Tuesday, 16 September 2008

O POVO E’ RACIONAL…

...E SOBERANO!

1. A medida que vou percorrendo as colunas dos semanarios Luandenses neste rescaldo das eleicoes legislativas, comeca a ser perturbador o numero de vozes, ainda que minoritarias, que atribuem os seus resultados a um “voto emocional” ou a um “eleitorado imaturo para a democracia”… Nao se darao conta, tais vozes, do quanto elas proprias revelam emotividade e imaturidade politico-democratica nos seus pronunciamentos?

2. Sejamos claros: a democracia e’ isso mesmo – a expressao da vontade popular atraves do voto. Se o partido que recebeu maioritariamente tal voto vier a desrespeitar a vontade popular nele expressa, particularmente pelo nao cumprimento das promessas na base das quais o obteve, ou se as instituicoes supra-partidarias responsaveis por implementar a ordem politica e as politicas determinadas pela vontade popular expressa em tal voto nao o fizerem, ai sim, estar-se-ha perante um sistema democratico imaturo e irracional (e isto nao deixa de ser verdade apesar de toda a mitologia que tem os politicos como especialistas em fazer promessas que raramente cumprem). Quanto mais nao seja porque, findos os quatro anos da legislatura instituida por estas eleicoes, tal partido desrespeitador e instituicoes incumpridoras correm o risco de virem a ser penalizados pelo mesmo povo que agora neles votou. Tao simples quanto isso.

3. E esse talvez seja o unico elemento ‘simples’ do processo democratico. Porque tudo o resto, e em particular os julgamentos da capacidade do povo exercer o seu direito de voto e atraves dele expressar a sua vontade de forma lucida, responsavel e racional, e’ deveras complicado e, no limite, pode ate’ revelar-se um exercicio absurdo. Sim, e’ um absurdo considerar-se que a maioria de todo um povo, atraves de mais de 80% dos votos validos expressos, toma decisoes sobre a sua propria vida quotidiana e o seu proprio futuro apenas com base em emocoes. Mais do que isso: revela um profundo desprezo pelo povo e a mais basica falta de sentido democratico.

4. Efectivamente, apenas um certo raciocinio totalitario e’ capaz de concluir facilmente que se a maioria nao vota naquele(s) que se auto-considera(m) o(s) melhor(es) e’ porque e’ “irracional” ou “nao sabe o que e’ bom para si propria”… E quando as vozes que assim se expressam sao afectas a forcas politicas perdedoras nas urnas, entao elas tornam-se particularmente perturbadoras, porque demonstram que tais forcas nao so’ nao mereceram desta vez a maioria dos votos, como muito provavelmente tambem nao a merecerao no futuro, por nao terem sabido respeitar a vontade popular e, acima de tudo, por evidenciarem assim uma preocupante e imatura incapacidade de aprenderem com os seus proprios erros e de os corrigirem. Quando se diz, como numa dessas colunas, que “o povo esta’ cansado de verdades, so’ quer promessas”, quem e’ que se julga detentor de uma qualquer “verdade” em nome do povo? Quem e’ que se considera no direito de julgar o povo pelas promessas em que decide acreditar ou nao?

5. Muito se tem feito das irregularidades verificadas durante a campanha e durante o proprio acto eleitoral. Mas tudo parece indicar, quer pelas avaliacoes dos observadores nacionais e internacionais, quer pela aceitacao pela generalidade da oposicao dos resultados eleitorais, que tais irregularidades nao foram de monta suficiente para invalidarem ou descridibilizarem o processo eleitoral no seu todo. Muito se tem feito tambem da disparidade de meios materiais, financeiros e mediaticos entre o partido no poder e os partidos da oposicao. Eu propria a mencionei aqui como um factor importante na formacao das decisoes de voto. Mas tera’ ela sido determinante dessas decisoes a uma taxa superior a 80%, num pais com uma, embora ainda de circulacao restrita fora da capital, imprensa privada e tendencialmente independente, uma esclarecida e expressiva sociedade civil, uma cada vez maior expansao da internet e de redes televisivas internacionais e, nao menos importante, um fenomeno que em todas as sociedades se revela invariavelmente um poderosissimo formador de opiniao: um numero significativo de artistas populares, com destaque para musicos e poetas, difundindo ao longo dos anos por todo o pais mensagens de contestacao politica e reivindicacao social? Nao me parece.

6. E’ um facto inegavel que a educacao civica para o exercicio da democracia ainda e’ bastante precaria no nosso pais. O proprio conceito de democracia e’ ainda uma relativa novidade para a maioria dos cidadaos Angolanos e a sua pratica efectiva uma completa novidade para todo o pais. Mas o que as vozes criticas da capacidade de decisao do povo revelam e’ que nao e’ apenas o povo que ainda carece dessa educacao, mas todo o pais e particularmente os donos de tais vozes. Porque uma coisa e’ admitir-se, como o fiz aqui, que o grau de sofrimento, brutalizacao e traumatizacao a que grande parte do povo Angolano foi sujeito ao longo nao apenas das ultimas decadas, mas de seculos, teve impactos materiais, psicologicos e espirituais consideraveis nas suas vidas e tende a fazer aumentar a sua desconfianca em relacao a forcas politicas ainda nao testadas no exercicio governativo, outra coisa e’ considera-lo por isso incapaz de tomar, particularmente se atraves do voto individual e secreto, decisoes logicas e racionais (note-se que a logica e a razao nao sao atributos exclusivos da erudicao e do bem-estar, objectiva ou subjectivamente considerados).

7. Senao vejamos: e’ emocional e imaturo um povo que vem gerindo a sua vida e garantindo a sua sobrevivencia ao longo de decadas, sem qualquer rede de apoio social por parte do estado? Que produz uma das economias informais mais funcionais e eficientes do mundo? Que cria um mercado que, como o Roque Santeiro, apesar de tambem funcionar como um viveiro de marginalidade e insalubridade, no essencial consegue ser o principal, senao unico para a maioria da populacao da capital e nao so’, determinante dos sistemas de rendimentos e precos, incluindo das taxas de cambio, durante decadas? Que produz resilientes zungueiras, kinguilas, kandongueiros e roboteiros, em vez de simplesmente alimentar as estatisticas do desemprego e engrossar as esquinas e largos da mendicidade? Que tanto quanto ve as suas precarias habitacoes demolidas, se demonstra capaz de as reconstruir, e’ certo que na generalidade dos casos de forma anarquica, mas tambem de forma razoavelmente planificada e organizada? Sera’ crivel que tal povo, tendo obtido, depois de quase duas decadas sem essa possibilidade, a oportunidade de escolher quem julga capaz de lhe conceder e a quem julga dever exigir, sob pena de o penalizar nas urnas daqui a quatro anos, a tal rede social de apoio de que se viu privado ao longo das decadas em que esteve praticamente entregue a si proprio e aos seus proprios recursos para sobreviver, faca tal escolha irracionalmente? Nao creio.

8. E sejamos tambem claros em relacao a um ponto essencial: o que esta’ em jogo em quaisquer eleicoes gerais, em qualquer parte do mundo, mesmo nas sociedades mais desenvolvidas e com elevada maturidade democratica, sao as necessidades basicas e primarias da maioria da populacao, isto e’, o emprego, a saude, a alimentacao, a habitacao, a educacao e a seguranca social. E’ tanto assim nas actuais eleicoes presidenciais Americanas (no caso destas, apesar da guerra no Iraque constituir um factor de decisao eleitoral de primeira ordem), como o foi nas recentes eleicoes gerais Zimbabweanas (no caso destas, apesar de questoes de ordem historica e racial constituirem tambem factores de decisao eleitoral de primeira ordem). E sao apenas os relativos deficits de satisfacao dessas necessidades basicas, consoante o nivel de desenvolvimento de cada sociedade, que determinam o seu peso relativo em relacao a questoes e necessidades de ordem mais secundaria, ou terciaria, nas decisoes de voto. [*]

9. Assim, quanto maiores forem as necessidades basicas numa determinada sociedade e quanto maiores forem os segmentos populacionais afectados por tais necessidades, maior sera’ a tendencia para uma convergencia das decisoes de voto em direccao a partidos que nao representem apenas, ou primordialmente, interesses e necessidades minoritarios, por mais legitimos que esses sejam. E nao ha’ nada de irracional nisso. Antes pelo contrario, o inverso se-lo-ia: nomeadamente se, em vez de decidir priorizar proactivamente a satisfacao das suas necessidades objectivas mais prementes, a maioria decidisse, como alguns parecem ter esperado, priorizar a penalizacao retroactiva dos detentores do poder pelos seus erros e falhas do passado, mesmo que as forcas politicas alternativas nao lhe oferecam grandes garantias de que nao iriam incorrer nos mesmos erros e falhas ou noutros piores ainda – isso sim, seria uma decisao emocional, imatura e irracional. Mais: nao e’ ao povo que cabe, em detrimento da sua propria vontade e das suas necessidades objectivas, assegurar atraves do voto a diversidade ou a alteridade do sistema politico. Em democracia, e’ aos partidos que cabe essa responsabilidade (ate' porque para isso sao pagos atraves do erario publico, isto e', com o dinheiro do povo) na exacta medida em que se saibam organizar, apresentar e projectar, madura, racional e logicamente, como merecedores do voto popular.

10. Em geito de conclusao, cito de uma das colunas que tenho vindo a comentar: “Depois de ter ouvido uma senhora expressar-se relativamente ao processo de campanha com a seguinte frase: "o povo está cansado de verdades,...só quer promessas". Acrescentando que este trocadilho estava a correr pela cidade, eu reflicto sobre ele aqui porque interpretei-o como um reflexo de um mecanismo de defesa psicológico de negação da realidade que acontece muitas vezes em seres humanos imaturos ou que tenham experimentado grande dor ou sofrimento. A tendência a negar sensações dolorosas é tão antiga quanto o próprio sentimento de dor. Em psicologia dizemos que a capacidade de negar pares desagradáveis da realidade é a contrapartida da "realização alucinatória dos desejos", neste sentido, as promessas poderão ser interpretadas como sendo os desejos concretizados.”
Nao sera’ mais realista e factual o caso de algumas vozes afectas a partidos perdedores nestas eleicoes estarem agora, com o argumento da “imaturidade e emotividade dos eleitores”, a reflectir um mecanismo de defesa psicológico de negação da realidade que acontece muitas vezes em seres humanos imaturos ou que tenham experimentado grande dor ou sofrimento? Nao estarao elas precisamente a manifestar uma tendencia a negar sensações dolorosas, nomeadamente a da derrota eleitoral? Nao estarao elas a revelar exactamente uma capacidade de negar pares desagradáveis da realidade, nomeadamente a perspectiva de extincao de alguns desses partidos devido aos seus resultados eleitorais quase nulos, em grande medida por alguns deles se terem sobrevalorizado a si proprios e subestimado outros e a dada altura terem tomado a sua propria auto-avaliacao como sendo os seus desejos concretizados, sendo por isso a sua reaccao a realidade dos resultados eleitorais efectivos a contrapartida da realização alucinatória dos seus desejos?
Sejamos, pois, todos tao maduros e racionais como o povo sempre soube ser: respeite-mo-lo e as suas decisoes, por muito que elas desagradem a uns ou a outros, porque ele e’ o unico soberano em democracia!



[*] P.S.: Veja-se o que afirmou Barack Obama, mais de um ano depois destas consideracoes terem sido aqui tecidas, a este proposito:

In the last several election cycles, there has been a much stronger tendency for women to vote around bread and butter issues. It has to do with the fact that they're the ones balancing the budgets and trying to figure out how to make enough money - keep food on the table. One of the things that Michelle and I always talk about is that I have no idea how to buy clothes for my girls. I don't know what they cost. And that's probably not untypical. So that's something that Michelle has to think about and budget for. What that means, then, is that the issues of the economy are ones that women are going to particularly feel and be concerned about.

[Referencia daqui]

...E SOBERANO!

1. A medida que vou percorrendo as colunas dos semanarios Luandenses neste rescaldo das eleicoes legislativas, comeca a ser perturbador o numero de vozes, ainda que minoritarias, que atribuem os seus resultados a um “voto emocional” ou a um “eleitorado imaturo para a democracia”… Nao se darao conta, tais vozes, do quanto elas proprias revelam emotividade e imaturidade politico-democratica nos seus pronunciamentos?

2. Sejamos claros: a democracia e’ isso mesmo – a expressao da vontade popular atraves do voto. Se o partido que recebeu maioritariamente tal voto vier a desrespeitar a vontade popular nele expressa, particularmente pelo nao cumprimento das promessas na base das quais o obteve, ou se as instituicoes supra-partidarias responsaveis por implementar a ordem politica e as politicas determinadas pela vontade popular expressa em tal voto nao o fizerem, ai sim, estar-se-ha perante um sistema democratico imaturo e irracional (e isto nao deixa de ser verdade apesar de toda a mitologia que tem os politicos como especialistas em fazer promessas que raramente cumprem). Quanto mais nao seja porque, findos os quatro anos da legislatura instituida por estas eleicoes, tal partido desrespeitador e instituicoes incumpridoras correm o risco de virem a ser penalizados pelo mesmo povo que agora neles votou. Tao simples quanto isso.

3. E esse talvez seja o unico elemento ‘simples’ do processo democratico. Porque tudo o resto, e em particular os julgamentos da capacidade do povo exercer o seu direito de voto e atraves dele expressar a sua vontade de forma lucida, responsavel e racional, e’ deveras complicado e, no limite, pode ate’ revelar-se um exercicio absurdo. Sim, e’ um absurdo considerar-se que a maioria de todo um povo, atraves de mais de 80% dos votos validos expressos, toma decisoes sobre a sua propria vida quotidiana e o seu proprio futuro apenas com base em emocoes. Mais do que isso: revela um profundo desprezo pelo povo e a mais basica falta de sentido democratico.

4. Efectivamente, apenas um certo raciocinio totalitario e’ capaz de concluir facilmente que se a maioria nao vota naquele(s) que se auto-considera(m) o(s) melhor(es) e’ porque e’ “irracional” ou “nao sabe o que e’ bom para si propria”… E quando as vozes que assim se expressam sao afectas a forcas politicas perdedoras nas urnas, entao elas tornam-se particularmente perturbadoras, porque demonstram que tais forcas nao so’ nao mereceram desta vez a maioria dos votos, como muito provavelmente tambem nao a merecerao no futuro, por nao terem sabido respeitar a vontade popular e, acima de tudo, por evidenciarem assim uma preocupante e imatura incapacidade de aprenderem com os seus proprios erros e de os corrigirem. Quando se diz, como numa dessas colunas, que “o povo esta’ cansado de verdades, so’ quer promessas”, quem e’ que se julga detentor de uma qualquer “verdade” em nome do povo? Quem e’ que se considera no direito de julgar o povo pelas promessas em que decide acreditar ou nao?

