fewer universities than discos, and more bars than libraries," the song that sparked November's alleged murder claims.
Friends of the victim, Arsenio Sebastiao, draped another MCK lyric over his coffin: "Who speaks the truth ends up in a coffin/ What sort of democracy is this?" Brigadeiro 10 Pacotes's lyrics are more militant, alleging that Mr Dos Santos is corrupt and calling for his overthrow. A full-time rapper and inhabitant of Luanda's squalid Hojy ya Henda quarter, like MCK he sells CDs by word of mouth. "The government plays a different tune and song/ But people no longer want to dance or smile/ We are fed up with the situation," his best-known song goes. It has become an anthem of Luanda's working poor, often heard in minibus commuter taxis. Recently in Huambo, a provincial inland city, Angolans listening to a recording by the rapper on a street turned it down as a group of strangers approached.

Source: Financial Times

More articles on this and related issues can be found, among other places,
here, here and here.
Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…


5. Rappers give a voice to Angola's cry for democracy
(Thursday, June 17, 2004 )

Angola, a melting-pot of African, Portuguese and foreign musical influences, abounds in locally produced pop music. Much of it is recorded non-commercially and sold by street vendors. Most of it is cheerfully apolitical. But rap music is emerging as a medium of protest. In many nations rap is viewed with suspicion by the authorities as subversive and anti-establishment. This is no different in Angola - but in this southern African country, the "subversive" message of rappers is criticism of the country's lack of democracy.
There is already a small but vocal political opposition to the government, which last week joined forces at a pro-democracy forum to press President Jose Eduardo dos Santos to call new elections. Angola also has an outspoken independent press, but newspapers are little read outside elite urban circles. The spoken word - and in particular the growing number of songs from political rappers - therefore have great power in a country where fewer than half of all adults can read. Compact discs and tapes by political rappers such as MCK and Brigadeiro 10 Pacotes (Brigadier Ten Packets) are copied privately and eagerly passed from hand to hand. MCK, an underground rapper formerly unknown outside hip-hop circles, sprang to unexpected notoriety last November.
Several of President Dos Santos's guards allegedly killed a man for singing anti-government lyrics from MCK's song, "The Technique, the Causes and the Consequences". Eyewitnesses say the enraged men beat, dragged and drowned the victim, a car-washer at Mussulo quay, at a departure point for ferries to Luanda's beaches. A criminal investigation was launched, but no charges have yet been brought against the men. "The song cost this guy his life because it reflects Angolan reality and strikes at the people in power," says the rapper. "We still have a government that doesn't allow freedom of expression."
Two years after the end of their nearly three-decade civil war, some young Angolans such as MCK (pronouncedEmcee Kappa in Portuguese) are beginning to demand greater accountability from their leaders. President Dos Santos's MPLA party rules in a government of national unity with Unita, its former guerrilla foes. The government's political opponents and Angola's foreign partners, led by the US, have been pushing the president to call elections. Pressure is also growing for greater transparency in the management of Angola's abundant oil and other resources, which could help stimulate growth in this poor country. "Each discovery of an oil well widens the gap between those who have and those who do not," MCK says. "Unfortunately, oil shines for just a few." The 23-year-old rapper - a university student of philosophy by day - declines to give his real name for fear of reprisals. He says he has received threats, and commercial stations will not play his music. He lives in Luanda's working-class Chaba neighbourhood, where open sewers run down mud alleys between a labyrinth of cramped houses.
Malaria, spread by uncollected rubbish and stagnant water, is common in Chaba, as in Luanda's other poor quarters. The son of a driver and a retired charwoman, he began singing in 1995. "I come from a family that's typically religious and self-examining," he says. "I was lucky to live with siblings who were in the habit of asking questions." By the subversive, even violent standards of much US rap and hip-hop, MCK's lyrics are mild. "We have more firearms than dolls, fewer universities than discos, and more bars than libraries," the song that sparked November's alleged murder claims.
Friends of the victim, Arsenio Sebastiao, draped another MCK lyric over his coffin: "Who speaks the truth ends up in a coffin/ What sort of democracy is this?" Brigadeiro 10 Pacotes's lyrics are more militant, alleging that Mr Dos Santos is corrupt and calling for his overthrow. A full-time rapper and inhabitant of Luanda's squalid Hojy ya Henda quarter, like MCK he sells CDs by word of mouth. "The government plays a different tune and song/ But people no longer want to dance or smile/ We are fed up with the situation," his best-known song goes. It has become an anthem of Luanda's working poor, often heard in minibus commuter taxis. Recently in Huambo, a provincial inland city, Angolans listening to a recording by the rapper on a street turned it down as a group of strangers approached.

Source: Financial Times

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here, here and here.

MAKAS NA SANZALA (I)

Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…
4. O facto de o artigo original do Mia Couto ter sido publicado ha dois anos atras, levou-me a ir repescar alguns artigos publicados por aquela altura, em 2004...

Angola: Quando o Silêncio do Povo Fala
Rafael Marques, 17 Janeiro 2004
(Parte II)
Frantz Fanon alertara os políticos africanos sobre a politização das massas. Não é nem pode ser através de um discurso político: "Politizar é abrir o espírito, é despertar o espírito, dar luz ao espírito". Nos musseques, onde se encontram as massas - a maioria absoluta - o silêncio do povo deixou-se estar embarrado pela miséria, tolhido pela guerra e pela repressão. A faixa 11, "Ekos de Revolta", desperta o tal espírito adormecido - balumuka. É uma análise sobre "um povo que sofre nas mãos dos governantes". Disseca a importação de disfarces ocidentais por parte da classe política que saqueia os recursos do povo e retribui com "discursos bonitinhos". "Ekos de revolta" apela aos cidadãos para que "estejam preparados/ o silêncio do povo fala/ a passividade do povo rebenta o balão". A rima resume a mensagem sobre e para o povo:

"Nós somos politicamente domesticados


Economicamente colonizados


Culturalmente estagnados


Socialmente atrasados/ (...)"

