MAGAÍÇA
A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios
Tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.
E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse, voltou.
e com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado
embrulhado em ridículo.
Ás costas - ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?
trazes as malas cheias do falso brilho
do resto da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
á cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone...
A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer City.
(Noemia de Sousa)
A publicacao deste poema, que
aqui fiz ha alguns dias, e agora tambem publicado no blog
“A Materia do Tempo”, sugeriu-me uma das formas em que a blogosfera pode ser resgatada de uma certa tendencia de se a transformar em lugar de rivalidades, conflitos e “apartheids”.
O facto de o Denudado ter apresentado um breve glossario dos termos usados por Noemia de Sousa neste poema e o ter ilustrado com uma fotografia de “mamparras/magaicas” nas minas da Africa do Sul, sugeriu-me que talvez fosse oportuno ir desengavetar o texto em anexo (
aqui), constituido por breves extractos de uma serie, que publiquei no Semanario Angolense (Luanda) em 2002, sobre a Historia Economica da Africa Austral. Nele faco uma breve analise historico-economica dos fluxos de trabalho migrante oscilatorio nas minas da Africa do Sul, de que o “mamparra/magaica” foi e, em grande medida, continua a ser, a figura central.
Com este post pretendo, portanto, contribuir para essa funcao de complementaridade, interaccao e partilha em que a blogosfera pode ser, positiva e produtivamente, usada e, tambem, salientar a funcao de analise e mensagem social que a poesia, quando escrita por poetas atenta(o)s e lucida(o)s, pode ter para o registo, ainda que apenas parcial, pontual e pictorico, da realidade social, economica, cultural e historica em qualquer pais ou regiao do mundo.