5. Muito se tem feito das irregularidades verificadas durante a campanha e durante o proprio acto eleitoral. Mas tudo parece indicar, quer pelas avaliacoes dos observadores nacionais e internacionais, quer pela aceitacao pela generalidade da oposicao dos resultados eleitorais, que tais irregularidades nao foram de monta suficiente para invalidarem ou descridibilizarem o processo eleitoral no seu todo. Muito se tem feito tambem da disparidade de meios materiais, financeiros e mediaticos entre o partido no poder e os partidos da oposicao. Eu propria a mencionei aqui como um factor importante na formacao das decisoes de voto. Mas tera’ ela sido determinante dessas decisoes a uma taxa superior a 80%, num pais com uma, embora ainda de circulacao restrita fora da capital, imprensa privada e tendencialmente independente, uma esclarecida e expressiva sociedade civil, uma cada vez maior expansao da internet e de redes televisivas internacionais e, nao menos importante, um fenomeno que em todas as sociedades se revela invariavelmente um poderosissimo formador de opiniao: um numero significativo de artistas populares, com destaque para musicos e poetas, difundindo ao longo dos anos por todo o pais mensagens de contestacao politica e reivindicacao social? Nao me parece.

6. E’ um facto inegavel que a educacao civica para o exercicio da democracia ainda e’ bastante precaria no nosso pais. O proprio conceito de democracia e’ ainda uma relativa novidade para a maioria dos cidadaos Angolanos e a sua pratica efectiva uma completa novidade para todo o pais. Mas o que as vozes criticas da capacidade de decisao do povo revelam e’ que nao e’ apenas o povo que ainda carece dessa educacao, mas todo o pais e particularmente os donos de tais vozes. Porque uma coisa e’ admitir-se, como o fiz aqui, que o grau de sofrimento, brutalizacao e traumatizacao a que grande parte do povo Angolano foi sujeito ao longo nao apenas das ultimas decadas, mas de seculos, teve impactos materiais, psicologicos e espirituais consideraveis nas suas vidas e tende a fazer aumentar a sua desconfianca em relacao a forcas politicas ainda nao testadas no exercicio governativo, outra coisa e’ considera-lo por isso incapaz de tomar, particularmente se atraves do voto individual e secreto, decisoes logicas e racionais (note-se que a logica e a razao nao sao atributos exclusivos da erudicao e do bem-estar, objectiva ou subjectivamente considerados).

7. Senao vejamos: e’ emocional e imaturo um povo que vem gerindo a sua vida e garantindo a sua sobrevivencia ao longo de decadas, sem qualquer rede de apoio social por parte do estado? Que produz uma das economias informais mais funcionais e eficientes do mundo? Que cria um mercado que, como o Roque Santeiro, apesar de tambem funcionar como um viveiro de marginalidade e insalubridade, no essencial consegue ser o principal, senao unico para a maioria da populacao da capital e nao so’, determinante dos sistemas de rendimentos e precos, incluindo das taxas de cambio, durante decadas? Que produz resilientes zungueiras, kinguilas, kandongueiros e roboteiros, em vez de simplesmente alimentar as estatisticas do desemprego e engrossar as esquinas e largos da mendicidade? Que tanto quanto ve as suas precarias habitacoes demolidas, se demonstra capaz de as reconstruir, e’ certo que na generalidade dos casos de forma anarquica, mas tambem de forma razoavelmente planificada e organizada? Sera’ crivel que tal povo, tendo obtido, depois de quase duas decadas sem essa possibilidade, a oportunidade de escolher quem julga capaz de lhe conceder e a quem julga dever exigir, sob pena de o penalizar nas urnas daqui a quatro anos, a tal rede social de apoio de que se viu privado ao longo das decadas em que esteve praticamente entregue a si proprio e aos seus proprios recursos para sobreviver, faca tal escolha irracionalmente? Nao creio.

8. E sejamos tambem claros em relacao a um ponto essencial: o que esta’ em jogo em quaisquer eleicoes gerais, em qualquer parte do mundo, mesmo nas sociedades mais desenvolvidas e com elevada maturidade democratica, sao as necessidades basicas e primarias da maioria da populacao, isto e’, o emprego, a saude, a alimentacao, a habitacao, a educacao e a seguranca social. E’ tanto assim nas actuais eleicoes presidenciais Americanas (no caso destas, apesar da guerra no Iraque constituir um factor de decisao eleitoral de primeira ordem), como o foi nas recentes eleicoes gerais Zimbabweanas (no caso destas, apesar de questoes de ordem historica e racial constituirem tambem factores de decisao eleitoral de primeira ordem). E sao apenas os relativos deficits de satisfacao dessas necessidades basicas, consoante o nivel de desenvolvimento de cada sociedade, que determinam o seu peso relativo em relacao a questoes e necessidades de ordem mais secundaria, ou terciaria, nas decisoes de voto. [*]

9. Assim, quanto maiores forem as necessidades basicas numa determinada sociedade e quanto maiores forem os segmentos populacionais afectados por tais necessidades, maior sera’ a tendencia para uma convergencia das decisoes de voto em direccao a partidos que nao representem apenas, ou primordialmente, interesses e necessidades minoritarios, por mais legitimos que esses sejam. E nao ha’ nada de irracional nisso. Antes pelo contrario, o inverso se-lo-ia: nomeadamente se, em vez de decidir priorizar proactivamente a satisfacao das suas necessidades objectivas mais prementes, a maioria decidisse, como alguns parecem ter esperado, priorizar a penalizacao retroactiva dos detentores do poder pelos seus erros e falhas do passado, mesmo que as forcas politicas alternativas nao lhe oferecam grandes garantias de que nao iriam incorrer nos mesmos erros e falhas ou noutros piores ainda – isso sim, seria uma decisao emocional, imatura e irracional. Mais: nao e’ ao povo que cabe, em detrimento da sua propria vontade e das suas necessidades objectivas, assegurar atraves do voto a diversidade ou a alteridade do sistema politico. Em democracia, e’ aos partidos que cabe essa responsabilidade (ate' porque para isso sao pagos atraves do erario publico, isto e', com o dinheiro do povo) na exacta medida em que se saibam organizar, apresentar e projectar, madura, racional e logicamente, como merecedores do voto popular.

10. Em geito de conclusao, cito de uma das colunas que tenho vindo a comentar: “Depois de ter ouvido uma senhora expressar-se relativamente ao processo de campanha com a seguinte frase: "o povo está cansado de verdades,...só quer promessas". Acrescentando que este trocadilho estava a correr pela cidade, eu reflicto sobre ele aqui porque interpretei-o como um reflexo de um mecanismo de defesa psicológico de negação da realidade que acontece muitas vezes em seres humanos imaturos ou que tenham experimentado grande dor ou sofrimento. A tendência a negar sensações dolorosas é tão antiga quanto o próprio sentimento de dor. Em psicologia dizemos que a capacidade de negar pares desagradáveis da realidade é a contrapartida da "realização alucinatória dos desejos", neste sentido, as promessas poderão ser interpretadas como sendo os desejos concretizados.”
Nao sera’ mais realista e factual o caso de algumas vozes afectas a partidos perdedores nestas eleicoes estarem agora, com o argumento da “imaturidade e emotividade dos eleitores”, a reflectir um mecanismo de defesa psicológico de negação da realidade que acontece muitas vezes em seres humanos imaturos ou que tenham experimentado grande dor ou sofrimento? Nao estarao elas precisamente a manifestar uma tendencia a negar sensações dolorosas, nomeadamente a da derrota eleitoral? Nao estarao elas a revelar exactamente uma capacidade de negar pares desagradáveis da realidade, nomeadamente a perspectiva de extincao de alguns desses partidos devido aos seus resultados eleitorais quase nulos, em grande medida por alguns deles se terem sobrevalorizado a si proprios e subestimado outros e a dada altura terem tomado a sua propria auto-avaliacao como sendo os seus desejos concretizados, sendo por isso a sua reaccao a realidade dos resultados eleitorais efectivos a contrapartida da realização alucinatória dos seus desejos?
Sejamos, pois, todos tao maduros e racionais como o povo sempre soube ser: respeite-mo-lo e as suas decisoes, por muito que elas desagradem a uns ou a outros, porque ele e’ o unico soberano em democracia!



[*] P.S.: Veja-se o que afirmou Barack Obama, mais de um ano depois destas consideracoes terem sido aqui tecidas, a este proposito:

In the last several election cycles, there has been a much stronger tendency for women to vote around bread and butter issues. It has to do with the fact that they're the ones balancing the budgets and trying to figure out how to make enough money - keep food on the table. One of the things that Michelle and I always talk about is that I have no idea how to buy clothes for my girls. I don't know what they cost. And that's probably not untypical. So that's something that Michelle has to think about and budget for. What that means, then, is that the issues of the economy are ones that women are going to particularly feel and be concerned about.

[Referencia daqui]

Friday, 12 September 2008

BHEKI MSELEKU (R.I.P.)




Acabo de saber, com enorme consternacao, do falecimento do musico Sul-Africano Bheki Mseleku, ontem, aqui em Londres. Os visitantes mais atentos deste blog terao reparado que tenho tido uma das suas obras, que considero magistral, entitulada Angola, a tocar aqui durante as ultimas duas semanas... Nao sei o que isso significa na chamada "ordem geral das coisas", mas espero que o tenha ajudado a partir em paz.

[Mais Detalhes Aqui]


Angola - Bheki Mseleku

Tuesday, 9 September 2008

RESULTADOS DAS LEGISLATIVAS: VOTO DE CONFIANCA NA SITUACAO, OU DE DESCONFIANCA NA OPOSICAO?

1. Antes de mais, tenho que registar aqui o meu profundo suspiro de alivio por estas eleicoes nao terem descambado em violencia descontrolada, nem em interminaveis disputas quanto a sua credibilidade, apesar das admitidas insuficiencias e irregularidades pontuais que se verificaram e a que varios observadores internacionais aludiram (lamentando apenas que tais contratempos, nao tendo posto em causa a validade do processo eleitoral no seu todo, puseram de certo modo em causa a afirmacao do Presidente no discurso de abertura da campanha eleitoral, segundo a qual “Angola pode dar um exemplo ao nosso continente e ao mundo em geral, sobre a forma de realizar eleições democráticas, livres e transparentes”): UUUFFFFFFFFFFFF!!!!!!!!!!

2. Tendo suspirado a contento, deixem-me agora falar do meu descontentamento perante os resultados que se teem vindo a desfraldar nas ultimas horas. Descontentamento porque? Porque, nao sendo militante nem simpatizante de nenhum partido, esperava, e desejava, um maior equilibrio dos resultados, senao exclusivamente entre o MPLA e a UNITA, pelo menos entre o partido da situacao e o total da oposicao. Ora, pelos resultados provisorios, que nada deixa prever se venham a alterar significativamente ate’ que a contagem final seja divulgada e homologada, estes revelam uma esmagadora victoria do partido da situacao e um virtual eclipse da oposicao – um resultado muito pior para esta do que o que tera’ obtido em 1992, particularmente no que a UNITA diz respeito.

3. Varios terao sido os factores determinantes de tais resultados, dos quais alguns se apresentam de imediata identificacao: i) a vantagem comparativa do MPLA em termos de meios materiais e financeiros, controlo da imprensa estatal e dos circulos de influencia a varios niveis do poder e a manipulacao do processo eleitoral que tal vantagem lhe tera’ possibilitado; ii) a falta de coerencia do(s) discurso(s) da oposicao, nao so’ devido a multiplicidade de partidos – a qual apenas foi mitigada a poucas semanas do acto eleitoral, quando o recem-constituido Tribunal Constitucional os passou a pente fino e aprovou apenas 14 dos potenciais concorrentes –, mas tambem, e sobretudo, devido a falta de coerencia interna desses partidos: praticamente todos registaram nos ultimos anos episodios de dissencao e cisao, com especial relevo para os dezasseis “deputados renegados” da UNITA e as fissuras nela criadas pelo (des)posicionamento partidario de lideres como Chivukuvuku ou Valentim; iii) o factor ‘experiencia’ (indisputavel?) por parte dos detentores do poder ha’ mais de 30 anos, aliado ao factor ‘habituacao’ de um eleitorado que tera’ decidido preferir “o diabo que ja’ conhece”.

4. Entre a oposicao, pelo menos um partido tera’ escapado a imagem geral de falta de coesao interna, disputas pela lideranca e (quase?) exclusiva preocupacao com as benesses materiais e financeiras do poder, que caracterizou nao poucos dos seus companheiros da oposicao durante a longa travessia no deserto desde as legislativas de 1992: a Frente para a Democracia (FpD). Mas se essa tera’ sido a sua bendicao, tambem tera’ sido a sua maldicao. Porque? Porque, dadas as expectativas que gerou, em particular entre a elite urbana de Luanda, e a forma como ela propria se projectou nos ultimos tempos como “terceira forca” ou “partido charneira”, a FpD surge como a grande derrotada destas eleicoes, pelo menos a julgar pelos resultados ate’ agora divulgados (em decimo lugar no momento em que escrevo). Ora, esta particular “derrota” da FpD leva-me a tecer algumas consideracoes sobre o que realmente esteve em causa nestas eleicoes.

5. Antes de entrar propriamente em tais consideracoes (que, por imposicoes do timing e da distancia em que as teco, serao necessariamente tao provisorias quanto os resultados das eleicoes divulgados ate’ agora)* importa olhar um pouco mais atentamente para quem votou nestas legislativas. Foram os Angolanos (ou parte deles residentes no pais). E quem sao os Angolanos? Em tracos gerais, nunca e’ demais nota-lo, sao um povo que foi colonizado pelo pais menos desenvolvido da Europa Ocidental durante boa parte dos ultimos 5 seculos, que lutou (ou pelo menos parte dele) pela obtencao da sua independencia politica durante boa parte dos ultimos 50 anos, que se viu envolvido numa guerra fratricida, alimentada parcialmente por potencias estrangeiras, e em particular pelos protagonistas da Guerra Fria, durante boa parte dos ultimos 30 anos e que foi agora pela primeira vez as urnas 16 anos depois de umas eleicoes inconclusivas e com resultados desastrosos. Em suma, para la’ da exuberancia e do ‘bravado’ que os nossos brilharetes evidenciam – nos campos de futebol e de basquetebol, nas pistas de danca e, mais recentemente, nas exibicoes novo-riquistas dos novos edificios e aquisicoes materiais e nas estatisticas resultantes do output dos nossos pocos de petroleo –, um povo brutalizado e traumatizado por toda a sorte de violencias e adversidades, as quais tiveram profundos impactos materiais, psicologicos e espirituais nas suas vidas quotidianas e na forma como tendem a perspectivar o seu futuro. Impactos esses que, embora se pretendam disfarcar por tras do tal ‘bravado’ e exuberancia, se revelam amiude na inseguranca, frequentemente mascarada de arrogancia (que, a par de uma doentia subserviencia a tudo quanto seja estrangeiro, particularmente se europeu ou brasileiro, quantas vezes se traduz na mais flagrante falta de solidariedade, cortesia e respeito mutuo entre compatriotas e em varios graus de complexos de inferioridade e/ou de superioridade que invariavelmente conduzem a accoes destrutivas ‘do outro’, particularmente se tal 'outro' nao detem uma posicao qualquer de poder na sociedade local ou, seja por que razao for, seja parte da Diaspora, espelhando ainda uma certa psicose de guerra fratricida permanente…), com que os Angolanos em geral, desde as chamadas “massas populares” as chamadas "elites", de esquerda ou de direita, se comportam na sua vida social aos mais diversos niveis e exercem as suas escolhas, desde as mais triviais, as mais importantes e decisivas como, neste caso, as eleicoes.