Donde provém essa consciência crítica? MCK indica a vida ao seu redor. Terminou o curso médio de Gestão e não tem acesso à universidade pública nem fundos para ingressar nas privadas. "Viver no musseque é ser herói". Miséria, insalubridade... Todavia, essa consciência é fruto de um processo de absorção das conquistas da liberdade de imprensa. O cantor tem, debaixo da cama, uma grande colecção de recortes de imprensa, onde abundam casos de corrupção, desgoverno e sei lá o quê! "Compomos as nossas letras com base no que captamos também da imprensa e da Rádio Ecclésia". Apesar da sua circulação pouco expressiva, em média total 30,000 exemplares/ semana para mais de 3,5 milhões de habitantes em Luanda, a imprensa independente tem sido o verdadeiro motor da consciência democrática que se vai impondo. Numa dinâmica espontânea e retro-alimentar, a faixa 6 do "Trincheira de Ideias", "Topikos p'ro artigo" é um tributo à imprensa independente - que a inspira - e uma paródia ao embelezamento oficial da realidade. Tem a participação do Brigadeiro Mata-Fracos, Iconoclasta, Kua Kubanza e Mil & Segundo. O tema explora, com positivismo forçado, o que mudou e o que está na mesma e vai constatando que "o salão de beleza da polícia tem novos penteados/ (...) o Parlamento, afinal, é uma comédia/ e quem pode fazer algo não liga/ (...) os jovens estão perdidos no deserto como camelos (...).

E a conversa continua no local do crime, no embarcadouro do Mussulo, onde a guarda do Senhorio, ao meio-dia e em praça pública, torturou e afogou o Cherokee. Ali onde a elite se refastela e goza os privilégios de uma Angola só para poucos. Naquele cemitério da verdade, onde o silêncio do povo é festejado com risos de escárnio. Faz parte do processo. "Os nossos corações estão arreados", lamenta um lavador de carros pela perda do colega e amigo. Em voz alta descarrega a sua raiva. "As autoridades que tinham vontade de matar, deviam apanhar o MCK e não um inocente. Querem ver-nos a viver como mudos".
MCK baixa a cara, coça os chinelos gastos pelas andanças e suspira. Não é inocente. O lavador de carros não o conhece. Este continua a falar, a dizer que não se deve tocar mais no assunto para não aborrecer os homens da presidência e da DNIC que por lá "andam a rondar". Quanto mais fala no medo menos amedrontado parece. Prefere, talvez, o discurso indirecto, manter a capa do medo. Outros lavadores juntam-se-lhe para confirmar o medo e as pressões a que estão sujeitos, enquanto desprezam o tal medo e dizem o que têm a dizer. Gostam e identificam-se com o "Sei lá o quê uáué". Talvez se sentissem honrados em saber que o MCK está no meio deles. A pesar as causas e consequências do seu exercício de cidadania.

Não faz parte dos cálculos e cenários elaborados a intromissão da música nos meandros da política. Sobretudo desse rap inventado no princípio dos anos 70 nos ghettos de Bronx, Nova Iorque, por marginais com muita imaginação, que fundiam ritmos e melodias de músicas conhecidas com poesia cáustica sobre a vida nos ghettos. Sem aproximação (…) qual será o desfecho em relação ao abismo que separa o poder, a oposição, os centros urbanos, os musseques de Luanda, os antigos combatentes, os palácios dos governadores e o resto do país?
Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…
4. O facto de o artigo original do Mia Couto ter sido publicado ha dois anos atras, levou-me a ir repescar alguns artigos publicados por aquela altura, em 2004...

Angola: Quando o Silêncio do Povo Fala
Rafael Marques, 17 Janeiro 2004
(Parte II)
Frantz Fanon alertara os políticos africanos sobre a politização das massas. Não é nem pode ser através de um discurso político: "Politizar é abrir o espírito, é despertar o espírito, dar luz ao espírito". Nos musseques, onde se encontram as massas - a maioria absoluta - o silêncio do povo deixou-se estar embarrado pela miséria, tolhido pela guerra e pela repressão. A faixa 11, "Ekos de Revolta", desperta o tal espírito adormecido - balumuka. É uma análise sobre "um povo que sofre nas mãos dos governantes". Disseca a importação de disfarces ocidentais por parte da classe política que saqueia os recursos do povo e retribui com "discursos bonitinhos". "Ekos de revolta" apela aos cidadãos para que "estejam preparados/ o silêncio do povo fala/ a passividade do povo rebenta o balão". A rima resume a mensagem sobre e para o povo:

"Nós somos politicamente domesticados


Economicamente colonizados


Culturalmente estagnados


Socialmente atrasados/ (...)"

Donde provém essa consciência crítica? MCK indica a vida ao seu redor. Terminou o curso médio de Gestão e não tem acesso à universidade pública nem fundos para ingressar nas privadas. "Viver no musseque é ser herói". Miséria, insalubridade... Todavia, essa consciência é fruto de um processo de absorção das conquistas da liberdade de imprensa. O cantor tem, debaixo da cama, uma grande colecção de recortes de imprensa, onde abundam casos de corrupção, desgoverno e sei lá o quê! "Compomos as nossas letras com base no que captamos também da imprensa e da Rádio Ecclésia". Apesar da sua circulação pouco expressiva, em média total 30,000 exemplares/ semana para mais de 3,5 milhões de habitantes em Luanda, a imprensa independente tem sido o verdadeiro motor da consciência democrática que se vai impondo. Numa dinâmica espontânea e retro-alimentar, a faixa 6 do "Trincheira de Ideias", "Topikos p'ro artigo" é um tributo à imprensa independente - que a inspira - e uma paródia ao embelezamento oficial da realidade. Tem a participação do Brigadeiro Mata-Fracos, Iconoclasta, Kua Kubanza e Mil & Segundo. O tema explora, com positivismo forçado, o que mudou e o que está na mesma e vai constatando que "o salão de beleza da polícia tem novos penteados/ (...) o Parlamento, afinal, é uma comédia/ e quem pode fazer algo não liga/ (...) os jovens estão perdidos no deserto como camelos (...).