6. Foi, pois, esse povo que produziu os resultados eleitorais que temos observado nas ultimas horas. Foi um povo, qual “Teresa Baptista” de Jorge Amado, cansado de guerra; um povo em busca de seguranca e da concretizacao, de forma observavel, de aspiracoes e necessidades materiais, psicologicas e espirituais imediatas e nao de promessas longinquas e impalpaveis; um povo que, como notei acima, parece ter preferido escolher, entre varios possiveis, “o diabo que ja’ conhece”. Poe-se, entao, uma dupla questao incontornavel: onde e’ que o MPLA foi buscar tanta credibilidade para ser julgado capaz de conceder seguranca, mitigar carencias, concretizar aspiracoes e satisfazer necessidades que, quanto muito, apenas tera’ contribuido para agravar durante a maior parte dos ultimos 30 anos e porque que a oposicao, em face de tais carencias, necessidades e aspiracoes nao foi capaz de as capitalizar em seu favor?

7. Responder cabalmente a tal questao e’ um desafio de alta ordem que, contudo, creio poder ser simplificado ao essencial e reduzido a algumas constatacoes basicas: i) mais do que tudo, a maioria do eleitorado tera’ priorizado, entre as suas expectativas e aspiracoes, a necessidade de estabilidade politica e normalizacao institucional no pais, antes de apostar decididamente na mudanca do status-quo; ii) o partido da situacao tera’ sabido capitalizar a sua experiencia de decadas no poder, reforcando-a em vesperas de eleicoes com uma profusao de inauguracoes de novos empreendimentos imobiliarios e infrastruturais e promessas (crediveis?) de os multiplicar nos proximos anos; iii) a oposicao nao esteve a altura nem das expectativas e aspiracoes da grande maioria do eleitorado, nem do challenge do partido da situacao (e aqui ha’ que notar que, se JES se afirmou e se comportou como um “decimo segundo jogador em campo marcando golos fora de jogo” ou como “um treinador ou arbitro que entra em campo para marcar o penalty decisivo a favor de uma das equipas”, nada faria supor de antemao que a sua entrada em campo viria a revelar-se necessariamente uma vantagem para a sua equipa e… tudo parece indicar que ainda nao apareceu entre os lideres da oposicao um challenger capaz de o por definitivamente fora de campo – mas isso e’ uma conversa mais la’ para o proximo ano).

8. Em particular, a FpD parece nao ter conseguido destrincar, aos olhos de grande parte do eleitorado, aquela fine line que separa um “partido com um numero significativo de intelectuais” de um “partido elitista”. Isto e’, embora se tenha multiplicado em discursos mobilizadores da sociedade civil e em accoes de solidariedade para com alguns dos segmentos populacionais mais vitimizados pelo poder (desde os contestatarios de Cabinda, aos desalojados da Boavista, passando pela Diaspora impedida de votar), tera’ desconseguido engajar completa e decisivamente quer a sociedade civil (muito provavelmente por significativos sectores desta ainda se considerarem membros da “grande familia”), quer “as massas populares” de que tantas vezes se tem manifestado como porta-voz (as quais, muito provavelmente lhes terao agradecido a simpatia e o apoio, mas nao passaram por isso a identificar-se com eles ao ponto de votar neles), quer a generalidade dos "diasporenses" (no caso destes, fundamentalmente, por, para la' de ter tentado obter dividendos politicos dos seus varios descontentamentos, pouco ou nada ter avancado no sentido de propor solucoes viaveis para um dos seus maiores anseios: o regresso a patria, com dignidade). Tera’ tambem, apesar de nao se ter rogado, durante a campanha, a fazer amplo alarde do peso dos seus intelectuais, falhado em desbancar, com argumentos suficientemente crediveis, inteligiveis e incontestaveis, o grande trunfo do partido no poder: o real crescimento do PIB e a alegada “estabilidade macro-economica” observados nos ultimos anos e que “apenas a sua equipa economica supostamente sera’ capaz de continuar a proporcionar ao pais”. Tendo sido tal falha tambem devida, em grande medida, a gritante falta de cultura do debate que caracteriza a sociedade angolana em geral, a qual, por sua vez, tem muito a ver com a inseguranca de que falo acima.

9. Nao menos importante, pelo que pude observar, nao so’ do acompanhamento que tenho feito ao longo dos anos, como dos ecos que me foram chegando do terreno ao longo desta campanha e de alguns dos seus posicionamentos registados na blogosfera, a FpD, tal como alguns dos varios grupos de elite que ao longo da historia do MPLA dele se desafectaram por uma razao ou por outra, evidenciou uma caracteristica que tem marcado geralmente alguns desses grupos: um radicalismo (embora raramente assumido abertamente) dito “de esquerda” em termos politico-ideologicos e de ideais economicos, associado a um conservadorismo marcadamente “de direita” e, no limite, de matizes a rocar o puro reaccionarismo (quando nao o mais despudorado neocolonialismo e racismo - em exacta equivalencia ao dito "endocolonialismo" de que alguns acusam o partido no poder), em termos socio-culturais. So’ para dar um exemplo, um dos claims que fez a saciedade durante a campanha foi a sua “preocupacao com as questoes do genero”. No entanto, nao me dei conta, quer em termos de propostas concretas de politica, quer em termos de demonstracoes praticas, de uma particular sensibilidade desse partido em relacao a tais questoes. Em suma, a FpD, salvaguardados todos os seus indiscutiveis meritos relativos, parece ser um partido ainda em busca de um equilibrio satisfatorio entre o populismo e o programatismo, o dogmatismo e o pragmatismo, a retorica politica e a formulacao de politicas, a teoria e a pratica, enfim, entre o ideal e o real. E essa, quanto a mim, a razao fundamental para a sua “derrota” relativa, enquanto partido oposicionista mais promissor ate’ as vesperas destas eleicoes.

10. Do que vai dito resta-me uma consolacao: se a real expressao politica actual dos varios partidos da oposicao e’ a que os resultados destas legislativas revelam (e nunca e’ demais repeti-lo: apesar de todas as “trafulhas” que o partido da situacao possa ter feito para garantir a sua victoria, nada garantiria ou deixaria prever uma victoria tao retumbante como a que se vem desenhando desde o inicio da contagem dos votos), entao e’ bom que eles se mantenham na oposicao por pelo menos os proximos quatro anos, assumindo que terao a necessaria maturidade como partidos e responsabilidade como Angolanos para desses resultados retirarem as devidas licoes e ilacoes e nao cometerem os mesmos erros na caminhada para as proximas legislativas. Porque restam-me poucas duvidas de que estes resultados, mais do que um voto de confianca na situacao, revelam um voto de desconfianca na oposicao!

*As consideracoes aqui feitas deixaram de ser 'provisorias' quando, no dia 17/09/08, a CNE publicou os resultados definitivos das eleicoes que, como previa, nao revelaram alteracoes significativas relativamente aos conhecidos no momento em que as teci.
1. Antes de mais, tenho que registar aqui o meu profundo suspiro de alivio por estas eleicoes nao terem descambado em violencia descontrolada, nem em interminaveis disputas quanto a sua credibilidade, apesar das admitidas insuficiencias e irregularidades pontuais que se verificaram e a que varios observadores internacionais aludiram (lamentando apenas que tais contratempos, nao tendo posto em causa a validade do processo eleitoral no seu todo, puseram de certo modo em causa a afirmacao do Presidente no discurso de abertura da campanha eleitoral, segundo a qual “Angola pode dar um exemplo ao nosso continente e ao mundo em geral, sobre a forma de realizar eleições democráticas, livres e transparentes”): UUUFFFFFFFFFFFF!!!!!!!!!!

2. Tendo suspirado a contento, deixem-me agora falar do meu descontentamento perante os resultados que se teem vindo a desfraldar nas ultimas horas. Descontentamento porque? Porque, nao sendo militante nem simpatizante de nenhum partido, esperava, e desejava, um maior equilibrio dos resultados, senao exclusivamente entre o MPLA e a UNITA, pelo menos entre o partido da situacao e o total da oposicao. Ora, pelos resultados provisorios, que nada deixa prever se venham a alterar significativamente ate’ que a contagem final seja divulgada e homologada, estes revelam uma esmagadora victoria do partido da situacao e um virtual eclipse da oposicao – um resultado muito pior para esta do que o que tera’ obtido em 1992, particularmente no que a UNITA diz respeito.

3. Varios terao sido os factores determinantes de tais resultados, dos quais alguns se apresentam de imediata identificacao: i) a vantagem comparativa do MPLA em termos de meios materiais e financeiros, controlo da imprensa estatal e dos circulos de influencia a varios niveis do poder e a manipulacao do processo eleitoral que tal vantagem lhe tera’ possibilitado; ii) a falta de coerencia do(s) discurso(s) da oposicao, nao so’ devido a multiplicidade de partidos – a qual apenas foi mitigada a poucas semanas do acto eleitoral, quando o recem-constituido Tribunal Constitucional os passou a pente fino e aprovou apenas 14 dos potenciais concorrentes –, mas tambem, e sobretudo, devido a falta de coerencia interna desses partidos: praticamente todos registaram nos ultimos anos episodios de dissencao e cisao, com especial relevo para os dezasseis “deputados renegados” da UNITA e as fissuras nela criadas pelo (des)posicionamento partidario de lideres como Chivukuvuku ou Valentim; iii) o factor ‘experiencia’ (indisputavel?) por parte dos detentores do poder ha’ mais de 30 anos, aliado ao factor ‘habituacao’ de um eleitorado que tera’ decidido preferir “o diabo que ja’ conhece”.

4. Entre a oposicao, pelo menos um partido tera’ escapado a imagem geral de falta de coesao interna, disputas pela lideranca e (quase?) exclusiva preocupacao com as benesses materiais e financeiras do poder, que caracterizou nao poucos dos seus companheiros da oposicao durante a longa travessia no deserto desde as legislativas de 1992: a Frente para a Democracia (FpD). Mas se essa tera’ sido a sua bendicao, tambem tera’ sido a sua maldicao. Porque? Porque, dadas as expectativas que gerou, em particular entre a elite urbana de Luanda, e a forma como ela propria se projectou nos ultimos tempos como “terceira forca” ou “partido charneira”, a FpD surge como a grande derrotada destas eleicoes, pelo menos a julgar pelos resultados ate’ agora divulgados (em decimo lugar no momento em que escrevo). Ora, esta particular “derrota” da FpD leva-me a tecer algumas consideracoes sobre o que realmente esteve em causa nestas eleicoes.

5. Antes de entrar propriamente em tais consideracoes (que, por imposicoes do timing e da distancia em que as teco, serao necessariamente tao provisorias quanto os resultados das eleicoes divulgados ate’ agora)* importa olhar um pouco mais atentamente para quem votou nestas legislativas. Foram os Angolanos (ou parte deles residentes no pais). E quem sao os Angolanos? Em tracos gerais, nunca e’ demais nota-lo, sao um povo que foi colonizado pelo pais menos desenvolvido da Europa Ocidental durante boa parte dos ultimos 5 seculos, que lutou (ou pelo menos parte dele) pela obtencao da sua independencia politica durante boa parte dos ultimos 50 anos, que se viu envolvido numa guerra fratricida, alimentada parcialmente por potencias estrangeiras, e em particular pelos protagonistas da Guerra Fria, durante boa parte dos ultimos 30 anos e que foi agora pela primeira vez as urnas 16 anos depois de umas eleicoes inconclusivas e com resultados desastrosos. Em suma, para la’ da exuberancia e do ‘bravado’ que os nossos brilharetes evidenciam – nos campos de futebol e de basquetebol, nas pistas de danca e, mais recentemente, nas exibicoes novo-riquistas dos novos edificios e aquisicoes materiais e nas estatisticas resultantes do output dos nossos pocos de petroleo –, um povo brutalizado e traumatizado por toda a sorte de violencias e adversidades, as quais tiveram profundos impactos materiais, psicologicos e espirituais nas suas vidas quotidianas e na forma como tendem a perspectivar o seu futuro. Impactos esses que, embora se pretendam disfarcar por tras do tal ‘bravado’ e exuberancia, se revelam amiude na inseguranca, frequentemente mascarada de arrogancia (que, a par de uma doentia subserviencia a tudo quanto seja estrangeiro, particularmente se europeu ou brasileiro, quantas vezes se traduz na mais flagrante falta de solidariedade, cortesia e respeito mutuo entre compatriotas e em varios graus de complexos de inferioridade e/ou de superioridade que invariavelmente conduzem a accoes destrutivas ‘do outro’, particularmente se tal 'outro' nao detem uma posicao qualquer de poder na sociedade local ou, seja por que razao for, seja parte da Diaspora, espelhando ainda uma certa psicose de guerra fratricida permanente…), com que os Angolanos em geral, desde as chamadas “massas populares” as chamadas "elites", de esquerda ou de direita, se comportam na sua vida social aos mais diversos niveis e exercem as suas escolhas, desde as mais triviais, as mais importantes e decisivas como, neste caso, as eleicoes.

6. Foi, pois, esse povo que produziu os resultados eleitorais que temos observado nas ultimas horas. Foi um povo, qual “Teresa Baptista” de Jorge Amado, cansado de guerra; um povo em busca de seguranca e da concretizacao, de forma observavel, de aspiracoes e necessidades materiais, psicologicas e espirituais imediatas e nao de promessas longinquas e impalpaveis; um povo que, como notei acima, parece ter preferido escolher, entre varios possiveis, “o diabo que ja’ conhece”. Poe-se, entao, uma dupla questao incontornavel: onde e’ que o MPLA foi buscar tanta credibilidade para ser julgado capaz de conceder seguranca, mitigar carencias, concretizar aspiracoes e satisfazer necessidades que, quanto muito, apenas tera’ contribuido para agravar durante a maior parte dos ultimos 30 anos e porque que a oposicao, em face de tais carencias, necessidades e aspiracoes nao foi capaz de as capitalizar em seu favor?

7. Responder cabalmente a tal questao e’ um desafio de alta ordem que, contudo, creio poder ser simplificado ao essencial e reduzido a algumas constatacoes basicas: i) mais do que tudo, a maioria do eleitorado tera’ priorizado, entre as suas expectativas e aspiracoes, a necessidade de estabilidade politica e normalizacao institucional no pais, antes de apostar decididamente na mudanca do status-quo; ii) o partido da situacao tera’ sabido capitalizar a sua experiencia de decadas no poder, reforcando-a em vesperas de eleicoes com uma profusao de inauguracoes de novos empreendimentos imobiliarios e infrastruturais e promessas (crediveis?) de os multiplicar nos proximos anos; iii) a oposicao nao esteve a altura nem das expectativas e aspiracoes da grande maioria do eleitorado, nem do challenge do partido da situacao (e aqui ha’ que notar que, se JES se afirmou e se comportou como um “decimo segundo jogador em campo marcando golos fora de jogo” ou como “um treinador ou arbitro que entra em campo para marcar o penalty decisivo a favor de uma das equipas”, nada faria supor de antemao que a sua entrada em campo viria a revelar-se necessariamente uma vantagem para a sua equipa e… tudo parece indicar que ainda nao apareceu entre os lideres da oposicao um challenger capaz de o por definitivamente fora de campo – mas isso e’ uma conversa mais la’ para o proximo ano).

8. Em particular, a FpD parece nao ter conseguido destrincar, aos olhos de grande parte do eleitorado, aquela fine line que separa um “partido com um numero significativo de intelectuais” de um “partido elitista”. Isto e’, embora se tenha multiplicado em discursos mobilizadores da sociedade civil e em accoes de solidariedade para com alguns dos segmentos populacionais mais vitimizados pelo poder (desde os contestatarios de Cabinda, aos desalojados da Boavista, passando pela Diaspora impedida de votar), tera’ desconseguido engajar completa e decisivamente quer a sociedade civil (muito provavelmente por significativos sectores desta ainda se considerarem membros da “grande familia”), quer “as massas populares” de que tantas vezes se tem manifestado como porta-voz (as quais, muito provavelmente lhes terao agradecido a simpatia e o apoio, mas nao passaram por isso a identificar-se com eles ao ponto de votar neles), quer a generalidade dos "diasporenses" (no caso destes, fundamentalmente, por, para la' de ter tentado obter dividendos politicos dos seus varios descontentamentos, pouco ou nada ter avancado no sentido de propor solucoes viaveis para um dos seus maiores anseios: o regresso a patria, com dignidade). Tera’ tambem, apesar de nao se ter rogado, durante a campanha, a fazer amplo alarde do peso dos seus intelectuais, falhado em desbancar, com argumentos suficientemente crediveis, inteligiveis e incontestaveis, o grande trunfo do partido no poder: o real crescimento do PIB e a alegada “estabilidade macro-economica” observados nos ultimos anos e que “apenas a sua equipa economica supostamente sera’ capaz de continuar a proporcionar ao pais”. Tendo sido tal falha tambem devida, em grande medida, a gritante falta de cultura do debate que caracteriza a sociedade angolana em geral, a qual, por sua vez, tem muito a ver com a inseguranca de que falo acima.

9. Nao menos importante, pelo que pude observar, nao so’ do acompanhamento que tenho feito ao longo dos anos, como dos ecos que me foram chegando do terreno ao longo desta campanha e de alguns dos seus posicionamentos registados na blogosfera, a FpD, tal como alguns dos varios grupos de elite que ao longo da historia do MPLA dele se desafectaram por uma razao ou por outra, evidenciou uma caracteristica que tem marcado geralmente alguns desses grupos: um radicalismo (embora raramente assumido abertamente) dito “de esquerda” em termos politico-ideologicos e de ideais economicos, associado a um conservadorismo marcadamente “de direita” e, no limite, de matizes a rocar o puro reaccionarismo (quando nao o mais despudorado neocolonialismo e racismo - em exacta equivalencia ao dito "endocolonialismo" de que alguns acusam o partido no poder), em termos socio-culturais. So’ para dar um exemplo, um dos claims que fez a saciedade durante a campanha foi a sua “preocupacao com as questoes do genero”. No entanto, nao me dei conta, quer em termos de propostas concretas de politica, quer em termos de demonstracoes praticas, de uma particular sensibilidade desse partido em relacao a tais questoes. Em suma, a FpD, salvaguardados todos os seus indiscutiveis meritos relativos, parece ser um partido ainda em busca de um equilibrio satisfatorio entre o populismo e o programatismo, o dogmatismo e o pragmatismo, a retorica politica e a formulacao de politicas, a teoria e a pratica, enfim, entre o ideal e o real. E essa, quanto a mim, a razao fundamental para a sua “derrota” relativa, enquanto partido oposicionista mais promissor ate’ as vesperas destas eleicoes.

10. Do que vai dito resta-me uma consolacao: se a real expressao politica actual dos varios partidos da oposicao e’ a que os resultados destas legislativas revelam (e nunca e’ demais repeti-lo: apesar de todas as “trafulhas” que o partido da situacao possa ter feito para garantir a sua victoria, nada garantiria ou deixaria prever uma victoria tao retumbante como a que se vem desenhando desde o inicio da contagem dos votos), entao e’ bom que eles se mantenham na oposicao por pelo menos os proximos quatro anos, assumindo que terao a necessaria maturidade como partidos e responsabilidade como Angolanos para desses resultados retirarem as devidas licoes e ilacoes e nao cometerem os mesmos erros na caminhada para as proximas legislativas. Porque restam-me poucas duvidas de que estes resultados, mais do que um voto de confianca na situacao, revelam um voto de desconfianca na oposicao!

*As consideracoes aqui feitas deixaram de ser 'provisorias' quando, no dia 17/09/08, a CNE publicou os resultados definitivos das eleicoes que, como previa, nao revelaram alteracoes significativas relativamente aos conhecidos no momento em que as teci.

Monday, 8 September 2008

ANGOLA ELECTIONS: EU OBSERVERS' PRELIMINARY REPORT

• Voting was conducted in a peaceful atmosphere around the country, although procedures were inconsistently applied, especially with regard to the voters’ lists, thus voiding some of the most important controls provided for in the law, and contravening international standards on election procedures. However, checking voter identity against the voter registration card, and marking voters’ fingers with indelible ink helped to protect against duplicate voting. The lack of control over the number of issued ballots as compared to the number of cast ballots caused difficulties during counting.

• Organizational problems affected the distribution of essential materials, especially in Luanda, causing a significant number of polling stations to open late, or not at all. To allow citizens the opportunity to vote, some affected polling stations in the capital were opened the following day, in accordance with the Election Law.

• Counting was conducted in a peaceful and transparent manner. Procedures were hampered in areas where the voters list had not been marked as polling station staff were unable to reconcile the number of ballots issued against the number of voters who had cast their ballot. However, there were only a few recorded complaints by political parties. The computerised tabulation of results at the central level is not open for monitoring by observers or party agents, although at the lower levels access has been mostly granted.

• The election campaign has been carried out in a calm and orderly manner, with only a few incidents which were addressed by the National Police in a timely and impartial manner. Freedoms of assembly and expression have been widely respected. However, the EU EOM observed imbalances which have served to benefit the ruling party, mainly with regard to access to state resources or active involvement of the provincial administration and traditional authorities in campaign activities.

• The National Election Commission (CNE) has endeavoured to ensure the fairness of the election process and to overcome difficulties in an impartial and practical fashion. However, this has led to flexible interpretations of the law and late decision-making, adding to confusion on Election Day. In addition, late and partial accreditation of observers has affected the transparency of the process.

• The legal framework in place for these elections provides a solid foundation for the conduct of genuine democratic elections in accordance with the Election Law and international standards on elections.

• Over 8.3 million citizens were registered on a highly inclusive voters list. However, many were not registered where they currently reside, and the voters list was distributed too late to be posted in most areas. Although various electronic means were used to inform people where to vote, these were insufficient and contributed to the problems experienced on Election Day. In addition, and contrary to the Election Law, Angolans living abroad were not registered to vote.

• The Constitutional Court led the candidate registration process in a competent and
impartial manner and in accordance with the Election Law.

• The state electronic media, including Televisão Pública de Angola (TPA) and Rádio
Nacional de Angola (RNA) abided by the Election Law, allocating equal free airtime (Tempo de Antena) on a daily basis to all electoral contestants, and contributed to encourage civic participation. However, TPA, RNA and state-owned Jornal de Angola provided coverage of the electoral campaign that was generally biased in favour of the ruling party. Unequal distribution of airtime and space to cover campaign activities, and the broadcasting of programs and news about Government inaugurations and development projects left opposition parties at a clear disadvantage vis-à-vis access to public media.

• In a positive step, six of the fourteen contesting parties included over 30% women
candidates in their lists. Gender representation was notably balanced amongst polling
station staff.

• The 2008 legislative elections have been the first in Angola with the presence of domestic observers. This represents an important step for Angolan civil society participation in the consolidation of the democratic process. However, problems in accrediting some domestic observers in Luanda left a gap in observation in the most densely populated area of the country.

• The election process is still ongoing and the EU EOM will continue to follow the tabulation of results and the election complaints and appeals process, including UNITA’s request for the annulment of the elections in Luanda. The EU EOM calls on all political stakeholders to adhere to the existing legal framework and to maintain the peaceful and democratic attitude displayed thus far during the electoral process.

[Full Report Here]
• Voting was conducted in a peaceful atmosphere around the country, although procedures were inconsistently applied, especially with regard to the voters’ lists, thus voiding some of the most important controls provided for in the law, and contravening international standards on election procedures. However, checking voter identity against the voter registration card, and marking voters’ fingers with indelible ink helped to protect against duplicate voting. The lack of control over the number of issued ballots as compared to the number of cast ballots caused difficulties during counting.

• Organizational problems affected the distribution of essential materials, especially in Luanda, causing a significant number of polling stations to open late, or not at all. To allow citizens the opportunity to vote, some affected polling stations in the capital were opened the following day, in accordance with the Election Law.

• Counting was conducted in a peaceful and transparent manner. Procedures were hampered in areas where the voters list had not been marked as polling station staff were unable to reconcile the number of ballots issued against the number of voters who had cast their ballot. However, there were only a few recorded complaints by political parties. The computerised tabulation of results at the central level is not open for monitoring by observers or party agents, although at the lower levels access has been mostly granted.

• The election campaign has been carried out in a calm and orderly manner, with only a few incidents which were addressed by the National Police in a timely and impartial manner. Freedoms of assembly and expression have been widely respected. However, the EU EOM observed imbalances which have served to benefit the ruling party, mainly with regard to access to state resources or active involvement of the provincial administration and traditional authorities in campaign activities.

• The National Election Commission (CNE) has endeavoured to ensure the fairness of the election process and to overcome difficulties in an impartial and practical fashion. However, this has led to flexible interpretations of the law and late decision-making, adding to confusion on Election Day. In addition, late and partial accreditation of observers has affected the transparency of the process.

• The legal framework in place for these elections provides a solid foundation for the conduct of genuine democratic elections in accordance with the Election Law and international standards on elections.

• Over 8.3 million citizens were registered on a highly inclusive voters list. However, many were not registered where they currently reside, and the voters list was distributed too late to be posted in most areas. Although various electronic means were used to inform people where to vote, these were insufficient and contributed to the problems experienced on Election Day. In addition, and contrary to the Election Law, Angolans living abroad were not registered to vote.

• The Constitutional Court led the candidate registration process in a competent and
impartial manner and in accordance with the Election Law.

• The state electronic media, including Televisão Pública de Angola (TPA) and Rádio
Nacional de Angola (RNA) abided by the Election Law, allocating equal free airtime (Tempo de Antena) on a daily basis to all electoral contestants, and contributed to encourage civic participation. However, TPA, RNA and state-owned Jornal de Angola provided coverage of the electoral campaign that was generally biased in favour of the ruling party. Unequal distribution of airtime and space to cover campaign activities, and the broadcasting of programs and news about Government inaugurations and development projects left opposition parties at a clear disadvantage vis-à-vis access to public media.

• In a positive step, six of the fourteen contesting parties included over 30% women
candidates in their lists. Gender representation was notably balanced amongst polling
station staff.

• The 2008 legislative elections have been the first in Angola with the presence of domestic observers. This represents an important step for Angolan civil society participation in the consolidation of the democratic process. However, problems in accrediting some domestic observers in Luanda left a gap in observation in the most densely populated area of the country.

• The election process is still ongoing and the EU EOM will continue to follow the tabulation of results and the election complaints and appeals process, including UNITA’s request for the annulment of the elections in Luanda. The EU EOM calls on all political stakeholders to adhere to the existing legal framework and to maintain the peaceful and democratic attitude displayed thus far during the electoral process.

[Full Report Here]

Sunday, 7 September 2008

ANGOLA: BRIEFS FROM THE ELECTION (3)

• The observing mission of the Pan-African Parliament declared the Angolan elections “generally free and fair” in spite of some observed “insufficiencies”. A similar assessment was made by the observers from the Community of Portuguese Speaking Countries (CPLP) who called the elections “free and transparent”. However, Portuguese observers are divided in their conclusions: while MEP Ana Gomes questions the process pointing to some failings in the electoral registrars and the non-accreditation of some organisations, another Portuguese observer, Jose’ Nobrega Ascenso, stated that “there were failings but they were not enough to question the entire election process.” Such divergences notwithstanding, the Portuguese government praised the “civic and tranquil” way in which the elections took place.

• Meanwhile, the CNE started to release some preliminary results at the national level. At midday Sunday, they looked like this: MPLA - 2.806.027 (81,67%), UNITA - 364.179 (10,60%), PRS - 102.353 (2,98%), ND - 39.122 (1,14%), PLD - 11.130 (0,32%), FNLA - 40.047 (1,17%), PAJOCA - 8.109 (0,24%), PDP-ANA - 17.668 (0,51%), AD Coligação - 9.442 (0,27%), PADEPA - 9.012 (0,26%), FpD - 8.686 (0,25%), PRD - 7.270 (0,21%), PPE - 6.197 (0,18%), FOFAC - 6.607 (0,19%).

• On his side, the leader of the opposition, Isaias Samakuva declared that “it’s not the right time to accept provisional results of these legislatives due to the lack of credibility of the electoral process.”

UPDATE (08 SEP 08)

• The CNE did not give legal provision to UNITA's impugnation submission on the grounds of "lack of elements of proof for its allegations."

• UNITA seems to have accepted CNE's decision, as its leader, Isaias Samakuva, congratulated the MPLA for its victory. Ngola Kabango, the leader of the FNLA (traditionally the third main party, now replaced by the PRS in that position) did the same.

• The head of the EU observers, Luisa Morgantini, declared the elections "transparent" and stated that her mission "will not invalidate the electoral process."

• The observing mission of the Pan-African Parliament declared the Angolan elections “generally free and fair” in spite of some observed “insufficiencies”. A similar assessment was made by the observers from the Community of Portuguese Speaking Countries (CPLP) who called the elections “free and transparent”. However, Portuguese observers are divided in their conclusions: while MEP Ana Gomes questions the process pointing to some failings in the electoral registrars and the non-accreditation of some organisations, another Portuguese observer, Jose’ Nobrega Ascenso, stated that “there were failings but they were not enough to question the entire election process.” Such divergences notwithstanding, the Portuguese government praised the “civic and tranquil” way in which the elections took place.