E a conversa continua no local do crime, no embarcadouro do Mussulo, onde a guarda do Senhorio, ao meio-dia e em praça pública, torturou e afogou o Cherokee. Ali onde a elite se refastela e goza os privilégios de uma Angola só para poucos. Naquele cemitério da verdade, onde o silêncio do povo é festejado com risos de escárnio. Faz parte do processo. "Os nossos corações estão arreados", lamenta um lavador de carros pela perda do colega e amigo. Em voz alta descarrega a sua raiva. "As autoridades que tinham vontade de matar, deviam apanhar o MCK e não um inocente. Querem ver-nos a viver como mudos".
MCK baixa a cara, coça os chinelos gastos pelas andanças e suspira. Não é inocente. O lavador de carros não o conhece. Este continua a falar, a dizer que não se deve tocar mais no assunto para não aborrecer os homens da presidência e da DNIC que por lá "andam a rondar". Quanto mais fala no medo menos amedrontado parece. Prefere, talvez, o discurso indirecto, manter a capa do medo. Outros lavadores juntam-se-lhe para confirmar o medo e as pressões a que estão sujeitos, enquanto desprezam o tal medo e dizem o que têm a dizer. Gostam e identificam-se com o "Sei lá o quê uáué". Talvez se sentissem honrados em saber que o MCK está no meio deles. A pesar as causas e consequências do seu exercício de cidadania.

Não faz parte dos cálculos e cenários elaborados a intromissão da música nos meandros da política. Sobretudo desse rap inventado no princípio dos anos 70 nos ghettos de Bronx, Nova Iorque, por marginais com muita imaginação, que fundiam ritmos e melodias de músicas conhecidas com poesia cáustica sobre a vida nos ghettos. Sem aproximação (…) qual será o desfecho em relação ao abismo que separa o poder, a oposição, os centros urbanos, os musseques de Luanda, os antigos combatentes, os palácios dos governadores e o resto do país?

MAKAS NA SANZALA (I)

Voltando a "Receita para um jet-set nacional" (Angolano ou Mocambicano):
Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente
3. O facto de o artigo original do Mia Couto ter sido publicado ha dois anos atras, levou-me a ir repescar alguns artigos publicados por aquela altura, em 2004, e decidi postar aqui dois deles, um em Portugues e outro em Ingles. Aqui vai o primeiro:

Angola: Quando o Silêncio do Povo Fala
Rafael Marques, 17 Janeiro 2004

"Rap é falar em rima ao ritmo de uma batida", Kurtis Blow

(Parte I)
Pelos labirínticos becos, que retalham a encosta do Margoso, serpenteiam imparáveis cursos de águas fétidas. Por aí passam e habitam, de olfacto habituado, gerações de cidadãos, entregues ao esquecimento. É por esses caminhos, por esses musseques politicamente abandonados, que uma geração de jovens, excluídos e ressentidos, engendra uma nova revolução política, através do rap e acumuladas frustrações de uma cidadania roubada.
MCK, 22 anos, ganhou notoriedade. (...) A 26 de Novembro de 2003, Arsénio Sebastião "Cherokee", 27 anos, foi morto por cantar "A téknica, as kausas e as konsekuências" de MCK, também conhecida como o "Sei lá o quê, uáué". Por sua vez, Cherokee tornou-se num símbolo da injustiça em Angola(...). Esse facto trouxe à tona a insustentável leveza do poder. Uma ditadura de mais de um quarto de século estremece ao som improvisado da verdade. A estrofe "quem fala a verdade vai p'ro caixão", acabou por ser o único elo de entendimento entre o cantor, a vítima e os carrascos (o poder).
Ao descer por aqueles becos, a caminho da sua casa, MCK goza com o seu estatuto social sobretudo quando, às manhãs, dedica-se a acarretar água para casa, com o bidão às costas, ao ombro ou à mão conforme der mais jeito e o número de viagens. "Sou o caçula de casa e tenho de acarretar água todos os dias," conta. O seu quarto é demasiado apertado, mesmo para uma pessoa. Em tempo de chuvas as rezas ajudam a manter a casa e a fé. Nesse espaço de sobrevivência, encontram-se outros activistas do rap. Furacão e o Keyta Mayanda. Faltou o Brigadeiro 10 Pacotes, encarregue de organizar a missa do 30º dia em memória de Cherokee.
O cenário de indignação exibido nos rostos e nos cartazes que perfilam o beco do Marçal, onde o malogrado habitava, é uma demonstração de maturidade e de tomada de consciência sobre a realidade no relacionamento entre o poder e o povo.


Num país onde a solidariedade e o espírito de açambarcamento uniram-se em comunhão de bens, os rappers conseguiram, por sua iniciativa, angariar perto de mil dólares para entregar à família da vítima. Um valor incomparável à fuba e ao feijão depositados pela guarda presidencial em casa do malogrado. Mais, MCK assumiu o compromisso pela escolarização dos dois órfãos de Cherokee. Faz a venda directa dos seus discos e os magros proventos junta-os para a causa a que se propôs. Essa é a revolução. "Temos de promover uma revolução mental para corrigir o que se passou em 1975. Mudou-se o colono, mas manteve-se o sistema. Nós não somos ninguém no nosso próprio país," afirma Keyta Mayanda. "Apertaste no play e caíste numa trincheira de ideias", avisa a música introdutória do CD de MCK, com 13 faixas, com o sugestivo título de "Trincheira de Ideias". Esse álbum e outros de teor mais radical como "Conheça a verdade e a verdade te libertará", do Brigadeiro 10 Pacotes, são gravados e reproduzidos em estúdios improvisados como munições para alimentar frentes específicas.
Voluntariosos taxistas, os indispensáveis candongueiros, transportadores das massas, encontram-se entre os propagadores desse despertar de consciências, essa politização das massas. Põem a tocar, nos seus veículos cheios de passageiros, esse tipo de música contestária e censurada, cuja qualidade vale pelo conteúdo e até mesmo pela batida. "Governo toca mais uma guitarra", do Brigadeiro 10 Pacotes, é o som mais controverso e escutado nesse circuito de distribuição . É uma afronta em discurso directo contra o Soba Grande.
Voltando a "Receita para um jet-set nacional" (Angolano ou Mocambicano):
Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente
3. O facto de o artigo original do Mia Couto ter sido publicado ha dois anos atras, levou-me a ir repescar alguns artigos publicados por aquela altura, em 2004, e decidi postar aqui dois deles, um em Portugues e outro em Ingles. Aqui vai o primeiro:

Angola: Quando o Silêncio do Povo Fala
Rafael Marques, 17 Janeiro 2004

"Rap é falar em rima ao ritmo de uma batida", Kurtis Blow

(Parte I)
Pelos labirínticos becos, que retalham a encosta do Margoso, serpenteiam imparáveis cursos de águas fétidas. Por aí passam e habitam, de olfacto habituado, gerações de cidadãos, entregues ao esquecimento. É por esses caminhos, por esses musseques politicamente abandonados, que uma geração de jovens, excluídos e ressentidos, engendra uma nova revolução política, através do rap e acumuladas frustrações de uma cidadania roubada.
MCK, 22 anos, ganhou notoriedade. (...) A 26 de Novembro de 2003, Arsénio Sebastião "Cherokee", 27 anos, foi morto por cantar "A téknica, as kausas e as konsekuências" de MCK, também conhecida como o "Sei lá o quê, uáué". Por sua vez, Cherokee tornou-se num símbolo da injustiça em Angola(...). Esse facto trouxe à tona a insustentável leveza do poder. Uma ditadura de mais de um quarto de século estremece ao som improvisado da verdade. A estrofe "quem fala a verdade vai p'ro caixão", acabou por ser o único elo de entendimento entre o cantor, a vítima e os carrascos (o poder).
Ao descer por aqueles becos, a caminho da sua casa, MCK goza com o seu estatuto social sobretudo quando, às manhãs, dedica-se a acarretar água para casa, com o bidão às costas, ao ombro ou à mão conforme der mais jeito e o número de viagens. "Sou o caçula de casa e tenho de acarretar água todos os dias," conta. O seu quarto é demasiado apertado, mesmo para uma pessoa. Em tempo de chuvas as rezas ajudam a manter a casa e a fé. Nesse espaço de sobrevivência, encontram-se outros activistas do rap. Furacão e o Keyta Mayanda. Faltou o Brigadeiro 10 Pacotes, encarregue de organizar a missa do 30º dia em memória de Cherokee.
O cenário de indignação exibido nos rostos e nos cartazes que perfilam o beco do Marçal, onde o malogrado habitava, é uma demonstração de maturidade e de tomada de consciência sobre a realidade no relacionamento entre o poder e o povo.


Num país onde a solidariedade e o espírito de açambarcamento uniram-se em comunhão de bens, os rappers conseguiram, por sua iniciativa, angariar perto de mil dólares para entregar à família da vítima. Um valor incomparável à fuba e ao feijão depositados pela guarda presidencial em casa do malogrado. Mais, MCK assumiu o compromisso pela escolarização dos dois órfãos de Cherokee. Faz a venda directa dos seus discos e os magros proventos junta-os para a causa a que se propôs. Essa é a revolução. "Temos de promover uma revolução mental para corrigir o que se passou em 1975. Mudou-se o colono, mas manteve-se o sistema. Nós não somos ninguém no nosso próprio país," afirma Keyta Mayanda. "Apertaste no play e caíste numa trincheira de ideias", avisa a música introdutória do CD de MCK, com 13 faixas, com o sugestivo título de "Trincheira de Ideias". Esse álbum e outros de teor mais radical como "Conheça a verdade e a verdade te libertará", do Brigadeiro 10 Pacotes, são gravados e reproduzidos em estúdios improvisados como munições para alimentar frentes específicas.
Voluntariosos taxistas, os indispensáveis candongueiros, transportadores das massas, encontram-se entre os propagadores desse despertar de consciências, essa politização das massas. Põem a tocar, nos seus veículos cheios de passageiros, esse tipo de música contestária e censurada, cuja qualidade vale pelo conteúdo e até mesmo pela batida. "Governo toca mais uma guitarra", do Brigadeiro 10 Pacotes, é o som mais controverso e escutado nesse circuito de distribuição . É uma afronta em discurso directo contra o Soba Grande.

Tuesday, 19 December 2006

MAKAS NA SANZALA (I)


Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…

2. Ora, voltando ao nosso mundo angolano/mocambicano (e, mais geralmente, africano e mundial) o facto e’ que, pondo de parte a certamente reprovavel poluicao sonora das “emissoes generosas a partir do automovel para toda a cidade”, no texto do Mia as “hipopadas” e “rapadas” aparecem com uma carga implacavelmente negativa, nao deixando qualquer margem de tolerancia para, ou conciliacao com, o lado criativo e progressivo desse genero musical que ha muito deixou de ser uma forma de expressao exclusiva dos ‘gangsta rappers’ dos ghettos americanos, ou sequer apenas das comunidades negras, e hoje nao so’ se situa e reina firmemente no universo da musica popular a nivel global (sendo, notavelmente, a forma previligiada de veiculacao do protesto social na nossa era…) como se vai adicionando de ingredientes, temperos e sabores locais um pouco por todos os cantos da terra. Ai estao, por exemplo, o kwaito Sul-Africano e tambem os emergentes hip-hop Angolano e Mocambicano para o provar… A este proposito, descobri ontem uma ‘hip-hopista/rapper’ angolana, que da pelo nome de Adrenalina (na foto), cujo tema 'SOS', que aparentemente esta a fazer altas ondas na Africa do Sul e faz lembrar um pouco a Lauryn Hill, demonstra que vale bem a pena prestar um pouco mais de atencao a essa que e’ apenas, mais uma, quica a mais versatil, adaptavel e diversificante, das formas de expressao cultural da era moderna. Ainda nao me e' possivel tecnicamente coloca-lo aqui no blog, mas podem ouvir o 'SOS' da Adrenalina aqui.

Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…

2. Ora, voltando ao nosso mundo angolano/mocambicano (e, mais geralmente, africano e mundial) o facto e’ que, pondo de parte a certamente reprovavel poluicao sonora das “emissoes generosas a partir do automovel para toda a cidade”, no texto do Mia as “hipopadas” e “rapadas” aparecem com uma carga implacavelmente negativa, nao deixando qualquer margem de tolerancia para, ou conciliacao com, o lado criativo e progressivo desse genero musical que ha muito deixou de ser uma forma de expressao exclusiva dos ‘gangsta rappers’ dos ghettos americanos, ou sequer apenas das comunidades negras, e hoje nao so’ se situa e reina firmemente no universo da musica popular a nivel global (sendo, notavelmente, a forma previligiada de veiculacao do protesto social na nossa era…) como se vai adicionando de ingredientes, temperos e sabores locais um pouco por todos os cantos da terra. Ai estao, por exemplo, o kwaito Sul-Africano e tambem os emergentes hip-hop Angolano e Mocambicano para o provar… A este proposito, descobri ontem uma ‘hip-hopista/rapper’ angolana, que da pelo nome de Adrenalina (na foto), cujo tema 'SOS', que aparentemente esta a fazer altas ondas na Africa do Sul e faz lembrar um pouco a Lauryn Hill, demonstra que vale bem a pena prestar um pouco mais de atencao a essa que e’ apenas, mais uma, quica a mais versatil, adaptavel e diversificante, das formas de expressao cultural da era moderna. Ainda nao me e' possivel tecnicamente coloca-lo aqui no blog, mas podem ouvir o 'SOS' da Adrenalina aqui.

MAKAS NA SANZALA (I)



Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…

1. Confesso que postei aqui aquele texto do Mia Couto com “segundas intencoes” (nao más intencoes… apenas segundas). Desde que o li pela primeira vez, quando incialmente foi circulado ha cerca de 2 anos, me tem apetecido temperar as suas receitas com outros ingredientes a ver no que da’… mas, bom ou mau, espero que o prato final seja de um sabor diferente, idealmente para melhor. Tentarei “conspurcar” as receitas uma a uma e, como tenho que comecar por alguma, comecarei pelo que ele diz sobre as “rapadas” e “hipopadas” no que toca a Cultura:“(...) a única música que (o jet-setista) escuta são umas 'rapadas e hip-hopadas' que ele generosamente emite da aparelhagem do automóvel para toda a cidade.”
Pois bem, ha uma maka a correr neste momento na sanzala dos EUA entre a Oprah Winfrey e o artista de hip-hop Curtis Jackson, a.k.a. 50 Cent (entre outros, como o rapper/actor Ludacris, a.k.a. Chris Bridges). A maka resume-se ao seguinte: a Oprah critica a atitude misogena de uma certa musica hip-hop e o 50 Cent acusou-a por isso de ser uma “negra com mentalidade branca” ou, na tipificacao do cada vez mais sofisticado ‘black community lingo’, de ser uma “coconut”. Pelo meio, ambas as partes foram arregimentando adeptos das suas respectivas posicoes um pouco por todo o lado, inclusive na comunidade hip-hop. Do lado do 50 Cent houve um intelectual que se interrogou “como e’ que a Oprah se sentia na posicao de critica de um genero musical que e' essencialmente de sensibilidade negra”… Do lado da Oprah ha varias posicoes, incluindo a minha, que apesar de ja ter sido mais radical (nos tempos em que talvez me tenha parecido muito com os pais, ocidentais ou ocidentalizados um pouco por todo o mundo, dos anos 50/60 que viam no ‘rock and roll’ - que pouco mais e' do que um "derivado" do blues afro-americano - a maior ameaca ao mundo tal como o conheciam e em que o meu filho me ensinou que nao era ‘hi-p – ho-p’, como se estivesse com soluços... que se pronunciava mas sim straight ‘hipop’ e me fez interessar e, aos poucos, ir compreendendo melhor personagens, infelizmente tragicos, como o Tupac Shakur, por exemplo…), continuo a nao encontrar qualquer racionalidade na forma degradante como as mulheres sao geralmente retratadas, quer nas letras, quer nos videos desse genero musical...


Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…

1. Confesso que postei aqui aquele texto do Mia Couto com “segundas intencoes” (nao más intencoes… apenas segundas). Desde que o li pela primeira vez, quando incialmente foi circulado ha cerca de 2 anos, me tem apetecido temperar as suas receitas com outros ingredientes a ver no que da’… mas, bom ou mau, espero que o prato final seja de um sabor diferente, idealmente para melhor. Tentarei “conspurcar” as receitas uma a uma e, como tenho que comecar por alguma, comecarei pelo que ele diz sobre as “rapadas” e “hipopadas” no que toca a Cultura:“(...) a única música que (o jet-setista) escuta são umas 'rapadas e hip-hopadas' que ele generosamente emite da aparelhagem do automóvel para toda a cidade.”
Pois bem, ha uma maka a correr neste momento na sanzala dos EUA entre a Oprah Winfrey e o artista de hip-hop Curtis Jackson, a.k.a. 50 Cent (entre outros, como o rapper/actor Ludacris, a.k.a. Chris Bridges). A maka resume-se ao seguinte: a Oprah critica a atitude misogena de uma certa musica hip-hop e o 50 Cent acusou-a por isso de ser uma “negra com mentalidade branca” ou, na tipificacao do cada vez mais sofisticado ‘black community lingo’, de ser uma “coconut”. Pelo meio, ambas as partes foram arregimentando adeptos das suas respectivas posicoes um pouco por todo o lado, inclusive na comunidade hip-hop. Do lado do 50 Cent houve um intelectual que se interrogou “como e’ que a Oprah se sentia na posicao de critica de um genero musical que e' essencialmente de sensibilidade negra”… Do lado da Oprah ha varias posicoes, incluindo a minha, que apesar de ja ter sido mais radical (nos tempos em que talvez me tenha parecido muito com os pais, ocidentais ou ocidentalizados um pouco por todo o mundo, dos anos 50/60 que viam no ‘rock and roll’ - que pouco mais e' do que um "derivado" do blues afro-americano - a maior ameaca ao mundo tal como o conheciam e em que o meu filho me ensinou que nao era ‘hi-p – ho-p’, como se estivesse com soluços... que se pronunciava mas sim straight ‘hipop’ e me fez interessar e, aos poucos, ir compreendendo melhor personagens, infelizmente tragicos, como o Tupac Shakur, por exemplo…), continuo a nao encontrar qualquer racionalidade na forma degradante como as mulheres sao geralmente retratadas, quer nas letras, quer nos videos desse genero musical...

Wednesday, 13 December 2006

Receita para um "jet-set" nacional - Mia Couto (com acrescento da mais-valia angolana)

Maputo - Já vimos que, em Moçambique (em Angola é pior), não é preciso ser rico. O essencial é parecer rico. Entre parecer e ser vai menos que um passo, a diferença entre um tropeço e uma trapaça. No nosso caso, a aparência é que faz a essência.
Daí que a empresa comece pela fachada, o empresário de sucesso comece pelo sucesso da sua viatura, a felicidade do casamento se faça pela dimensão da festa (em Angola, para além de um convite “de luxo”, cada vez mais sofisticado, para um lugar cada vez mais “chique”, acrescenta-se uma lista obrigatória de lojas – as mais caras de preferência – com as prendas devidamente referenciadas). A ocasião, diz-se, é que faz o negócio. E é aqui que entra o cenário dos ricos e candidatos a ricos: a encenação do nosso "jet-set".

O "jet-set" como todos sabem é algo que ninguém sabe o que é. Mas reúne a gente de luxo, a gente vazia que enche de vazio as colunas sociais (a revista ”Caras” é o nosso protótipo). O jet-set moçambicano está ainda no início. Aqui seguem umas dicas que, durante o próximo ano, ajudarão qualquer pelintra a candidatar-se a um jet-setista. Haja democracia! As sugestões são gratuitas e estão dispostas na forma de um pequeno manual por desordem alfabética:

Anéis - São imprescindíveis. Fazem parte da montra. O princípio é: quem tem boa aparência é bem aparentado. E quem tem bom parente está a meio caminho para passar dos anéis do senhor à categoria de Senhor dos Anéis. O jet-setista nacional deve assemelhar-se a um verdadeiro Saturno, tais os anéis que rodeiam os seus dedos. A ideia é que quem passe nunca confunda o jet-setista com um magaíça, um pobre, um coitado. Deve-se usar jóias do tipo matacão, ouros e pedras preciosas tão grandes que se poderiam chamar de penedos preciosos. A acompanhar a anelagem deve exibir-se um cordão de ouro, bem visível entre a camisa desabotoada.


Boas maneiras - Não se devem ter. Nem pensar. O bom estilo é agressivo, o arranhão, o grosseiro. Um tipo simpático, de modos afáveis e que se preocupa com os outros? Isso, só uma pessoa que necessita de aprovação da sociedade. O jet-setista nacional não precisa de aprovação de ninguém, já nasceu aprovado. Daí os seus ares de chefe, de gajo mandão, que olha o mundo inteiro com superioridade de patrão. Pára o carro no meio da estrada atrapalhando o trânsito, fura a bicha, passa à frente, pisa o cidadão anónimo. Onde os outros devem esperar, o jet-setista aproveita para exibir a sua condição de criatura especial. O jet-setista não espera: telefona. E manda. Quando não desmanda.

Cabelo - O nosso jet-setista anda a reboque das modas dos outros. O que vem dos americanos: isso é que é bom. Espreita a MTV e fica deleitado com uns moços cuja única tarefa na vida é fazer de conta que cantam. Os tipos são fantásticos, nesses video-clips: nunca se lhes viu ligação alguma com o trabalho, circulam com viaturas a abarrotar de miúdas descascadas. A vida é fácil para esses meninos. De onde lhes virá o sustento? Pois esses queridos fazem questão em rapar o cabelo à moda militar, para demonstrar a sua agressividade contra um mundo que os excluiu mas que, ao que parece, lhes abriu a porta para uns tantos luxos. E esses andam de cabelo rapado. Por enquanto.

Cerveja - A solidez do nosso matreco vem dos líquidos. O nosso candidato a jet-setista não simplesmente bebe. Ele tem de mostrar que bebe. Parece um reclame publicitário ambulante. Encontramos o nosso matreco de cerveja na mão em casa, na rua, no automóvel, na casa de banho. As obsessões do matreco nacional variam entre o copo e o corpo (os tipos ginasticam-se bem). Vazam copos e enchem os corpos (de musculaças). As garrafas ou latas vazias são deitadas para o meio da rua. Deitar a lata no depósito do lixo é uma coisa demasiado "educadinha". Boa educação é para os pobres. Bons modos são para quem trabalha. Porque a malta da pesada não precisa de maneiras. Precisa de gangs. Respeito? Isso o dinheiro não compra. Antes vale que os outros tenham medo.