• Meanwhile, the CNE started to release some preliminary results at the national level. At midday Sunday, they looked like this: MPLA - 2.806.027 (81,67%), UNITA - 364.179 (10,60%), PRS - 102.353 (2,98%), ND - 39.122 (1,14%), PLD - 11.130 (0,32%), FNLA - 40.047 (1,17%), PAJOCA - 8.109 (0,24%), PDP-ANA - 17.668 (0,51%), AD Coligação - 9.442 (0,27%), PADEPA - 9.012 (0,26%), FpD - 8.686 (0,25%), PRD - 7.270 (0,21%), PPE - 6.197 (0,18%), FOFAC - 6.607 (0,19%).

• On his side, the leader of the opposition, Isaias Samakuva declared that “it’s not the right time to accept provisional results of these legislatives due to the lack of credibility of the electoral process.”

UPDATE (08 SEP 08)

• The CNE did not give legal provision to UNITA's impugnation submission on the grounds of "lack of elements of proof for its allegations."

• UNITA seems to have accepted CNE's decision, as its leader, Isaias Samakuva, congratulated the MPLA for its victory. Ngola Kabango, the leader of the FNLA (traditionally the third main party, now replaced by the PRS in that position) did the same.

• The head of the EU observers, Luisa Morgantini, declared the elections "transparent" and stated that her mission "will not invalidate the electoral process."

ONOFRE DOS SANTOS: “DO ESTADO DE ALMA AO ESTADO DE DIREITO”

O Semanário Angolense pede-me que partilhe com os seus leitores a minha experiência pessoal de há 16 anos. A dois dias das eleições, qual era o estado de espírito do Director Geral das Eleições? Como é que o País estava? Quantas assembleias de voto? O Director Geral antevia a hecatombe que depois se seguiu às eleições? Como tinha decorrido a campanha eleitoral? Quantos observadores nacionais e estrangeiros estavam credenciados?
(…)
O longo caminho entretanto percorrido foi adicionando acidentes de percurso ao processo de democratização, as perspectivas foram-se alterando como as pedras coloridas de um pequeno caleidoscópio criado como brinquedo para encantar crianças, mas que nos vai fazendo desejar formas mais ousadas e mais imaginativas de realização. Desde que as eleições de 2008 ficaram marcadas no horizonte político, participei como consultor das entidades que se empenharam desde os inícios de 2005 na efectivação do registo eleitoral que ficou concluído com assinalável êxito em meados de 2007 e actualizado ainda durante o corrente ano.

É certo que as primeiras eleições gerais tiveram um epílogo trágico que todos recordam, mas até esse desfecho foi uma lição de vida. Se temos hoje a Angola que temos muito se deve às lições aprendidas em 1992, com os erros por todos cometidos. Se os seus resultados estiveram na origem do retorno a guerra, foram também esses resultados que até hoje pautaram a vida política do País, conformaram o nosso Parlamento e o nosso Governo, reconhecido e legitimado como o foi no concerto de todas as nações do mundo.
(…)
O sentimento dominante era porém o de que seria impossível o retorno à violência armada, que o machado de guerra estava bem enterrado, todos fumavam o cachimbo da paz e até Deus era angolano e queria ser eleitor. O deslumbramento, o orgulho de ser angolano, a fé de que era agora que todos iriam colher os frutos doces da independência nacional eram, em grandes pinceladas, as cores que dominaram o quadro dessas primeiras eleições, tal como eu as via e ainda hoje recordo.

Hoje, em 2008, os principais partidos anunciaram já a constituição dos seus próprios centros de tabulação dos votos recolhidos e constantes das respectivas actas síntese. É uma boa iniciativa porque ela implica a responsabilidade de apresentação dos seus resultados e respectivos comprovativos, quando sejam diferentes dos que vierem a ser anunciados pela CNE. Em 1992, apesar das actas síntese e de a legislação neste aspecto ser em tudo idêntica, os resultados anunciados pela CNE foram contestados mas nunca foram confrontados com quaisquer resultados tabulados pelos partidos contestantes com base nas actas recolhidas pelos seus delegados de lista.
Em 1992 não se estava, contudo, a eleger apenas os Deputados mas também a eleger o Presidente da República. Este aspecto de as primeiras eleições serem duplas induziu outros factores de risco, elevando a aposta para uma luta eleitoral do tudo ou nada cujos resultados conhecemos. Não previ, porque não tenho dotes divinatórios, a «hecatombe» que se seguiu. Sempre acreditei no bom senso, nas segundas oportunidades.
(…)
Em 2008, o número de eleitores quase duplicou, a grande maioria dos actuais eleitores não votou nas eleições passadas. As circunstâncias que envolvem o actual processo são tão diferentes que não dá sequer para comparar. As grandes expectativas voltam a povoar os espíritos das pessoas e dos partidos. Vou votar no dia 5 como um cidadão que cumpre uma obrigação que se deverá tornar regular, e fá-lo-ei sem os estados de alma que me agitavam há dezasseis anos atrás. Com a sensação de que estaremos todos com esse gesto a contribuir para a consolidação do estado de direito.

[Aqui]
O Semanário Angolense pede-me que partilhe com os seus leitores a minha experiência pessoal de há 16 anos. A dois dias das eleições, qual era o estado de espírito do Director Geral das Eleições? Como é que o País estava? Quantas assembleias de voto? O Director Geral antevia a hecatombe que depois se seguiu às eleições? Como tinha decorrido a campanha eleitoral? Quantos observadores nacionais e estrangeiros estavam credenciados?
(…)
O longo caminho entretanto percorrido foi adicionando acidentes de percurso ao processo de democratização, as perspectivas foram-se alterando como as pedras coloridas de um pequeno caleidoscópio criado como brinquedo para encantar crianças, mas que nos vai fazendo desejar formas mais ousadas e mais imaginativas de realização. Desde que as eleições de 2008 ficaram marcadas no horizonte político, participei como consultor das entidades que se empenharam desde os inícios de 2005 na efectivação do registo eleitoral que ficou concluído com assinalável êxito em meados de 2007 e actualizado ainda durante o corrente ano.

É certo que as primeiras eleições gerais tiveram um epílogo trágico que todos recordam, mas até esse desfecho foi uma lição de vida. Se temos hoje a Angola que temos muito se deve às lições aprendidas em 1992, com os erros por todos cometidos. Se os seus resultados estiveram na origem do retorno a guerra, foram também esses resultados que até hoje pautaram a vida política do País, conformaram o nosso Parlamento e o nosso Governo, reconhecido e legitimado como o foi no concerto de todas as nações do mundo.
(…)
O sentimento dominante era porém o de que seria impossível o retorno à violência armada, que o machado de guerra estava bem enterrado, todos fumavam o cachimbo da paz e até Deus era angolano e queria ser eleitor. O deslumbramento, o orgulho de ser angolano, a fé de que era agora que todos iriam colher os frutos doces da independência nacional eram, em grandes pinceladas, as cores que dominaram o quadro dessas primeiras eleições, tal como eu as via e ainda hoje recordo.

Hoje, em 2008, os principais partidos anunciaram já a constituição dos seus próprios centros de tabulação dos votos recolhidos e constantes das respectivas actas síntese. É uma boa iniciativa porque ela implica a responsabilidade de apresentação dos seus resultados e respectivos comprovativos, quando sejam diferentes dos que vierem a ser anunciados pela CNE. Em 1992, apesar das actas síntese e de a legislação neste aspecto ser em tudo idêntica, os resultados anunciados pela CNE foram contestados mas nunca foram confrontados com quaisquer resultados tabulados pelos partidos contestantes com base nas actas recolhidas pelos seus delegados de lista.
Em 1992 não se estava, contudo, a eleger apenas os Deputados mas também a eleger o Presidente da República. Este aspecto de as primeiras eleições serem duplas induziu outros factores de risco, elevando a aposta para uma luta eleitoral do tudo ou nada cujos resultados conhecemos. Não previ, porque não tenho dotes divinatórios, a «hecatombe» que se seguiu. Sempre acreditei no bom senso, nas segundas oportunidades.
(…)
Em 2008, o número de eleitores quase duplicou, a grande maioria dos actuais eleitores não votou nas eleições passadas. As circunstâncias que envolvem o actual processo são tão diferentes que não dá sequer para comparar. As grandes expectativas voltam a povoar os espíritos das pessoas e dos partidos. Vou votar no dia 5 como um cidadão que cumpre uma obrigação que se deverá tornar regular, e fá-lo-ei sem os estados de alma que me agitavam há dezasseis anos atrás. Com a sensação de que estaremos todos com esse gesto a contribuir para a consolidação do estado de direito.

[Aqui]

Saturday, 6 September 2008

ANGOLA: BRIEFS FROM THE ELECTION (2)


  • Earlier on Saturday, the main opposition party, UNITA, announced its intention to impugnate the election, claiming a “collapse” of the process in the capital, Luanda, and “numerous cases of organisational failures, forceful prevention of some electors from exercising their right to vote, violence and political intolerance” in the 18 provinces, of which they were in the process of collecting evidence to submit to the Constitutional Court. Part of these claims were seconded by the leader of the FNLA, Ngola Kabango, who, short of calling for an impugnation, expressed his party’s disposition to issue a last appeal to the National Electoral Commission (CNE) to rescue the elections in a legal and legitimate manner”.
  • The calls for impugnation by the opposition were rejected by the ruling party, MPLA, stating that “all is being done according to the law”, and, among other personalities, by Cardinal Dom Alexandre do Nascimento, who said: “I have followed the elections in Luanda and Malange and from the information I have, there was enormous civility and we gave a great example to the world and a good show of culture.” He further stated that “there are organs to solve any problems that might occur and there is no reason for some politicians to attempt to totally spoil the process just to serve their interests. All must be done as it has been so far, with culture, understanding and fraternal spirit. (…) The quality expected from a politician is, above all, patriotic sense and the ability to serve the greater good, the nation.”


  • Earlier on Saturday, the main opposition party, UNITA, announced its intention to impugnate the election, claiming a “collapse” of the process in the capital, Luanda, and “numerous cases of organisational failures, forceful prevention of some electors from exercising their right to vote, violence and political intolerance” in the 18 provinces, of which they were in the process of collecting evidence to submit to the Constitutional Court. Part of these claims were seconded by the leader of the FNLA, Ngola Kabango, who, short of calling for an impugnation, expressed his party’s disposition to issue a last appeal to the National Electoral Commission (CNE) to rescue the elections in a legal and legitimate manner”.
  • The calls for impugnation by the opposition were rejected by the ruling party, MPLA, stating that “all is being done according to the law”, and, among other personalities, by Cardinal Dom Alexandre do Nascimento, who said: “I have followed the elections in Luanda and Malange and from the information I have, there was enormous civility and we gave a great example to the world and a good show of culture.” He further stated that “there are organs to solve any problems that might occur and there is no reason for some politicians to attempt to totally spoil the process just to serve their interests. All must be done as it has been so far, with culture, understanding and fraternal spirit. (…) The quality expected from a politician is, above all, patriotic sense and the ability to serve the greater good, the nation.”

BE MY GUEST! (V. BILL - Part 2)

One African-American, 4 Acres and a Mule

4. What do you think about America's current relationship with Africa in general terms?

I think in general terms the American people have a good relationship with the people of Africa. Of course there is room for improvement on both sides. We are living in a period of history where we can learn a great deal more about each other thanks to rapid advances in communication and information technology and the ease of travel between countries. These advances help people to interact with one another in ways that were not possible before. I think that these new opportunities in communication and travel will have an even bigger impact on relations between the people of African countries and the people of America in the next few decades.
A perfect example of this happened just last week. The mother of my three sons from Togo arrived in Germany for a visit. These three young men are not my blood relatives but are three young people who I have built a close relationship with over the past 8-10 years. This was Mama’s first visit to Europe or anywhere else outside of her small West African country and after introductions the conversation between us started flowing like a river. We needed the help of a translator, a duty that was proudly carried out by her youngest son Sassou, because Mama speaks French and the Gbe languages of her homeland (Ewe and Mina). I speak only English and German so it was difficult to communicate with one another directly. I treated their mother with the care and respect that an older person deserves as I explained who I was and my relationship with her sons. I described for her the connection of my own family to West Africa via the transatlantic slave trade and how African Americans are bound through our hearts and minds to her own people’s history.
This brief meeting between an elderly African woman and an aging African American man is an experience that we both shall hold dear for the rest of our lives. It was absolutely precious. This is what I mean when I say that the relationship between Africans and Americans is generally good because I believe that millions of people in America and Africa are anxious to meet and learn more about each other.

{keep reading here}

5. More specifically, in which areas do you think America has or might have a significant contribution to Africa's development?

Hmmmmm___ that’s a tough question which is not easy to answer but I will give it my best shot. In answering your question I have had to go back and review quite a bit of material because “a significant contribution to Africa’s development” can be interpreted to mean many things. Development assistance to a country (or in this case to 53 countries) is not just financial aid and emergency humanitarian relief. Effective development strategies involve the wise use of foreign policy and diplomacy from a government supported by the work of private organizations and foundations and the public. US strategic foreign policy objectives for Africa are very much a work-in-progress. This work involves complicated negotiations and treaties between the U.S.A. and African governments in coordination with the African Union and other regional bodies on the continent. Despite having read many articles and reports about U.S. foreign policy and aid for Africa I remain doubtful about the impact of our foreign aid. It is difficult for the average person and taxpayer to fully comprehend the many arguments and debates about foreign aid to Africa and the rest of the developing world. It would seem that one needs a degree in economics, international development, or political science.
From what I understand the ways in which “donor nations” have delivered foreign aid to Africa is often in contradiction with the advice of the world’s leading economists and development experts, not to mention falling short of the needs of the people that this assistance is supposed to help. So please understand that my views expressed below are from a confused average citizen who like millions of other Americans is wondering “Is U.S. foreign aid and assistance to developing countries in Africa really working? And if not, how do we fix it?”Let’s start with the first part of your question (the past) by reviewing the history and background of U.S.-Africa foreign policy and U.S. official development assistance. I realize that you (the interviewer Ana) have an excellent education in economics and history and do not need a refresher on U.S.-Africa relations. But for the sake of those readers who may not be so well versed on background of this relationship I would like to start at the beginning before talking about the present and the future.

{keep reading here}

U.S.-Africa relations after the end of WWII

A good overview of the history of United States foreign policy toward Africa from 1945 onward is provided by Dane F. Smith, President of the National Peace Corps Association, in a lecture he presented to students at the University of California – Santa Barbara in June 2008. The 58-minute video, “The Making of US Foreign Policy toward Africa”, is available at YouTube.com.The U.S. State Department-sponsored website America.gov published a feature article in June 2007 titled “50 Years of U.S.-Africa Relations” written by Gregory Garland (Chief of Press and Public Affairs, Bureau of African Affairs). Following are excerpts from that article:50 Years of U.S. Africa Relations by Gregory Garland, 06/25/08President Richard Nixon and U.N. Under-Secretary Ralph Bunche Saw the Future of U.S.-Africa RelationsThe Eisenhower administration’s creation of the Bureau of African Affairs half a century ago signaled a bold step away from what had been a Eurocentric, quasi-colonial policy view of Africa.
Far from being a decision made in a bureaucratic vacuum, the birth of the State Department’s Africa Bureau resulted from the interplay of three of the great forces of the mid-20th century: the civil rights movement, the Cold War and decolonization. Ralph Johnson Bunche of the State Department and Richard Nixon, who served two terms as Eisenhower's vice president before becoming president, exemplified these forces and, in a very important sense, are the intellectual godfathers of the Africa Bureau.
These towering and very different men of the mid-20th century embodied the many, often contradictory threads of U.S. foreign policy toward Africa. Their paths rarely crossed, but the power of the ideas and interests they personified to a large extent determined and help explain the course of America’s relationship with the continent for decades to come.Interestingly, both men hailed from early 20th-century Southern California, a kind of post-frontier open society far from the racial castes of the segregated South and the class tensions of the industrial North. Both rose from humble backgrounds with the aid of academic scholarships to college.

{keep reading here}

Listing the various programs and projects and initiatives showing how the American people have attempted to help in the positive development of Africa would be a very long list indeed. But what is of utmost importance is that the assistance works and that Americans and others work in close partnerships with the African people (the stakeholders). It is also important that aid has a positive impact on the lives of people, that it is easily measurable and has transparent goals and objectives. I hope that someday the people of the U.S.A. working together with Africans and with our international partners can help African countries reach the goal of not needing foreign aid to survive, but for some countries that day still seems a very long way off.So for the past 50 years the U.S.A. along with some economically developed nations in Europe and Asia and the Middle East have contributed billions in financial aid and development assistance to African countries. And what did they get in return for their good deeds? Several donor nations received favorable trade relationships and slick business deals for strategic natural resources, political support at the United Nations and other intergovernmental bodies and commissions, and for all of the humanitarian assistance and relief aid donated some people are able to sleep better at night.Recent studies carried out by leading economists and development experts on the effectiveness of aid has shown that some foreign aid is not working for the people of Africa. Foreign assistance in the form of grants, loans, and food has too often been squandered and stolen bringing little if any benefit to target groups. Aid effectiveness is a hotly debated topic among some of the world’s leading economists and policy makers and is the focus of the September 2008 meeting of international development ministers and organizations in Ghana (Third High Level Forum on Aid Effectiveness).

{keep reading here}

The Aid vs. Trade Debates: some quick facts and figuresIncreases in trade between Africa and the U.S. have been primarily for the import of oil and natural gas, minerals for manufacturing, and forest products (wood, timber). U.S. trade with African countries today still represents only a very small fraction of our total trade with countries in Europe and developing countries in Asia and South America. U.S.-Africa trade needs to improve in ($$$) volume and in the diversity of products and services as was intended in the passing of the U.S. government act AGOA (African Growth and Opportunity Act). Here are a few facts and figures from the 2008 AGOA Report published to the website of the U.S. Trade Representative.

{keep reading here}

U.S. Foreign Assistance and AFRICOM: The militarization of U.S. foreign aid?AFRICOM, the new U.S. military command for Africa; this is one of my specialty topics in the blogosphere. “Semper Fi, Marine!” (Semper fidelis, Latin) is the USMC motto, “always faithful to the end”. The fine young men and women who serve in the U.S. military today work damn hard to live up to their proud service traditions. Yet service in the U.S. Army, Air Force, Navy, and Marines is not just about fighting and combat readiness; it is also about providing assistance to people and helping them to rebuild their towns and villages and restore dignity to their lives. Being part of an overseas mission to support people working hard to help themselves is the most rewarding job a professional soldier can ever do.I think the new U.S. Africa Command (AFRICOM) could be one of the great success stories in U.S.-Africa relations history if given a chance. Intensive training of Africa’s professional armies and national police can improve security for millions of Africans who live in or near weak and failing states. This type of assistance by the U.S. military is already making a difference for people in African countries recovering from years of conflict and war; Liberia is one example that comes to mind and there are several more countries involved in U.S. military training assistance programs.

{keep reading here}
One African-American, 4 Acres and a Mule

4. What do you think about America's current relationship with Africa in general terms?

I think in general terms the American people have a good relationship with the people of Africa. Of course there is room for improvement on both sides. We are living in a period of history where we can learn a great deal more about each other thanks to rapid advances in communication and information technology and the ease of travel between countries. These advances help people to interact with one another in ways that were not possible before. I think that these new opportunities in communication and travel will have an even bigger impact on relations between the people of African countries and the people of America in the next few decades.
A perfect example of this happened just last week. The mother of my three sons from Togo arrived in Germany for a visit. These three young men are not my blood relatives but are three young people who I have built a close relationship with over the past 8-10 years. This was Mama’s first visit to Europe or anywhere else outside of her small West African country and after introductions the conversation between us started flowing like a river. We needed the help of a translator, a duty that was proudly carried out by her youngest son Sassou, because Mama speaks French and the Gbe languages of her homeland (Ewe and Mina). I speak only English and German so it was difficult to communicate with one another directly. I treated their mother with the care and respect that an older person deserves as I explained who I was and my relationship with her sons. I described for her the connection of my own family to West Africa via the transatlantic slave trade and how African Americans are bound through our hearts and minds to her own people’s history.
This brief meeting between an elderly African woman and an aging African American man is an experience that we both shall hold dear for the rest of our lives. It was absolutely precious. This is what I mean when I say that the relationship between Africans and Americans is generally good because I believe that millions of people in America and Africa are anxious to meet and learn more about each other.

{keep reading here}

5. More specifically, in which areas do you think America has or might have a significant contribution to Africa's development?

Hmmmmm___ that’s a tough question which is not easy to answer but I will give it my best shot. In answering your question I have had to go back and review quite a bit of material because “a significant contribution to Africa’s development” can be interpreted to mean many things. Development assistance to a country (or in this case to 53 countries) is not just financial aid and emergency humanitarian relief. Effective development strategies involve the wise use of foreign policy and diplomacy from a government supported by the work of private organizations and foundations and the public. US strategic foreign policy objectives for Africa are very much a work-in-progress. This work involves complicated negotiations and treaties between the U.S.A. and African governments in coordination with the African Union and other regional bodies on the continent. Despite having read many articles and reports about U.S. foreign policy and aid for Africa I remain doubtful about the impact of our foreign aid. It is difficult for the average person and taxpayer to fully comprehend the many arguments and debates about foreign aid to Africa and the rest of the developing world. It would seem that one needs a degree in economics, international development, or political science.
From what I understand the ways in which “donor nations” have delivered foreign aid to Africa is often in contradiction with the advice of the world’s leading economists and development experts, not to mention falling short of the needs of the people that this assistance is supposed to help. So please understand that my views expressed below are from a confused average citizen who like millions of other Americans is wondering “Is U.S. foreign aid and assistance to developing countries in Africa really working? And if not, how do we fix it?”Let’s start with the first part of your question (the past) by reviewing the history and background of U.S.-Africa foreign policy and U.S. official development assistance. I realize that you (the interviewer Ana) have an excellent education in economics and history and do not need a refresher on U.S.-Africa relations. But for the sake of those readers who may not be so well versed on background of this relationship I would like to start at the beginning before talking about the present and the future.

{keep reading here}

U.S.-Africa relations after the end of WWII

A good overview of the history of United States foreign policy toward Africa from 1945 onward is provided by Dane F. Smith, President of the National Peace Corps Association, in a lecture he presented to students at the University of California – Santa Barbara in June 2008. The 58-minute video, “The Making of US Foreign Policy toward Africa”, is available at YouTube.com.The U.S. State Department-sponsored website America.gov published a feature article in June 2007 titled “50 Years of U.S.-Africa Relations” written by Gregory Garland (Chief of Press and Public Affairs, Bureau of African Affairs). Following are excerpts from that article:50 Years of U.S. Africa Relations by Gregory Garland, 06/25/08President Richard Nixon and U.N. Under-Secretary Ralph Bunche Saw the Future of U.S.-Africa RelationsThe Eisenhower administration’s creation of the Bureau of African Affairs half a century ago signaled a bold step away from what had been a Eurocentric, quasi-colonial policy view of Africa.
Far from being a decision made in a bureaucratic vacuum, the birth of the State Department’s Africa Bureau resulted from the interplay of three of the great forces of the mid-20th century: the civil rights movement, the Cold War and decolonization. Ralph Johnson Bunche of the State Department and Richard Nixon, who served two terms as Eisenhower's vice president before becoming president, exemplified these forces and, in a very important sense, are the intellectual godfathers of the Africa Bureau.
These towering and very different men of the mid-20th century embodied the many, often contradictory threads of U.S. foreign policy toward Africa. Their paths rarely crossed, but the power of the ideas and interests they personified to a large extent determined and help explain the course of America’s relationship with the continent for decades to come.Interestingly, both men hailed from early 20th-century Southern California, a kind of post-frontier open society far from the racial castes of the segregated South and the class tensions of the industrial North. Both rose from humble backgrounds with the aid of academic scholarships to college.

{keep reading here}

Listing the various programs and projects and initiatives showing how the American people have attempted to help in the positive development of Africa would be a very long list indeed. But what is of utmost importance is that the assistance works and that Americans and others work in close partnerships with the African people (the stakeholders). It is also important that aid has a positive impact on the lives of people, that it is easily measurable and has transparent goals and objectives. I hope that someday the people of the U.S.A. working together with Africans and with our international partners can help African countries reach the goal of not needing foreign aid to survive, but for some countries that day still seems a very long way off.So for the past 50 years the U.S.A. along with some economically developed nations in Europe and Asia and the Middle East have contributed billions in financial aid and development assistance to African countries. And what did they get in return for their good deeds? Several donor nations received favorable trade relationships and slick business deals for strategic natural resources, political support at the United Nations and other intergovernmental bodies and commissions, and for all of the humanitarian assistance and relief aid donated some people are able to sleep better at night.Recent studies carried out by leading economists and development experts on the effectiveness of aid has shown that some foreign aid is not working for the people of Africa. Foreign assistance in the form of grants, loans, and food has too often been squandered and stolen bringing little if any benefit to target groups. Aid effectiveness is a hotly debated topic among some of the world’s leading economists and policy makers and is the focus of the September 2008 meeting of international development ministers and organizations in Ghana (Third High Level Forum on Aid Effectiveness).

{keep reading here}

The Aid vs. Trade Debates: some quick facts and figuresIncreases in trade between Africa and the U.S. have been primarily for the import of oil and natural gas, minerals for manufacturing, and forest products (wood, timber). U.S. trade with African countries today still represents only a very small fraction of our total trade with countries in Europe and developing countries in Asia and South America. U.S.-Africa trade needs to improve in ($$$) volume and in the diversity of products and services as was intended in the passing of the U.S. government act AGOA (African Growth and Opportunity Act). Here are a few facts and figures from the 2008 AGOA Report published to the website of the U.S. Trade Representative.

{keep reading here}

U.S. Foreign Assistance and AFRICOM: The militarization of U.S. foreign aid?AFRICOM, the new U.S. military command for Africa; this is one of my specialty topics in the blogosphere. “Semper Fi, Marine!” (Semper fidelis, Latin) is the USMC motto, “always faithful to the end”. The fine young men and women who serve in the U.S. military today work damn hard to live up to their proud service traditions. Yet service in the U.S. Army, Air Force, Navy, and Marines is not just about fighting and combat readiness; it is also about providing assistance to people and helping them to rebuild their towns and villages and restore dignity to their lives. Being part of an overseas mission to support people working hard to help themselves is the most rewarding job a professional soldier can ever do.I think the new U.S. Africa Command (AFRICOM) could be one of the great success stories in U.S.-Africa relations history if given a chance. Intensive training of Africa’s professional armies and national police can improve security for millions of Africans who live in or near weak and failing states. This type of assistance by the U.S. military is already making a difference for people in African countries recovering from years of conflict and war; Liberia is one example that comes to mind and there are several more countries involved in U.S. military training assistance programs.

{keep reading here}

ANGOLA: BRIEFS FROM THE ELECTION (1)


Things are not exactly going to plan:






    Things are not exactly going to plan:





      Friday, 5 September 2008

      A LITTLE DISCUSSION ON 'OBAMATRONICS'


      There is an interesting discussion going on here about an article titled 'Obama and Black American Ethnicity', by Marian Douglas-Ungaro, where I've just posted this comment:


      Speaking for myself, one of the two most disturbing facts about the U.S. presidential election of November 2008 is that so many folks - even folks who've never set foot in the United States, are not U.S. citizens, and have never suffered as 3rd, 4th & 5th class Americans on U.S. soil - are so geared up to "elect themselves a black president."

      If that is the definition of a ‘Obamatron’, then I guess I fall squarely under it: I am an African who has never lived in America, is not an American citizen and has not lived the Black American historical experience, yet I have been supporting Obama with enthusiasm, and at times even assumed silliness, for most of this campaign. Except that I’ve actually set foot in the US, have close family members living there for decades (one of my sisters is actually a staunch Hillary supporter and has even worked as her campaign staff) and I’ve worked in Africa for a USAID-sponsored project as a Black African within an otherwise all-American, all-White professional team. But that’s not what makes me feel involved in this campaign and it’s not exclusively Obama’s race or ethnicity that makes me support him either.

      Also speaking for myself, as the author does, I come from a country – Angola – whose political life has been shaped directly by American politics for at least most part of the last century and continues to be so to this day. And when you are a citizen of a country where politics, economics, election outcomes, war or peace and life or death are so impacted by American politics as happens to my country, as I am sure happens in not a few countries in Africa and around the world, I, willingly or not, have a stake, even if only remote (you can then call me a ‘remote-controlled automaton’ or ‘Obamatron’ if you wish) in American elections and its outcomes.

      I wouldn’t, for a moment, claim that my ‘presumed stake’ in that election is bigger, more significant or even equal, than that of US citizens in general, or Black Americans in particular, not least because I am not entitled to vote there, but given a chance, as it was by this internet-cross-boundaries geared campaign, I feel entitled to have my views about it known. And that’s just what I have been doing (again, call me a ‘Obamatron’ for that if you wish – I may take offence at it, but that will not stop me from having and expressing my opinions about ‘your’ elections, at least for as long as your country politics, regardless of the particular ideologies underlying it under different administrations, has an impact on mine and on my life, even if only ‘remotely’).

      I would like to, but I won’t dwell too much in this occasion on all the discussions about slavery v. colonialism, race v. ethnicity or Black Americans/African Americans v. Africans. I think brother Mzimkhulu and other discussants here already gave significant contributions to those. I would just add that slavery continued in Africa and particularly in former Portuguese colonies for most of the 20th century under other designations such as ‘contract labour’ and, in the case of Southern Africa, as ‘migrant labour’ to the South African mines. I would also like to take this opportunity to mention that in certain African societies, certainly in Angola and other former Portuguese colonies, someone like Rev. Wright, and even someone like Barack Obama, would hardly be considered or identify themselves as ‘black’ and would most certainly not take the kind of stances on race politics they take in the USA.