Chapéu - É fundamental. Mas o verdadeiro jet-setista não usa chapéu quando todos os outros usam: ao sol. Eis a criatividade do matreco nacional: chapéu ele usa na sombra, no interior das viaturas e sob o tecto das casas. Deve ser um chapéu que dê nas vistas. Muitoaconselhável é o chapéu de cowboy, àla Texana. Para mostrar a familiaridade do nosso matreco com a rudeza dos domadores de cavalos. Com os que põe o planeta na ordem. Na sua ordem.(Aqui até pegou na classe dirigente do país…)

Cultura - O jet-setista não lê, não vai ao teatro. A única coisa que ele lê são os rótulos de uísque. A única música que escuta são umas "rapadas e hip-hopadas" que ele generosamente emite da aparelhagem do automóvel para toda a cidade. Os tipos da cultura são, no entender do matreco nacional, uns desgraçados que nunca ficarão ricos.

O segredo é o seguinte: o jet-setista nem precisa de estudar. Nem de ter Curriculum Vitae. Para quê? Ele não vai concorrer, os concursos é que vão ter com ele. E para abrir portas basta-lhe o nome. O nome da família, entenda-se. (E quando finge estudar, não esconde os seus dotes de “cabulador” ou de “corruptor”, que lhe permitem terminar o curso e apresentar um pomposo cartão de visita de “Mestre, Doutor, Professor João das Garotas”).

Carros - O matreco nacional fica maluquinho com viaturas de luxo. É quase uma tara sexual, uma espécie de droga legalmente autorizada. O carro não é para o nosso jet-setista um instrumento, um objecto. É uma divindade, um meio de afirmação. Se pudesse o matreco levava o automóvel para a cama. E, de facto, o sonho mais erótico do nosso jet-setista não é com uma Mercedes. É, com um Mercedes.

Fatos - Têm de ser de Itália. Para não correr o risco do investimento ser em vão, aconselha-se a usar o casaco com os rótulos de fora, não vá a origem da roupa passar despercebida. Um lencinho pode espreitar do bolso, a sugerir que outras coisas podem de lá sair.

Óculos escuros - Essenciais, haja ou não haja claridade. O style - ou em português, o estilo - assim o exige. Devem ser usados em casa, no cinema, enfim, em tudo o que não bate o sol directo. O matreco deve dar a entender que há uma luz especial que lhe vem de dentro da cabeça. Essa a razão do chapéu, mesmo na maior obscuridade.

Simplicidade - A simplicidade é um pecado mortal para a nossa matrecagem. Sobretudo, se se é filho de gente grande. Nesse caso, deve-se gastar à larga e mostrar que isso de país pobre é para os outros. Porque eles (os meninos de boas famílias) exibem mais ostentação que os filhos dos verdadeiros ricos dos países verdadeiramente ricos. Afinal, ficamos independentes para quê?

Telemóvel - Ui, ui, ui! O celular ou telemóvel já faz parte do braço do matreco, é a sua mais superior extremidade inferior. A marca, o modelo, as luzinhas que acendem, os brilhantes, tudo isso conta. Mas importa, sobretudo, que o toque do celular seja audível a mais de 200 metros . Quem disse que o jet-setista não tem relação com a música clássica? Volume no máximo, pelo aparelho passam os mais cultos trechos: Fur Elise de Beethoven, a Rapsódia Húngara de Franz Liszt, o Danúbio Azul de Strauss.No entanto, a melodia mais adequada para as condições higiénicas de Maputo é o Voo do Moscardo. Última sugestão : nunca desligue o telemóvel! O que em outro lugar é uma prova de boa educação pode, em Moçambique, ser interpretado como um sinal de fraqueza. Em Conselho de Ministros, na confissão da Igreja, no funeral do avô: mostre que nada é mais importante que as suas inadiáveis comunicações. Você é que é o centro do universo!

Maputo - Já vimos que, em Moçambique (em Angola é pior), não é preciso ser rico. O essencial é parecer rico. Entre parecer e ser vai menos que um passo, a diferença entre um tropeço e uma trapaça. No nosso caso, a aparência é que faz a essência.
Daí que a empresa comece pela fachada, o empresário de sucesso comece pelo sucesso da sua viatura, a felicidade do casamento se faça pela dimensão da festa (em Angola, para além de um convite “de luxo”, cada vez mais sofisticado, para um lugar cada vez mais “chique”, acrescenta-se uma lista obrigatória de lojas – as mais caras de preferência – com as prendas devidamente referenciadas). A ocasião, diz-se, é que faz o negócio. E é aqui que entra o cenário dos ricos e candidatos a ricos: a encenação do nosso "jet-set".

O "jet-set" como todos sabem é algo que ninguém sabe o que é. Mas reúne a gente de luxo, a gente vazia que enche de vazio as colunas sociais (a revista ”Caras” é o nosso protótipo). O jet-set moçambicano está ainda no início. Aqui seguem umas dicas que, durante o próximo ano, ajudarão qualquer pelintra a candidatar-se a um jet-setista. Haja democracia! As sugestões são gratuitas e estão dispostas na forma de um pequeno manual por desordem alfabética:

Anéis - São imprescindíveis. Fazem parte da montra. O princípio é: quem tem boa aparência é bem aparentado. E quem tem bom parente está a meio caminho para passar dos anéis do senhor à categoria de Senhor dos Anéis. O jet-setista nacional deve assemelhar-se a um verdadeiro Saturno, tais os anéis que rodeiam os seus dedos. A ideia é que quem passe nunca confunda o jet-setista com um magaíça, um pobre, um coitado. Deve-se usar jóias do tipo matacão, ouros e pedras preciosas tão grandes que se poderiam chamar de penedos preciosos. A acompanhar a anelagem deve exibir-se um cordão de ouro, bem visível entre a camisa desabotoada.