      Finally, let me cite Mandela in his introduction to a recent publication about the relationships between Black American and Black African political movements, ‘No Easy Victories’: “We were part of a worldwide movement that continues today to redress the economic and social injustices that kill body, mind, and spirit. ‘No Easy Victories’ makes clear that our lives and fortunes around the globe are indeed linked.”

      There is an interesting discussion going on here about an article titled 'Obama and Black American Ethnicity', by Marian Douglas-Ungaro, where I've just posted this comment:


      Speaking for myself, one of the two most disturbing facts about the U.S. presidential election of November 2008 is that so many folks - even folks who've never set foot in the United States, are not U.S. citizens, and have never suffered as 3rd, 4th & 5th class Americans on U.S. soil - are so geared up to "elect themselves a black president."

      If that is the definition of a ‘Obamatron’, then I guess I fall squarely under it: I am an African who has never lived in America, is not an American citizen and has not lived the Black American historical experience, yet I have been supporting Obama with enthusiasm, and at times even assumed silliness, for most of this campaign. Except that I’ve actually set foot in the US, have close family members living there for decades (one of my sisters is actually a staunch Hillary supporter and has even worked as her campaign staff) and I’ve worked in Africa for a USAID-sponsored project as a Black African within an otherwise all-American, all-White professional team. But that’s not what makes me feel involved in this campaign and it’s not exclusively Obama’s race or ethnicity that makes me support him either.

      Also speaking for myself, as the author does, I come from a country – Angola – whose political life has been shaped directly by American politics for at least most part of the last century and continues to be so to this day. And when you are a citizen of a country where politics, economics, election outcomes, war or peace and life or death are so impacted by American politics as happens to my country, as I am sure happens in not a few countries in Africa and around the world, I, willingly or not, have a stake, even if only remote (you can then call me a ‘remote-controlled automaton’ or ‘Obamatron’ if you wish) in American elections and its outcomes.

      I wouldn’t, for a moment, claim that my ‘presumed stake’ in that election is bigger, more significant or even equal, than that of US citizens in general, or Black Americans in particular, not least because I am not entitled to vote there, but given a chance, as it was by this internet-cross-boundaries geared campaign, I feel entitled to have my views about it known. And that’s just what I have been doing (again, call me a ‘Obamatron’ for that if you wish – I may take offence at it, but that will not stop me from having and expressing my opinions about ‘your’ elections, at least for as long as your country politics, regardless of the particular ideologies underlying it under different administrations, has an impact on mine and on my life, even if only ‘remotely’).

      I would like to, but I won’t dwell too much in this occasion on all the discussions about slavery v. colonialism, race v. ethnicity or Black Americans/African Americans v. Africans. I think brother Mzimkhulu and other discussants here already gave significant contributions to those. I would just add that slavery continued in Africa and particularly in former Portuguese colonies for most of the 20th century under other designations such as ‘contract labour’ and, in the case of Southern Africa, as ‘migrant labour’ to the South African mines. I would also like to take this opportunity to mention that in certain African societies, certainly in Angola and other former Portuguese colonies, someone like Rev. Wright, and even someone like Barack Obama, would hardly be considered or identify themselves as ‘black’ and would most certainly not take the kind of stances on race politics they take in the USA.

      Finally, let me cite Mandela in his introduction to a recent publication about the relationships between Black American and Black African political movements, ‘No Easy Victories’: “We were part of a worldwide movement that continues today to redress the economic and social injustices that kill body, mind, and spirit. ‘No Easy Victories’ makes clear that our lives and fortunes around the globe are indeed linked.”

      Thursday, 4 September 2008

      VOTE SE PUDER


      O QUE NOSOTROS ANDAMOS PR'AQUI A PERDER... (4)

      ANGOLA ELECTIONS: A CHATHAM HOUSE PRE-ASSESSMENT REPORT


      Angola is sub-Saharan Africa's largest oil producer, reaching 2 million barrels a day. It is also OPEC's newest member. Angolans go to the polls on Friday 5 September 2008 for legislative elections, the first multiparty polls since 1992. Ten parties and four coalitions with 5,198 candidates will contest 220 seats.
      Chatham House's pre-election assessment examines the run-up to these elections in this strategic southern African country whose export earnings in 2008 will be over US$84 billion. Over 8 million voters have registered for these elections which represent a milestone in Angola's post-conflict transition. They also form part of a wider process with presidential elections scheduled for 2009 and municipal elections in 2010. The Popular Movement for the Liberation of Angola (MPLA) has been in power since independence from Portugal in 1975.
      Given the MPLA's institutional and financial strength, it is expected to win the election and might increase its majority which would allow it to change the constitution. For the main opposition party, the National Union for Total Independence of Angola (UNITA) these elections will determine how relevant they are, after their military defeat and six years of peace.

      HIGHLIGHTS:

      Women’s participation

      Perhaps as a result of the war, but also because of their low levels of literacy
      and high levels of poverty, women have barely been visible on Angola’s
      political scene, with only few holding senior party positions. In early 2008, the
      government launched a plan to increase the number of women involved in
      politics. This gender equality plan, still to be ratified, imposes a 30 per cent
      quota for female participation in both government and political structures.
      Although it should be applauded that nearly a third of candidates in Angola's
      upcoming parliamentary elections are female, it is below 50 per cent
      threshold established in 2005 by the Southern African Development
      Community (SADC). It would be a real achievement if women were elected by
      local people especially at the municipal and local level.

      Access to the media

      The playing field for the political contest is particularly unequal in access to
      media. Although, the private media in Angola is largely independent of party
      politics and is often critical of government, the state very much dominates the
      only daily national newspaper, Jornal de Angola, and the only non-satellite
      Angolan Public Television (TPA). Opposition parties often complain that they
      experience censorship when trying access the state media, through manipulated reporting and editorial alignment.

      [Click on the image to access full report]

      Angola is sub-Saharan Africa's largest oil producer, reaching 2 million barrels a day. It is also OPEC's newest member. Angolans go to the polls on Friday 5 September 2008 for legislative elections, the first multiparty polls since 1992. Ten parties and four coalitions with 5,198 candidates will contest 220 seats.
      Chatham House's pre-election assessment examines the run-up to these elections in this strategic southern African country whose export earnings in 2008 will be over US$84 billion. Over 8 million voters have registered for these elections which represent a milestone in Angola's post-conflict transition. They also form part of a wider process with presidential elections scheduled for 2009 and municipal elections in 2010. The Popular Movement for the Liberation of Angola (MPLA) has been in power since independence from Portugal in 1975.
      Given the MPLA's institutional and financial strength, it is expected to win the election and might increase its majority which would allow it to change the constitution. For the main opposition party, the National Union for Total Independence of Angola (UNITA) these elections will determine how relevant they are, after their military defeat and six years of peace.

      HIGHLIGHTS:

      Women’s participation

      Perhaps as a result of the war, but also because of their low levels of literacy
      and high levels of poverty, women have barely been visible on Angola’s
      political scene, with only few holding senior party positions. In early 2008, the
      government launched a plan to increase the number of women involved in
      politics. This gender equality plan, still to be ratified, imposes a 30 per cent
      quota for female participation in both government and political structures.
      Although it should be applauded that nearly a third of candidates in Angola's
      upcoming parliamentary elections are female, it is below 50 per cent
      threshold established in 2005 by the Southern African Development
      Community (SADC). It would be a real achievement if women were elected by
      local people especially at the municipal and local level.

      Access to the media

      The playing field for the political contest is particularly unequal in access to
      media. Although, the private media in Angola is largely independent of party
      politics and is often critical of government, the state very much dominates the
      only daily national newspaper, Jornal de Angola, and the only non-satellite
      Angolan Public Television (TPA). Opposition parties often complain that they
      experience censorship when trying access the state media, through manipulated reporting and editorial alignment.

      [Click on the image to access full report]

      Wednesday, 3 September 2008

      ECHOES FROM THE ANGOLAN PRESS (24)

      Starting with some features from Novo Jornal (NJ):

      Picture of the week

      Sounds and Colours of the Campaign

      A campaign that is truly a campaign also has lots of partying in the middle. The ideology counts, of course, but the music, the walkings, the eatings and drinkings are also part of the electoral period: they give it another colour and help to pass the message. In Angola it’s not different. It’s just seeing them walking the streets trying to “sell their fish” with loudspeakers in hand, horns firmly pressed down and ‘sound systems’ with decibels well high up. It’s a symphony of colour and sound showing that here too the election campaign can be a party of all, for all.

      A Woman for Prime Minister?

      Speculations mount about the probability that the next Angolan Prime Minister might be a woman: “the future government to come out of these elections might have a woman as Prime Minister, the NJ has learned from various sources linked to the different legislative candidatures. Neither the MPLA nor UNITA confirm, although none of them dismisses the possibility. ‘It’s a competency of the President of the Republic’, they say.
      The name of Ana Dias Lourenco, currently the Minister of Planning, is being aired for that position as a result of her association with the “Economic Team”, comprised among others of Finance Minister Pedro de Morais and Vice-Prime Minister Aguinaldo Jaime, a team hailed as the maker of the curent ‘macro-economic stability’ and high rates of GDP growth in the country. However, neither Lourenco nor any of the other members of the team belong to the MPLA’s Political Bureau, which leaves the question out in the open, perhaps to be filled-in by a man so far operating in the shadows, Manuel Nunes Junior, who, thanks to his position as that party organ’s Secretary for Economic and Social Affairs, might be more likely to be named for the role. He says, however, that he hasn’t been approached so far about the issue.

      Moving to other papers:

      In an interview to the A Capital, Reginaldo Silva, a.k.a. Wilson Dada, comments on the prospect of a political bipolarisation of the country between the MPLA and UNITA:

      “I honestly believe that the political future of Angola, bearing in mind the need to safeguard all the interests cohabiting in our large and diversified geographic square, will be best served by a scenario of party equilibrium, even if it is based on a Legislative Assembly clearly bipolarised. In its more than thirty years of independence, Angola has always lived under a political regime controlled by one single political force, despite all the cosmetic nuances observed during the Second Republic, with its pathetic GURN (Government of Unity and National Reconciliation).
      I think that it is time for Angolans to experience a more open regime, in respect to an effective compromise and consistent political dialogue among its protagonists, which should not allow any of the parties to take major national decisions alone. This need makes all sense in a country that, in all truth, still hasn’t democratised itself structurally or even psychologically, this being extensive equally to the institutions and the people.
      Among us, I know that the adepts of the regime of absolute majority are more than many, most of whom take that position more out of an ‘epidermic’ (emotional) option than of a rational one, if I am allowed to enter others’ field. Some of these adepts think that it is only possible to govern with efficacy without dependence on consensuses with the other political forces. I believe that it is much more easy to govern that way. But it is also more easy to misgovern and commit all sorts of tampering with the law and abuses of power, ‘products’ well known to Angolans.”

      Jose’ Kaliengue, in the Semanario Angolense, reports that the Luanda provincial command of the police presented to the public, last Wednesday, the presumable authors of the sordid “Frescura massacre” happened last July in the neighbourhood of Sambizanga:

      “They were policeman. The revelation did not surprise anyone. Firstly, because the killers were identified on location. Secondly, because the hurry with which the second commander of the local police went to Radio Ecclesia to announce the event is not at all common in Angola. Thirdly, because the assassins used a unidentifiable car, acted with the coldness of who has the situation under control and doesn’t fear the police and, fourthly, because the locals told the media that at the time of the killings there were police cars patrolling the area that did not react, did not follow the murderers’ car and, therefore, could only be there to protect them. The police was left without any exit option except to admit that the assassins were among themselves. For that, it must be said, the pressure from the private media and the civil society was instrumental.”

      Back to the NJ:

      The Angolan BB Africa III contestant

      Ricardo Venâncio “Ricco”, 23, a university student born in Luanda, is the Angolan representative at the third edition of the popular contest. More than a hundred people gathered in one of the leisure hangouts in the Island of Luanda showed their solidarity to him.
      He is the first male contestant from Angola to enter the most supervised house in Africa, where for three months the participants’ behaviour, attitudes and personalities will be evaluated. At the end there will be only one winner.
      The house has been open for five days already and until November we will see what will be Ricardo’s story. His friends and relatives who watched the contest’s opening ceremony in Luanda expect a higher level of participation from him than those protagonised in past editions by Bruna Tatiana and Tatiana Durao.



      Some interesting news on the football field




      While Manucho Goncalves is presented as Ferguson’s bet to reinforce the Manchester team this season, Santana says: “My dream is to play in England”.

      Santana, a 24 year old leading Angolan striker, reveals to the NJ that he gets his inspiration from Thierry Henry and dreams of wearing the Arsenal shirt.

      {… I also have a Santana like that around here… actually he was responsible for taking me for the first time in my life to watch a football match at a big stadium… more precisely, the Arsenal stadium!}





      And finally…

      Starting with some features from Novo Jornal (NJ):

      Picture of the week

      Sounds and Colours of the Campaign

      A campaign that is truly a campaign also has lots of partying in the middle. The ideology counts, of course, but the music, the walkings, the eatings and drinkings are also part of the electoral period: they give it another colour and help to pass the message. In Angola it’s not different. It’s just seeing them walking the streets trying to “sell their fish” with loudspeakers in hand, horns firmly pressed down and ‘sound systems’ with decibels well high up. It’s a symphony of colour and sound showing that here too the election campaign can be a party of all, for all.

      A Woman for Prime Minister?

      Speculations mount about the probability that the next Angolan Prime Minister might be a woman: “the future government to come out of these elections might have a woman as Prime Minister, the NJ has learned from various sources linked to the different legislative candidatures. Neither the MPLA nor UNITA confirm, although none of them dismisses the possibility. ‘It’s a competency of the President of the Republic’, they say.
      The name of Ana Dias Lourenco, currently the Minister of Planning, is being aired for that position as a result of her association with the “Economic Team”, comprised among others of Finance Minister Pedro de Morais and Vice-Prime Minister Aguinaldo Jaime, a team hailed as the maker of the curent ‘macro-economic stability’ and high rates of GDP growth in the country. However, neither Lourenco nor any of the other members of the team belong to the MPLA’s Political Bureau, which leaves the question out in the open, perhaps to be filled-in by a man so far operating in the shadows, Manuel Nunes Junior, who, thanks to his position as that party organ’s Secretary for Economic and Social Affairs, might be more likely to be named for the role. He says, however, that he hasn’t been approached so far about the issue.

      Moving to other papers:

      In an interview to the A Capital, Reginaldo Silva, a.k.a. Wilson Dada, comments on the prospect of a political bipolarisation of the country between the MPLA and UNITA:

      “I honestly believe that the political future of Angola, bearing in mind the need to safeguard all the interests cohabiting in our large and diversified geographic square, will be best served by a scenario of party equilibrium, even if it is based on a Legislative Assembly clearly bipolarised. In its more than thirty years of independence, Angola has always lived under a political regime controlled by one single political force, despite all the cosmetic nuances observed during the Second Republic, with its pathetic GURN (Government of Unity and National Reconciliation).
      I think that it is time for Angolans to experience a more open regime, in respect to an effective compromise and consistent political dialogue among its protagonists, which should not allow any of the parties to take major national decisions alone. This need makes all sense in a country that, in all truth, still hasn’t democratised itself structurally or even psychologically, this being extensive equally to the institutions and the people.
      Among us, I know that the adepts of the regime of absolute majority are more than many, most of whom take that position more out of an ‘epidermic’ (emotional) option than of a rational one, if I am allowed to enter others’ field. Some of these adepts think that it is only possible to govern with efficacy without dependence on consensuses with the other political forces. I believe that it is much more easy to govern that way. But it is also more easy to misgovern and commit all sorts of tampering with the law and abuses of power, ‘products’ well known to Angolans.”

      Jose’ Kaliengue, in the Semanario Angolense, reports that the Luanda provincial command of the police presented to the public, last Wednesday, the presumable authors of the sordid “Frescura massacre” happened last July in the neighbourhood of Sambizanga:

      “They were policeman. The revelation did not surprise anyone. Firstly, because the killers were identified on location. Secondly, because the hurry with which the second commander of the local police went to Radio Ecclesia to announce the event is not at all common in Angola. Thirdly, because the assassins used a unidentifiable car, acted with the coldness of who has the situation under control and doesn’t fear the police and, fourthly, because the locals told the media that at the time of the killings there were police cars patrolling the area that did not react, did not follow the murderers’ car and, therefore, could only be there to protect them. The police was left without any exit option except to admit that the assassins were among themselves. For that, it must be said, the pressure from the private media and the civil society was instrumental.”

      Back to the NJ:

      The Angolan BB Africa III contestant

      Ricardo Venâncio “Ricco”, 23, a university student born in Luanda, is the Angolan representative at the third edition of the popular contest. More than a hundred people gathered in one of the leisure hangouts in the Island of Luanda showed their solidarity to him.
      He is the first male contestant from Angola to enter the most supervised house in Africa, where for three months the participants’ behaviour, attitudes and personalities will be evaluated. At the end there will be only one winner.
      The house has been open for five days already and until November we will see what will be Ricardo’s story. His friends and relatives who watched the contest’s opening ceremony in Luanda expect a higher level of participation from him than those protagonised in past editions by Bruna Tatiana and Tatiana Durao.



      Some interesting news on the football field




      While Manucho Goncalves is presented as Ferguson’s bet to reinforce the Manchester team this season, Santana says: “My dream is to play in England”.

      Santana, a 24 year old leading Angolan striker, reveals to the NJ that he gets his inspiration from Thierry Henry and dreams of wearing the Arsenal shirt.

      {… I also have a Santana like that around here… actually he was responsible for taking me for the first time in my life to watch a football match at a big stadium… more precisely, the Arsenal stadium!}





      And finally…

      Tuesday, 2 September 2008

      "O FIM DA PICADA..."

      Ontem, um amigo escreveu-me isto de Luanda:

      Estou seguro que a campanha do “teu” presidente é mais interessante de acompanhar da que vai indo por aqui sem interesse praticamente nenhum. Chegamos à triste conclusão que não temos mesmo oposição e que, como se diz aqui “antigamente Partido ùnico, agora… Único partido”!

      [Cartoon Novo Jornal]

      MUXIMA

      As velas mexem-se freneticamente e traçam rabiscos breves de luz na noite escura. As vozes modulam-se em êxtase. De repente, enquanto escrevem a minha morada numa folha encardida, ela chega. Sem aviso prévio, e elevada sobre a multidão, a Mamã Muxima surge a contraluz no lado esquerdo da porta. Em segundos, percorre todo o meu ecrã imaginário e desaparece pelo canto direito. Sem tempo de pedir um desejo, ela continua o seu percurso fora do meu ângulo de visão, do lado de lá da fronteira que divide a prisão da liberdade.

      Ao lado, no “banco dos suspeitos”, a polícia passa a pente fino tudo o que o gravador e a máquina fotográfica registaram ao longo do dia. Os “flashes” passam ao lado do agente, que nem repara naquela mais-velha da fotografia. As lágrimas correm-lhe pela cara, seguindo os sulcos das rugas vincadas na pele negra. Chora em silêncio, braços ao alto, joelhos empoeirados pregados no chão. Esgar de prece e de dor, olhos fechados que apontam o altar de onde a Mamã Muxima tudo contempla, tudo acolhe. E as imagens sucedem-se, inocentes: O fumo dos fogareiros e das pequenas fogueiras mistura-se com a névoa de poeira fina. A maior parte dos peregrinos traz os alimentos, prontos a cozinhar. Outros não. Para estes, uma série de barracas pontilha a Muxima com o aval das autoridades terrenas da vila-santuário. Vêm de Luanda à procura de lucro e da bênção. Para que o negócio corra bem, para que os investimentos sejam superados, para que, no regresso a casa, os Hiaces que pagaram a peso de ouro não se despistem. Alguns não têm sorte. As carcaças ao longo da estrada entre Sangano e a Muxima deixam adivinhar finais infelizes. Avança a busca na máquina fotográfica e surge a multidão entre as barracas improvisadas e os panos que cobrem o chão, que servirão de cama quando a noite fresca do fim do cacimbo à beira Kwanza chegar.
      Jovens, velhos, menos jovens, homens, mulheres, muitas mulheres caminham, tropeçam, cruzam-se, dançam, vão, regressam, sentamse, deitam-se, levantam-se, curvam-se, ajoelham-se, rezam, existem. “Mamã Muxima Rogai por Nós” estampado nas t-shirts brancas da maior parte dos peregrinos. A rodear a cintura e a cobrir a cabeça, panos tradicionais com a santa estampada de todas as formas e feitios. A massa humana é um caleidoscópio de cores.

      Com o gravador encostado ao ouvido, para abafar o som que vem lá de fora, a polícia ouve o apelo do Frei Lukonda, na celebração penitencial: “A Paz foi um grande sacrifício. Paz não é só o calar das armas, é preciso desarmar as mentes”. A gravação digital avança e dá voz aos anseios do povo: “Peço para que a Mamã Muxima me arranje noivo”; “Quero que a Mamã tire o meu irmão e o meu noivo da droga”; “Só peço à Mamã Muxima que traga paz a Angola”. Por fim, a fé dos peregrinos: “A Mamã Muxima para mim é tudo, é uma irmã, uma amiga, uma companheira”; “A Mamã Muxima é a minha luz, é o meu Deus”; “A Mamã Muxima nunca me abandonou, sempre esteve comigo durante a vida”. “Irmão” e “Irmã” são palavras-refrão, no meu gravador. Os sorrisos são constantes, os abraços multiplicam-se, mesmo entre desconhecidos.
      Vive-se uma espécie de estado de graça na Muxima que envolve os peregrinos, o casario velho da vila, a igreja, a capela lá no alto do morro e o Kwanza que, por aqueles lados, corre por entre uma vegetação verde-luxuriante, num cenário idílico. Por entre a azáfama, uma voz quase imperceptível improvisa um cântico religioso. Tudo à volta pára. Uma, duas, dez, vinte vozes num kimbundu compassado e harmonioso tornam-se onda de choque sonora. O compasso é marcado por palmas. Tac, tac, tac em ampliação desmesurada, fé em estado efervescente. O gravador faz stop, acabou a gravação.


      Foto daqui

      “A primeira grande peregrinação à Muxima de que há registos aconteceu em 1650, quando se repôs a imagem da santa no altar-mor da igreja, vencida a invasão holandesa”, conta Mário Torres, reitor do santuário. No entanto, já antes o culto se fazia sentir naquela área, em torno de “uma antiga capela de pau-a-pique que havia numa zona que o rio entretanto tomou”. As lendas em torno do culto “são muitas”, conta o sacerdote, mas há uma que chama especial atenção: “o povo conta que esta igreja da Muxima apareceu de um dia para o outro, como por milagre.
      No meu entender isso é uma forma das pessoas explicarem a forma como o culto se impôs na região que, de facto, aconteceu num espaço de 15 anos”. Mário Torres rejeita também a versão popular de a Mamã Muxima ter aparecido no local onde se ergue a capela, no alto do morro. O sacerdote assume ainda o sincretismo do culto à imagem. “A devoção à Mamã Muxima não é puramente cristã, envolve muita magia e feitiçaria. As pessoas vêem a santa como uma pessoa com muito poder, suficientemente forte para fazer o bem e mesmo o mal”, diz, explicando que o desafio passa por “atribuir um verdadeiro significado cristão ao culto, incorporando o que a tradição tem de bom”.
      Este ano a romaria aconteceu mais cedo. “A acontecer no primeiro domingo de Setembro, como é normal, a peregrinação calharia dois dias depois das eleições, o que poderia colocar as pessoas entre duas opções: ou votar ou vir à Muxima. Como temos que assumir a nossa responsabilidade, resolvemos alterar a data”, explica o reitor.

      [Aqui]

      duo ouro negro - muxima
      As velas mexem-se freneticamente e traçam rabiscos breves de luz na noite escura. As vozes modulam-se em êxtase. De repente, enquanto escrevem a minha morada numa folha encardida, ela chega. Sem aviso prévio, e elevada sobre a multidão, a Mamã Muxima surge a contraluz no lado esquerdo da porta. Em segundos, percorre todo o meu ecrã imaginário e desaparece pelo canto direito. Sem tempo de pedir um desejo, ela continua o seu percurso fora do meu ângulo de visão, do lado de lá da fronteira que divide a prisão da liberdade.

      Ao lado, no “banco dos suspeitos”, a polícia passa a pente fino tudo o que o gravador e a máquina fotográfica registaram ao longo do dia. Os “flashes” passam ao lado do agente, que nem repara naquela mais-velha da fotografia. As lágrimas correm-lhe pela cara, seguindo os sulcos das rugas vincadas na pele negra. Chora em silêncio, braços ao alto, joelhos empoeirados pregados no chão. Esgar de prece e de dor, olhos fechados que apontam o altar de onde a Mamã Muxima tudo contempla, tudo acolhe. E as imagens sucedem-se, inocentes: O fumo dos fogareiros e das pequenas fogueiras mistura-se com a névoa de poeira fina. A maior parte dos peregrinos traz os alimentos, prontos a cozinhar. Outros não. Para estes, uma série de barracas pontilha a Muxima com o aval das autoridades terrenas da vila-santuário. Vêm de Luanda à procura de lucro e da bênção. Para que o negócio corra bem, para que os investimentos sejam superados, para que, no regresso a casa, os Hiaces que pagaram a peso de ouro não se despistem. Alguns não têm sorte. As carcaças ao longo da estrada entre Sangano e a Muxima deixam adivinhar finais infelizes. Avança a busca na máquina fotográfica e surge a multidão entre as barracas improvisadas e os panos que cobrem o chão, que servirão de cama quando a noite fresca do fim do cacimbo à beira Kwanza chegar.
      Jovens, velhos, menos jovens, homens, mulheres, muitas mulheres caminham, tropeçam, cruzam-se, dançam, vão, regressam, sentamse, deitam-se, levantam-se, curvam-se, ajoelham-se, rezam, existem. “Mamã Muxima Rogai por Nós” estampado nas t-shirts brancas da maior parte dos peregrinos. A rodear a cintura e a cobrir a cabeça, panos tradicionais com a santa estampada de todas as formas e feitios. A massa humana é um caleidoscópio de cores.

      Com o gravador encostado ao ouvido, para abafar o som que vem lá de fora, a polícia ouve o apelo do Frei Lukonda, na celebração penitencial: “A Paz foi um grande sacrifício. Paz não é só o calar das armas, é preciso desarmar as mentes”. A gravação digital avança e dá voz aos anseios do povo: “Peço para que a Mamã Muxima me arranje noivo”; “Quero que a Mamã tire o meu irmão e o meu noivo da droga”; “Só peço à Mamã Muxima que traga paz a Angola”. Por fim, a fé dos peregrinos: “A Mamã Muxima para mim é tudo, é uma irmã, uma amiga, uma companheira”; “A Mamã Muxima é a minha luz, é o meu Deus”; “A Mamã Muxima nunca me abandonou, sempre esteve comigo durante a vida”. “Irmão” e “Irmã” são palavras-refrão, no meu gravador. Os sorrisos são constantes, os abraços multiplicam-se, mesmo entre desconhecidos.
      Vive-se uma espécie de estado de graça na Muxima que envolve os peregrinos, o casario velho da vila, a igreja, a capela lá no alto do morro e o Kwanza que, por aqueles lados, corre por entre uma vegetação verde-luxuriante, num cenário idílico. Por entre a azáfama, uma voz quase imperceptível improvisa um cântico religioso. Tudo à volta pára. Uma, duas, dez, vinte vozes num kimbundu compassado e harmonioso tornam-se onda de choque sonora. O compasso é marcado por palmas. Tac, tac, tac em ampliação desmesurada, fé em estado efervescente. O gravador faz stop, acabou a gravação.


      Foto daqui

      “A primeira grande peregrinação à Muxima de que há registos aconteceu em 1650, quando se repôs a imagem da santa no altar-mor da igreja, vencida a invasão holandesa”, conta Mário Torres, reitor do santuário. No entanto, já antes o culto se fazia sentir naquela área, em torno de “uma antiga capela de pau-a-pique que havia numa zona que o rio entretanto tomou”. As lendas em torno do culto “são muitas”, conta o sacerdote, mas há uma que chama especial atenção: “o povo conta que esta igreja da Muxima apareceu de um dia para o outro, como por milagre.
      No meu entender isso é uma forma das pessoas explicarem a forma como o culto se impôs na região que, de facto, aconteceu num espaço de 15 anos”. Mário Torres rejeita também a versão popular de a Mamã Muxima ter aparecido no local onde se ergue a capela, no alto do morro. O sacerdote assume ainda o sincretismo do culto à imagem. “A devoção à Mamã Muxima não é puramente cristã, envolve muita magia e feitiçaria. As pessoas vêem a santa como uma pessoa com muito poder, suficientemente forte para fazer o bem e mesmo o mal”, diz, explicando que o desafio passa por “atribuir um verdadeiro significado cristão ao culto, incorporando o que a tradição tem de bom”.
      Este ano a romaria aconteceu mais cedo. “A acontecer no primeiro domingo de Setembro, como é normal, a peregrinação calharia dois dias depois das eleições, o que poderia colocar as pessoas entre duas opções: ou votar ou vir à Muxima. Como temos que assumir a nossa responsabilidade, resolvemos alterar a data”, explica o reitor.

      [Aqui]

      duo ouro negro - muxima