Boas maneiras - Não se devem ter. Nem pensar. O bom estilo é agressivo, o arranhão, o grosseiro. Um tipo simpático, de modos afáveis e que se preocupa com os outros? Isso, só uma pessoa que necessita de aprovação da sociedade. O jet-setista nacional não precisa de aprovação de ninguém, já nasceu aprovado. Daí os seus ares de chefe, de gajo mandão, que olha o mundo inteiro com superioridade de patrão. Pára o carro no meio da estrada atrapalhando o trânsito, fura a bicha, passa à frente, pisa o cidadão anónimo. Onde os outros devem esperar, o jet-setista aproveita para exibir a sua condição de criatura especial. O jet-setista não espera: telefona. E manda. Quando não desmanda.

Cabelo - O nosso jet-setista anda a reboque das modas dos outros. O que vem dos americanos: isso é que é bom. Espreita a MTV e fica deleitado com uns moços cuja única tarefa na vida é fazer de conta que cantam. Os tipos são fantásticos, nesses video-clips: nunca se lhes viu ligação alguma com o trabalho, circulam com viaturas a abarrotar de miúdas descascadas. A vida é fácil para esses meninos. De onde lhes virá o sustento? Pois esses queridos fazem questão em rapar o cabelo à moda militar, para demonstrar a sua agressividade contra um mundo que os excluiu mas que, ao que parece, lhes abriu a porta para uns tantos luxos. E esses andam de cabelo rapado. Por enquanto.

Cerveja - A solidez do nosso matreco vem dos líquidos. O nosso candidato a jet-setista não simplesmente bebe. Ele tem de mostrar que bebe. Parece um reclame publicitário ambulante. Encontramos o nosso matreco de cerveja na mão em casa, na rua, no automóvel, na casa de banho. As obsessões do matreco nacional variam entre o copo e o corpo (os tipos ginasticam-se bem). Vazam copos e enchem os corpos (de musculaças). As garrafas ou latas vazias são deitadas para o meio da rua. Deitar a lata no depósito do lixo é uma coisa demasiado "educadinha". Boa educação é para os pobres. Bons modos são para quem trabalha. Porque a malta da pesada não precisa de maneiras. Precisa de gangs. Respeito? Isso o dinheiro não compra. Antes vale que os outros tenham medo.

Chapéu - É fundamental. Mas o verdadeiro jet-setista não usa chapéu quando todos os outros usam: ao sol. Eis a criatividade do matreco nacional: chapéu ele usa na sombra, no interior das viaturas e sob o tecto das casas. Deve ser um chapéu que dê nas vistas. Muitoaconselhável é o chapéu de cowboy, àla Texana. Para mostrar a familiaridade do nosso matreco com a rudeza dos domadores de cavalos. Com os que põe o planeta na ordem. Na sua ordem.(Aqui até pegou na classe dirigente do país…)

Cultura - O jet-setista não lê, não vai ao teatro. A única coisa que ele lê são os rótulos de uísque. A única música que escuta são umas "rapadas e hip-hopadas" que ele generosamente emite da aparelhagem do automóvel para toda a cidade. Os tipos da cultura são, no entender do matreco nacional, uns desgraçados que nunca ficarão ricos.

O segredo é o seguinte: o jet-setista nem precisa de estudar. Nem de ter Curriculum Vitae. Para quê? Ele não vai concorrer, os concursos é que vão ter com ele. E para abrir portas basta-lhe o nome. O nome da família, entenda-se. (E quando finge estudar, não esconde os seus dotes de “cabulador” ou de “corruptor”, que lhe permitem terminar o curso e apresentar um pomposo cartão de visita de “Mestre, Doutor, Professor João das Garotas”).

Carros - O matreco nacional fica maluquinho com viaturas de luxo. É quase uma tara sexual, uma espécie de droga legalmente autorizada. O carro não é para o nosso jet-setista um instrumento, um objecto. É uma divindade, um meio de afirmação. Se pudesse o matreco levava o automóvel para a cama. E, de facto, o sonho mais erótico do nosso jet-setista não é com uma Mercedes. É, com um Mercedes.

Fatos - Têm de ser de Itália. Para não correr o risco do investimento ser em vão, aconselha-se a usar o casaco com os rótulos de fora, não vá a origem da roupa passar despercebida. Um lencinho pode espreitar do bolso, a sugerir que outras coisas podem de lá sair.

Óculos escuros - Essenciais, haja ou não haja claridade. O style - ou em português, o estilo - assim o exige. Devem ser usados em casa, no cinema, enfim, em tudo o que não bate o sol directo. O matreco deve dar a entender que há uma luz especial que lhe vem de dentro da cabeça. Essa a razão do chapéu, mesmo na maior obscuridade.

Simplicidade - A simplicidade é um pecado mortal para a nossa matrecagem. Sobretudo, se se é filho de gente grande. Nesse caso, deve-se gastar à larga e mostrar que isso de país pobre é para os outros. Porque eles (os meninos de boas famílias) exibem mais ostentação que os filhos dos verdadeiros ricos dos países verdadeiramente ricos. Afinal, ficamos independentes para quê?

Telemóvel - Ui, ui, ui! O celular ou telemóvel já faz parte do braço do matreco, é a sua mais superior extremidade inferior. A marca, o modelo, as luzinhas que acendem, os brilhantes, tudo isso conta. Mas importa, sobretudo, que o toque do celular seja audível a mais de 200 metros . Quem disse que o jet-setista não tem relação com a música clássica? Volume no máximo, pelo aparelho passam os mais cultos trechos: Fur Elise de Beethoven, a Rapsódia Húngara de Franz Liszt, o Danúbio Azul de Strauss.No entanto, a melodia mais adequada para as condições higiénicas de Maputo é o Voo do Moscardo. Última sugestão : nunca desligue o telemóvel! O que em outro lugar é uma prova de boa educação pode, em Moçambique, ser interpretado como um sinal de fraqueza. Em Conselho de Ministros, na confissão da Igreja, no funeral do avô: mostre que nada é mais importante que as suas inadiáveis comunicações. Você é que é o centro do universo!